Política

ANÁLISE

Lula será solto, Bolsonaro quer mais ataques econômicos, para onde vai o país?

Bolsonaro e Guedes apostam suas fichas em uma nova rodada de ataques, contra os servidores públicos, a saúde e educação. Isso depois da Globo elevar o tom contra Bolsonaro. Enquanto isso o STF toma uma decisão que vai libertar Lula e nas próximas semanas ou meses vai julgar a suspeição de Moro, que pode inocentar Lula e lhe devolver os direitos políticos. A Lava Jato sai derrotada do STF e na próxima terça-feira Dallagnol deve sofrer condenação em julgamento do Ministério Público.

Thiago Flamé

São Paulo

sexta-feira 8 de novembro| Edição do dia

Os ataques planejados por Bolsonaro, Guedes, Rodrigo Maia, Davi Alcolumbre, e que contam com aplauso de toda mídia, atendem a necessidade dos capitalistas aumentarem seus lucros, liberarem mais recursos públicos aos parasitas nacionais e imperialistas da dívida pública brasileira. Esse plano anunciado, acelerado nos últimos dias, pode se chocar com a revolta contra medidas neoliberais como vimos no Equador, no Chile? Qual o impacto no movimento de massas da libertação de Lula?

1. Bolsonaro aposta na polarização para se manter e poderá terminar caindo bem para sua estratégia a libertação do Lula. Ele fez dois movimentos que são fundamentais para sua sustentação, especialmente num cenário com Lula livre. Frente as acusações veiculadas pela Rede Globo, que pela via do depoimento do porteiro ligou os assassinos milicianos de Marielle e Anderson à família Bolsonaro, radicalizou o discurso, ameaçou a Rede Globo, criticou o STF e pela palavra do filho ameaçou com um novo Ai-5 caso o Brasil siga pelo caminho do Chile. O general Heleno, depois do Eduardo Bolsonaro voltar atrás, manteve a ameaça, se distanciando da maioria do Alto Comando da ativa, que não pretende, por hora, resgatar a memória da ditadura militar. Essa radicalização do discurso de extrema-direita é voltado fundamentalmente à sua base mais dura, aqueles 10 ou 15%, que esperam do “mito” uma “nova política”. Se apoiando nesse setor cogitam romper o PSL e formar um partido próprio, muito mais alinhado ao clã familiar. Como não tem nada a oferecer para essa base, que se desgastou bastante entre os praças do exército por conta da reforma da previdência beneficiar as altas patentes, oferece um discurso de extrema-direita e uma lista de inimigos.

Evidentemente essa base social não é suficiente para governar o país. Bolsonaro precisa manter o apoio das finanças e dos empresários, se não ao conjunto da obra do seu governo, pelo menos como o mais gabaritado neste momento para levar a frente o conjunto de ataque neoliberais que os grandes capitalistas exigem. Como a Lava Jato se mostrou ineficaz para controlar o Congresso e mais ainda depois do escândalo da Vaza Jato, se rende a negociação de emendas com os parlamentares. Com esses ataques que vão golpeando o que resta das pequenas conquistas sociais que a elite foi obrigada a conceder na constituição de 1988, que são parte do mantra das elites econômicas, tenta se mostrar como um mal necessário para levar a cabo esse programa. Ruim comigo, pior sem mim.

2. Globo, a maioria do STF, do Alto Comando do Exército e o centrão dirigido por Rodrigo Maia, tentam viabilizar uma alternativa de centro direita, alternativa ao bolsonarismo e ao petismo. Vão golpeando e minando as bases do bolsonarismo, se postulando como uma alternativa mais legitimada frente a um provável fracasso futuro do governo Bolsonaro. Essa política de minar o bolsonarismo, porém, tem seus limites. Não querem avançar até uma ofensiva destituinte, por que isso poderia levar não ao seu próprio fortalecimento, mas ao de Lula e do petismo.

Entre esses setores, cada um faz seu próprio jogo, nem sempre atirando nos mesmos alvos. A Globo, além dos seus objetivos mais gerais de legitimação do sistema político, luta sua própria batalha contra o bolsonarismo e para isso tenta se apoiar no público progressista, o que entra em contradição com o seu apoio ao programa econômico do governo Bolsonaro. Essa contradição, aliás, é o de todos deste bloco e um obstáculo para a reconstituição da centro direita, assim como o grosso dos setores burgueses que os apoiam. Não querem o Bolsonaro, mas ainda precisam dele. A cúpula do Exército tem seus próprios motivos para precisar do Bolsonaro, que é conter a insatisfação crescente na tropa com os enormes privilégios do generalato.

O STF se comprometeu até o último fio de cabelo com o golpe institucional, mas começou a ver que a sanha do punitivismo judicial da Lava Jato iria se voltar contra si próprio e está tomando as medidas para enfraquecer a Lava Jato e recompor sua autoridade suprema sobre o conjunto do judiciário. Esse caminho passa por ir oferecendo cotas limitadas de liberdade para o Lula, que deve ser solto se não já nessa sexta, nos próximos dias. Está inscrita como possibilidade para as próximas semanas ou meses a completa reabilitação do ex-presidente, quando for a julgamento a suspeição do juiz Sérgio Moro.

3. Lula e o petismo. Com Lula preso o PT estava vendo suas divisões internas aumentarem, assim como perdendo posições para os outros partidos da oposição, especialmente PSOL e PCdoB. Frente aos setores que defendem a conformação de frentes de esquerda no Rio de Janeiro e em Porto Alegre, os governadores do Nordeste vão aprofundando uma posição contrária, de algum diálogo institucional com Bolsonaro e alianças à direita. Com Lula solto, a equação interna no PT deve se modificar e sua figura vai conter as tendências dispersivas no partido, dando mais coesão ao petismo. Ao mesmo tempo, pode elevar ao absurdo o duplo discurso petista. Pode impulsionar a frente sindical e social do partido e liderar a oposição ao bolsonarismo, mesmo com tão intensa trégua que as centrais tem dado a Bolsonaro? De outro também é possível que possas conduzir as alianças do PT à direita, cortar as asas dos setores que defendem alianças com o PSOL e acenar para o centrão que hoje está com Maia. Lula poderá tentar recuperar o espeço perdido pelo PT à esquerda e à direita?

O efeito de sua soltura sobre o movimento de massas também será contraditório. Vai conferir maior legitimidade a um sistema político cada vez mais desgastado e ser um ponto de apoio dos setores burgueses que querem minar o bolsonarismo, ao passo que é um grande ativo da elite para evitar cenários chilenos no Brasil. Porém a contrapartida é a moralização das massas petistas e lulistas, que vão se sentir mais fortalecidas e liberar energias contidas que podem se expressar em mais lutas de resistência, mesmo que a intenção de Lula não seja essa. É preciso se apoiar em cada movimento de luta que surja e buscar o desenvolver, aprofundar, coordenar para que rompa os limites de contenção que o petismo buscará impor.

4. O ator ausente do tabuleiro político brasileiro é o movimento de massas. Seu surgimento na arena política modificaria todo o panorama no Brasil e seria um enorme impulso para os povos de toda a América Latina. O duplo discurso petista que vai se intensificar, visa eliminar essa ameaça e manter qualquer movimento que surja sob a sua influência, conduzindo tudo para as eleições de 2020 e 2022. O PSOL não tem nenhuma política alternativa e padece, em menor escala, dos mesmos vícios da política de conciliação de classes do PT, como pode-se ver nos acenos do Freixo a figuras sinistras como Janaína Paschoal ou na busca do PSOL gaúcho de um acordo programático com Ciro Gomes. È a política da chamada frente ampla, que unificaria PSOL, PCdoB, PT, e mesmo partidos burgueses como PSB, PDT e outros. Estrategicamente, tira qualquer possibilidade de protagonismo independente do movimento de massas, que ficaria subordinado a política de setores burgueses oposicionistas.

Contra isso defendemos um caminho que leve ao protagonismo da juventude e da classe trabalhadora na luta contra o bolsonarismo. Lutamos pela frente única de todas as organizações de massas, os sindicatos, as entidades estudantis, os movimentos sociais combativos, na mobilização contra os brutais ataques do bolsonarismo. Exigimos dos sindicatos, da CUT e da CTB, que rompam com a política de conciliação de classes e impulsionem a mobilização. Em cada local de trabalho e estudo defendemos a necessidade de assembleias para discutir como levar adiante essa luta, e coordenações entre os diferentes setores para que ninguém lute isoladamente. Apontamos a necessidade da construção de um partido revolucionário que possa batalhar por essa perspectiva.




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