Política

ELEIÇÕES 2018 E O PT

Lula perdoa os golpistas: o "menos pior" não pode reverter os ajustes

Frente a figuras como Bolsonaro, muitos podem pensar que Lula seria uma alternativa. Contudo, a direita vai muito além de Bolsonaro e os ajustes muito além de 2018. O PMDB, com quem novamente Lula está propondo alianças, é o partido no Executivo à frente dos ataques aos direitos trabalhistas e sociais. Perguntamos: Lula está falando em realizar um referendo revogatório caso eleito para desfazer alguns ataques realizados pelo atual governo, mas como seria possível combater a direita e desfazer as medidas de Temer aliando-se com os mesmos golpistas e empresários?

segunda-feira 6 de novembro| Edição do dia

Nas pesquisas eleitorais para 2018 Lula é o único candidato a frente do Bolsonaro, uma das expressões mais reacionárias e odiadas da direita nacional. Isso pode levar muitas pessoas a concluírem que o PT seria uma alternativa “menos pior” a essa direita. A lógica seria que, frente à ameaça de Bolsonaro, todos os outros fatores seriam menores, inclusive o fato de Lula e o PT estarem perdoando os golpistas e buscando novamente alianças com o PMDB em oito Estados, ou Lula falar que já não é mais hora de falar em “Fora Temer”.

A busca por alianças com o PMDB é só uma ponta “do iceberg” da reedição da estratégia de conciliação petista, que justamente fortaleceu a direita. Se o governo de Dilma terminou com a tragédia do golpe, a campanha Lulista é a farsa anunciada.

O discurso inflamado do petista contra os retrocessos que resultaram do golpe institucional esbarra na necessidade de, para governar, o PT precisar fazer alianças com os golpistas e também reconquistar o empresariado. É importante lembrar que o impeachment de Dilma foi motivado pela pressão empresarial para que fossem aprovados ataques maiores e mais rápidos do que o PT conseguia fazer.

O golpe institucional, ao mesmo tempo em que tinha como objetivo atacar brutalmente os direitos dos trabalhadores e garantir maiores lucros e explorar mais os trabalhadores, também manteve uma certa preservação do PT. A questão nunca foi o problema da corrupção, contudo a lava jato e a polarização entre os golpistas e não golpista contribuiu a um imaginário de que as disputas políticas se dão entre direita e esquerda, e não entre dois interesses de classes distintos.

Isso gerou um sentimento em amplas camadas, mesmo entre aqueles não tão simpáticos a Lula, de que Lula poderia "frear em algum grau" os ataques. E a serviço disso, importaria menos as alianças com golpistas e partidos da direita, um procedimento "necessário nesse momento complexo" e subordinado ao objetivo de "frear Temer".

Mas, em primeiro lugar, as alianças que Lula e o PT buscam travar agora em vistas às eleições de 2018 não estão dissociadas da política a implementar, caso vençam. Quem disse que o PMDB, ou o arco de partidos de direita com quem o PT julga oportuno renovar pactos de conciliação, permitirão qualquer "reversão dos ataques golpistas"? Se eles mesmos foram entusiastas partícipes do golpe? Ou uma pergunta mais direta: quem disse que o PT não tem grande responsabilidade na implementação dos ajustes de Temer, uma vez que até aqui, não apenas conteve e silenciou qualquer resistência contra a ofensiva da direita (dirigindo grandes organizações de massas, como a CUT), mas também concedeu governabilidade a esse regime liderado por Temer?

Para saber mais - Mal maior, mal menor e “resistências”: um diálogo sobre o papel de Lula e do PT

Sob a aparência da "esperteza política", ou do "momento oportuno" para "coligar-se com golpistas para freá-los", ressuscita-se uma ideia muito velha e que nos trouxe até o golpe institucional: a ideia de que é possível conciliar os interesses da imensa maioria da população trabalhadora com os interesses dos capitalistas e seus políticos corruptos. Nos próprios comentários aos artigos do Esquerda Diário vemos a indignação de amplos setores com a política anunciada por Lula de "perdoar os golpistas" e aliar-se a eles (como já fazem em diversos estados do Nordeste como Alagoas, Ceará, Piauí, e outros estados do Sudeste como Minas Gerais).

Lula admitiu publicamente: voltar ao governo significa mostrar aos empresários que pode garantir seus interesses, enquanto alimenta um discurso popular que visa conter as revoltas e as lutas. Em sites petistas, como o Brasil 247, vários textos desenvolvem o problema petista que é reconquistar a classe média e o aceno aos empresários. Lula foi a Minas Gerais também com o objetivo de ganhar apoio do dono da Coteminas, Josué Gomes da Silva, filho do José de Alencar, ex vice-presidente de Lula.

A ironia para o petista, é que o empresário Josué, não só já disse não estar interessado em participar de uma chapa como vice-presidente em 2018, como só aceitaria se “for um pedido do Flávio Rocha presidente do grupo Guararapes, da rede varejista Riachuelo. Se ele se lançar à presidência, meu voto é dele” . Flavio Rocha utiliza de trabalho escravos na têxteis que fornecem para a Riachuelo e a própria Coteminas já esteve envolvida em denuncias de trabalho escravo em anos anteriores.

A suposta "necessidade de qualquer pacto para barrar o golpe" é a receita para voltar pelo caminho mais curto ao que nos conduziu a década petista: Temer, Meirelles, ajustes, repressão. Ou seria diferente o resultado ao aliar-se com ninguém menos que Renan Calheiros, Kátia Abreu e Cia? Não à toa, Albert Einstein dizia que insanidade é continuar fazendo sempre a mesma coisa e esperar resultados diferentes.

Se o objetivo for "diminuir um pouco a miséria do possível" para no futuro pensar em novas aspirações (que sempre decaem em repetir a luta para diminuir a miséria do possível), então o discurso de Lula pode chegar a convencer. Mas se nosso objetivo for enfrentar cientificamente, realmente, os grandes capitalistas e a direita política, é necessário preparar os próximos combates superando a velha estratégia de conciliação e perdão que o PT tem com os empresários.

Veja mais - A odisseia de Lula: perdoar os golpistas e aliar-se com a direita para 2018

Uma alternativa à esquerda para a crise que possa combater a direita pela raiz, nunca será se aliando com ela “para governar”. Mas sim, uma alternativa radical e anticapitalista, porque de “menos pior” em “menos pior” sempre acabamos com algum nível de “pior”, e após a experiências que os trabalhadores, jovens e mulheres vem tendo pelo mundo, nas suas lutas coloca cada vez mais a necessidade de uma esquerda anticapitalista que leve cada batalha a vitórias.

Um grande exemplo disso vemos hoje na Argentina, com a Frente de Esquerda e dos Trabalhadores, que com forte inserção nas fábricas, escolas e serviços conquistou nas eleições 1,2 milhão de votos com um programa de independência de classe e anticapitalista, para enfrentar Mauricio Macri e aquela "oposição leal" que, como o PT aqui no Brasil, segue fazendo o jogo da direita.

Veja aqui - Quem é a Frente de Esquerda que se fortalece na Argentina?




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