Política

CARAVANA DE LULA NO RIO

Lula faz caravana eleitoral no Rio, logo após a traição da CUT na luta contra as reformas

Carolina Cacau

Foi candidata a vereadora do MRT em 2016, é estudante da UERJ e professora da rede estadual.

sexta-feira 8 de dezembro de 2017| Edição do dia

Lula está em plena campanha eleitoral para 2018. Percorreu o nordeste e regiões onde sua popularidade é imensa, e agora começa a ir para os locais em que seu índice de rejeição é maior. Um dos desafios dele é a caravana no Rio, e não à toa de antemão dirigentes petistas se preocuparam com a passagem de Lula por um estado em que a maioria de seus aliados, como Cabral e Garotinho, estão presos por corrupção.

Demagogia em uma universidade popular, e reuniões com seu maior inimigo

Entre os locais em que vai visitar está a UERJ, a primeira universidade a adotar cotas no país, conhecida nacionalmente por ser frequentada pela juventude negra, das favelas, pelos trabalhadores e seus filhos. E que, não à toa, está sendo um dos principais alvos do governo de Pezão em tempos de crise, com falta de bolsas, de bandejão, de condições para o Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE) – que hoje está trabalhando com condições extreamamente precárias – e salários atrasados para docentes e funcionários.

É bastante claro o objetivo de Lula ao ir à UERJ, bem como de denunciar a paralisação das obras do Comperj promovida pela Lava Jato: ele quer nos convencer de que a sua candidatura em 2018 é a luz no fim do túnel para todos os ataques que estamos sofrendo por parte da direita: de Temer, Pezão e Crivella. Que com uma nova presidência nas mãos do PT, as coisas irão melhorar para os trabalhadores, a juventude e os mais pobres.

A primeira prova de quão falsa é essa promessa é o fato de que nessa mesma caravana Lula pretende conversar amigavelmente com Pezão sobre os planos para o futuro. Se Lula já anunciou publicamente que “perdoa os golpistas”, no Rio ele está disposto a costurar aliança (novamente) com o governador que está promovendo todos os ataques contra os trabalhadores, destruindo os bens públicos como a UERJ, sendo a linha de frente do golpismo e suas medidas que destroem nossas vidas. Quem está ao lado do Pezão não pode estar a nosso favor. Não é à toa que em seu discurso Lula diz que é apenas a Lava Jato que é culpada pela crise do estado, e não fala uma palavra sobre a responsabilidade de Pezão e do PMDB. Ainda mais absurdamente, procura “salvar” seu aliado Cabral, afirmando que não sabe se as acusações contra ele são verdadeiras, quando é evidente para todos os fluminenses o papel criminoso que o ex-governador cumpriu.

Perdoando os golpistas e abraçando a direita: ontem, hoje e sempre

É claro que é um escândalo a forma como Lula vem se reaproximando dos golpistas, com medidas como o retorno à base do governo de Renan Filho em Alagoas, as negociações entre o Senador Eunício Oliveira (PMDB) e o governador Camilo Santana (PT) no Ceará, os acordos de aliança para 2018 com o PMDB no Piauí, entre outros. Mas, infelizmente, essa forma de agir não é novidade.

As conversas para a aproximação de Pezão no Rio pode ser lembrada à luz da aliança que os governos petistas fizeram com gente como Fernando Collor, o oligarca alagoano que derrotou Lula em 1989 e foi pioneiro das políticas neoliberais no país; ou com Paulo Maluf, homem biônico da ditadura e condenado por corrupção no Brasil e no exterior. Esses, contudo, já eram os podres poderes consolidados quando o PT chegou ao governo, e apenas “se curvou” ao seu poder em nome da suposta “governabilidade”. Mas, mais do que isso, o PT consolidou ainda mais a direita do chamado “centrão”, fazendo despontar na política nacional figuras como o reacionário pastor Marco Feliciano, a quem concedeu, por meio de acordo, a presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara; a “motosserra de ouro” Katia Abreu, que foi colocada no posto de ministra por Dilma. Sem falar na consolidação de figuras como Temer e Cunha nos postos de poder – vice-presidência e presidência da Câmara – que garantiram a articulação do golpe institucional.

Essa é a estratégia da “governabilidade” petista, na qual as alianças com a direita são imprescindíveis e, quem “paga o pato” são os trabalhadores e o povo pobre. No Rio de Janeiro, o todo-poderoso PMDB, mesmo que hoje com figuras questionadas e presas, não poderá ficar de fora das alianças petistas; a reunião com Pezão é a maior demonstração disso. E o que nós podemos esperar disso, se não novos ataques?

O PT trouxe ao Rio às assassinas UPPs, e em tempos de crise trará mais repressão


Lula na inauguração da primeira UPP, no morro Santa Marta

Na maior parte dos treze anos de PT no governo, o Brasil passava por um período de crescimento econômico. Por isso, os dois governos de Lula e o primeiro de Dilma puderam fazer concessões mínimas aos mais pobres, como bolsa-família, aumento irrisório do salário mínimo, expansão das universidades federais com implementação das cotas mas sem garantir verbas pra garantir qualidade e permanência estudantil, entre outras, ao mesmo tempo em que concedia a seus aliados banqueiros e empresários lucros recordes. Mesmo assim, como discutimos aqui, a desigualdade real seguiu aumentando no país. Os de baixo ganhavam as migalhas, e os de cima o farto banquete.

Mas a crise mundial causada pelos capitalistas chegou ao país, e uma pequena amostra de como o PT lida com isso nós vimos no breve segundo governo de Dilma: em um dia, assumiu com o discurso de “pátria educadora”, mas em todo o período seguinte o que vimos foram inúmeros cortes de bilhões de reais, principalmente em áreas como saúde e educação. Para os patrões, os cortes do PT não foram suficientes, e por isso articularam o golpe para que Temer levasse adiante com mais rigos os ataques. Contudo, os cortes que vinham sendo feitos por Dilma deixam claro o seguinte: em tempos de crise, o PT, pautado em sua estratégia de “compor uma maioria parlamentar” com a direita para garantir a “governabilidade”, estará disposto a ceder muito mais aos patrões, o que significa que os ataques contra nós continuarão ocorrendo. Aliás, o PT já está fazendo esses ataques, como, por exemplo, em MG, onde o governo de Pimentel parcela os salários dos servidores e iniciou a privatização das escolas por meio de PPPs.

No Rio, nos tempos de crescimento, o PT foi parte da aliança que trouxe as assassinas UPPs para os morros como "solução" pros problemas da chamada "segurança pública", utilizando o treinamento das tropas que enviou para a criminosa missão de ocupação no Haiti, assassinando e reprimindo nossos irmãos negros no país que protagonizou a primeira revolução vitoriosa de escravos insurretos. As UPPs nunca foram uma "alternativa" que pudesse de fato combater o reacionário narco-tráfico, os índices de violência diminuiram por um período fundamentalmente porque melhorou a economia nacional e local, mas na verdade a UPP foram agentes de matar e torturar, com alguns casos que se tornaram conhecidos, como os de Amarildo e DG, e muitos outros que permanecem ocultos. Hoje a militarização nos morros segue matando, e as operações de ocupação como as da Rocinha estão fazendo a cada dia novas vítimas, como a jovem Maria Eduarda, morta dentro de sua escola pelas balas da polícia. O PT fez parte das militarizações, e de volta ao poder será continuador dessa política de extermínio e repressão contínua ao povo negro nos morros. Com a crise e o acirramento da desigualdade, a tendência à maior violência social é maior, e a resposta que os governos dos capitalistas podem nos dar – seja do Lula ou da direita – é mais repressão ao povo negro e aos morros.

Enquanto Lula faz campanha, a CUT e CTB calam as lutas contra as reformas

Lula quer nos convencer que a saída está em apertar 13 nas urnas, e assim ele irá “sumir” com as reformas de Temer que acabam com nossos direitos. Mas a maior prova de que o PT não quer levar adiante nenhuma luta séria contra esses ataques é que esse partido controla a maior parte dos sindicatos brasileiros por meio da CUT, e seus aliados do PCdoB por meio da CTB. Tinham tudo na mão para organizar uma poderosa greve geral em todo o país para barrar as reformas, mas traíram ao não mobilizar seriamente contra os ataques do governo golpista e especialmente no 30 de junho. Nesse dia 5, poderiam ter parado mais uma vez contra a reforma da previdência, mas decidiram cancelar de última hora, em comum acordo com as centrais patronais que negociam diretamente com Temer, como Força Sindical, CGTB e UGT. Colocaram mais uma vez a iniciativa nas mãos de Temer e deixaram o caminho livre para os ataques, amarrando as mãos dos trabalhadores que estão cheios de ódio e disposição para lutar.

Lula, de fato, se afasta prudentemente de qualquer menção à luta nas ruas contra as reformas (canalizando o descontentamento massivo para um suposto "referendo revogatório" caso seja eleito), e não é em vão: não quer se indispor com os empresários capitalistas, pelo contrário, quer mostrar-se como um fiador dos lucros de banqueiros e industriais como nos anos em que governou.

A verdade é que o PT e a CUT não lutam contra as reformas como também não lutaram seriamente contra o golpe; há muito tempo já deixaram claro seu papel de contenção do ódio e da vontade de luta dos trabalhadores, atuando como verdadeiros “bombeiros” para apagar o fogo da luta de classes em vez de atuar para que se transforme em um incêndio para corroer esse regime político e esse sistema capitalista apodrecido. E, agora, num momento de ataques particularmente agudos, mostram que continuarão cumprindo esse papel.

Por tudo isso, não acreditemos nas "palavras bonitas" que podem vir a ter de Lula em seus discursos na UERJ e em outros lugares do Rio. Há muitos que veem, frente às candidaturas da direita, como Alckmin e mesmo o crescimento de Bolsonaro, que votar no Lula seria um “mal menor”, pois ainda que vejam todos os problemas do PT, ainda acreditam que uma presidência de Lula é a única alternativa para parar o avanço da direita e dos ataques. Infelizmente não é bem assim, pois o “mal menor” do PT na presidência não só não impediu o golpe que foi dado para aplicar todas essas reformas, como abriu caminho para ele, pavimentou o caminho para que a direita pudesse consolidar a via do golpe. E agora o golpe está perdoado por Lula. Isso porque enquanto fortalecia esses setores da direita como “aliados”, enfraquecia a organização independente dos trabalhadores, que seria a única capaz de fazer frente ao golpe e propor uma saída para que os capitalistas paguem pela crise.

Abramos nossos olhos para o que ele dirá em suas conversas privadas com Pezão; para como agem cotidianamente os dirigentes sindicais petistas na CUT; para os novos e velhos acordos com a direita. Para derrotar Temer e os ataques, confiemos em nossas próprias forças; construamos a partir dos locais de trabalho e estudo um caminho independente, um caminho de retomada das greves para derrotar os patrões e governos e construamos uma alternativa política de independência de classe dos trabalhadores e da juventude. Para essa tarefa, não há atalhos. É necessário um arduo trabalho para avançar nessa perspectiva, para a qual colocamos o Esquerda Diário que alcançou um milhão de acessos em um mês e nossa atuação nas lutas a serviço, bem como nos propomos a entrar no PSOL para fortalecer essas batalhas.




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