Política

DISCURSO DE LULA

Lula critica concursados em geral para defender os políticos em geral, incluindo corruptos

Após a pecha que se deu no lugar da acusação de Lula feita ontem em coletiva de imprensa, o ex-presidente realizou um longo discurso no qual, dentre outras coisas, dedicou tempo para fazer chacota dos cargos concursados em defesa da “profissão” dos políticos privilegiados, corruptos e ajustadores. Uma crítica que não tocou os privilégios pecuniários de alguns, sua falta de elegibilidade e por outro lado sobraram elogios aos políticos.

Ítalo Gimenes

Coordenador do CACH - Unicamp

sexta-feira 16 de setembro| Edição do dia

A acusação de que Lula seria “comandante máximo do esquema de corrupção” investigado pela Lava Jato, baseada em zero provas, mas muita convicção e arbitrariedade do poder Judiciário brasileiro, e que foi esculachada nas redes sociais, deu vida fácil para Lula e o PT. Não se aproveitou disso para questionar o judiciário, coisa que não faria para não atacar um pilar do Estado, mas para mostrar serviço aos empresários, se oferecer como opção de governo para que lucrem mais, como desenvolvemos nessa outra nota.

Neste artigo vamos nos concentrar em um aspecto do discurso. O baixo critério que Lula se utilizou para lançar toda a descrença com esse sistema político, suas instituições e seus políticos corruptos, reacionários e ajustadores, nas costas dos servidores públicos concursados.

Lula faz uso da seguinte metáfora, que disse ser de própria alcunha: “O presidente é uma locomotiva. A máquina pública é a estação. Todo dia passa uma locomotiva nova, mas a estação tá lá, impávida. Ela não muda, os funcionários são os mesmos porque são todos concursados”, para então seguir em defesa do jogo sujo dos políticos:

“Eu de vez em quando falo que as pessoas achincalham muito a política. Mas a profissão mais honesta é a do político. Porque todo ano, por mais ladrão que ele seja, ele tem que ir pra rua, encarar o povo, e pedir voto. O concursado não, se forma numa universidade, faz um concurso, e tá com emprego garantido pelo resto da vida. O político não, ele é chamado de ladrão, de tudo, mas ele tá lá, pedindo outra vez o seu emprego.”

O que Lula faz é nada mais que uma crítica genérica aos servidores públicos concursados. O ex-presidente não faz o esforço de colocar as diferenças no setor público. Porque há de fato um setor mais privilegiado dos servidores, que constituem uma elite intelectual que pode ter acesso à universidade e a uma especialização muito restrita, e que constituem uma casta burocrática, política e poderosa, no Estado, sem ter sido eleita por ninguém. Mas essa não era a intenção do questionamento de Lula, mas apenas de contrapor os privilegiados concursados aos políticos, crucificando o primeiro para salvar o regime político que sustenta os segundos. Uma tentativa dizer qual das castas privilegiadas devemos aplaudir.

Privilegiados são tanto os políticos como a alta casta do funcionalismo, não professores, profissionais da saúde, ecetistas, etc, que também prestam concurso. São os membros do Judiciário como Sergio Moro, cujo salário é de R$ 80.000, e possui o poder de tomar decisões de extrema arbitrariedade e autoritarismo como quando decretou prisão coercitiva a Lula. Mas também são os promotores públicos, do MPF, por exemplo, como os acusadores do dia de anteontem, que inclusive usufruem do poder que o governo de Lula os concedeu, permitindo tamanhos autoritarismos que agora voltam-se contra ele – agora, se exercem esse poder contra um ex-presidente, imaginem o nível de arbitrariedade contra o povo pobre desse país.

No entanto, esse professores, profissionais da saúde, ecetistas, enfim, diversas profissões cuja condição de trabalho é de extrema precariedade, mas que, não obstante, são vitais para a qualidade dos serviços públicos do país, esses não podem ser colocados na mesma porção que Lula critica genericamente. Sem essa diferenciação entre concursados e concursados, o ex-presidente da entender que faz uma crítica ao próprio concurso público. Seria um simples descuido do ex-presidente?

Ou então, quem sabe, uma álgebra que o presidente encontrou na hora para tentar dar sentido à sua defesa desse regime político podre e dos seus jogadores? Lançar a culpa no concurso público, de maneira genérica, como responsável pelos “problemas políticos” do país, que cada vez mais geram asco e descrença na política por parte do trabalhador e do povo pobre, é uma tentativa de resumir esse período de crise aberta no regime democrático burguês, de crise orgânica como nós do Esquerda Diário definimos, a um problema meramente administrativo, e não das classes sociais, não da conciliação com os empresários e com a direita que o PT promoveu.

Portanto, Lula discursa com a missão de salvar as instituições que seu governo tanto “valorizou”, como ele mesmo diz, mas também a própria democracia representada pelos políticos corruptos que querem rasgar a CLT e afundar a Previdência. Quer restaurar a legitimidade no regime político podre que ele governou e quer voltar a governar, seja em 2018 ou através de eleições diretas.

Nós do Esquerda Diário, ao contrário de Lula e do PT, não acreditamos que seja possível salvar esse regime podre e corrupto. Por isso queremos estar ao lado de todos aqueles que não confiam mais nesse jogo político podre, nas ruas e nas lutas contra os ataques prometidos pelo governo golpista, através também de candidaturas independentes do PT e da direita nessas eleições municipais, com candidatos combativos que, através de propostas como “que todo político ganhe igual a uma professora”, questionem o privilégio desses políticos e esse jogo político de conjunto, lutar para junto disso que todos cargos políticos, no parlamento ou no judiciário, do país sejam elegíveis e revogáveis. Explorar a raiva dos privilegiados com um programa simples como esse como maneira de contribuir a questionar o conjunto desta democracia dos ricos, abrindo caminho à luta por um governo operário de ruptura com o capitalismo.




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