Política

ELEIÇÕES 2018

Luiz Marinho do PT: da contenção do movimento operário a gestor dos negócios capitalistas

Como autorizado porta-voz da política petista, Marinho deixa claro que as alianças do PT com a direita atravessarão todo o país.

Maíra Machado

Professora da rede estadual em Santo André e militante do MRT

Marcello Pablito

Trabalhador do bandejão da USP e membro da Secretaria de Negras, Negros e Combate ao Racismo do Sintusp

sexta-feira 14 de setembro| Edição do dia

Foto: Divulgação/ Jornal ABCD

A trajetória política do atual candidato do PT ao governo do estado de São Paulo, como de muitos outros representantes desse partido, iniciou-se no sindicato dos metalúrgicos do ABC. Luiz Marinho era operário do setor de pintura na fábrica da Volks, em São Bernardo do Campo, durante o ascenso operário traído e desviado para a conciliação com a ditadura pela corrente de Lula, que se afirmava como os “autênticos”. Sua atuação como cipeiro, que apoiava a direção do sindicato e negociava pelas costas dos trabalhadores com os patrões e a ditadura, é possível constatar em um depoimento do próprio candidato após a traição das greves de 79. “Na greve de 79, acho que também comentei isso, o retorno da greve foi muito duro para o sindicalismo em si, porque a visão dos trabalhadores como um todo, com raríssimas exceções, era de que o Sindicato tinha se vendido, tinha traído, vários comentários. Eu me lembro inclusive de um episódio. Eu estava trabalhando na oficina nesse momento, o pessoal criticando muito o Sindicato, e eu dizendo que não, que na análise da direção do Sindicato, do ponto de vista econômico, era impossível você avançar, e que essa foi a visão que o Lula propôs para o retorno ao trabalho, propôs a trégua, tal. Mas o pessoal não aceitava essa visão, de jeito nenhum”.

Essa tradição política que Marinho assume junto ao grupo dirigente do Sindicato, com Lula, Vicentinho, entre outros que foram se somando à grande máquina burocrática, vai transformando o Sindicato dos Metalúrgicos sob a direção do PT. O partido se transformaria em peça fundamental para a transição pactuada com a ditadura, para a abertura lenta e gradual da democracia. Nessa trajetória ascendente como tesoureiro do Sindicato, secretário geral e presidente, Luiz Marinho se destacou pela atuação na formação da Câmara Setorial Automotiva, como vários interlocutores da burguesia defendiam na época. Em suma, muito antes das negociações da câmara setorial, os sindicalistas de São Bernardo e as montadoras haviam transformado uma situação de "guerra total" em uma situação de diálogo institucionalizado, em que o "uso da força" — na adoção de medidas unilaterais e punitivas de um lado contra o outro —, tornou-se um procedimento só utilizado em última instância. Ou seja, os "inimigos" irreconciliáveis passaram à condição de "adversários". Da parte do sindicato, a mudança de atitude fez parte de uma redefinição mais ampla de sua estratégia. Essa transição a um "sindicalismo propositivo", conforme os termos utilizados pelos sindicalistas de São Bernardo, pode ser percebida pelo menos desde a campanha presidencial de 1989. Com a possibilidade de vitória de Lula, as lideranças sindicais pediram ao escritório do Dieese, em São Bernardo, a elaboração de um documento com propostas para uma política industrial alternativa para o setor automotivo. Um fato importantíssimo e pouco divulgado é o de que o relatório de 93 páginas, intitulado "Modernização Industrial: uma perspectiva alternativa para a Indústria Automotiva" lançou muitas das propostas que depois se tornariam as propostas oficiais dos trabalhadores por ocasião da instalação da câmara setorial, em dezembro de 1992.

Segundo o então secretário-geral do sindicato de São Bernardo, Luiz Marinho, a participação sindical na câmara setorial foi, assim, "o resultado da acumulação de experiência, informações e pesquisa".

As mudanças em São Bernardo ocorriam paralelamente ao aumento da intensidade dos debates no interior da CUT, no que diz respeito à forma de resolver o seguinte dilema: participar dos diversos foros institucionais ou, ao contrário, manter a "pureza" de classe e a autonomia sindical mediante a não-participação. Quando confrontada com o "dilema da participação" nos esforços de constituição de um pacto social nacional durante o governo Sarney, a CUT teve uma participação relutante, mas usou o foro de negociação mais para marcar uma posição intransigente do que para avançar com propostas concretas. Uma vez que as outras partes também pareciam não apostar em um consenso, a culpa pelo fracasso das negociações não pode ser creditada apenas à CUT. Contudo, com a possibilidade de participação sindical nos subgrupos de trabalho do Mercosul, a reativação das câmaras setoriais e as tentativas de negociação de um pacto social no governo Collor, o "dilema da participação" tornou-se um assunto controverso dentro da CUT em 1990 e 1991. Com o crescimento da participação dos sindicatos cutistas em diferentes câmaras setoriais e no Mercosul, bem como com a vitória de Vicentinho como sucessor de Meneguelli na presidência da central, as forças pró participação acabaram por consolidar sua hegemonia.

Com Lula como a principal figura política de massas, Vicentinho à frente da CUT e Marinho à frente do Sindicato dos Metalúrgicos, todos os acordos com o velho regime estariam assegurados enquanto essa estrutura burocrática sob direção do PT fosse um freio para a mobilização dos trabalhadores.

Durante seu mandato como prefeito em São Bernardo do Campo, Marinho também foi se adaptando e assimilando todos os métodos de gestão da máquina pública. Somente na sua gestão em São Bernardo do Campo como prefeito, foram inúmeras as denúncias de esquemas de corrupção, além de confrontos mais diretos com os servidores municipais de São Bernardo.

Isso sem falar nos cortes na educação. Afora os cortes na merenda das escolas municipais, a falta de pagamento de salários chegou a desencadear a greve das merendeiras que reivindicavam não só o pagamento de salários, mas a luta contra as demissões. Demissões essas que foram decorrência da falta de comida nas escolas, qual, por sua vez, serviu de desculpa para a empresa terceirizada ERJ (prestadora de serviços ao município) reduzir o quadro de funcionarias. E o que dizer do escandaloso elefante branco que se tornou o “Museu do Lula”? Além de ser uma grande via de transferência de dinheiro público para as grandes empreiteiras como OAS, CEI etc., até hoje não foi concluído e ainda custou cerca de 20 milhões de reais e continua com as obras paralisadas.

Seguindo sua trajetória politica é mais do que natural que Luiz Marinho seja a cara da política conciliadora do PT frente aos golpistas no pleito ao governo do estado de São Paulo. Sua candidatura segue mais como um palanque Nacional para Lula e funcional para o atual governador Márcio França do PSB, desgastando as figuras de Dória e Skaf. Essa estratégia política fica mais clara em suas expressões sindicais. No sindicato dos metroviários, por exemplo, CTB e CUT, abriram um suposto canal de negociação com o governo querendo passar uma imagem de que França estaria indo contra a privatização ou ao menos estaria disposto a dialogar, pelo fato do adiamento da concessão da Linha 15, prevista para ser entregue agora no mês de julho. Um fato irreal, já que isso não só dependia de França (desde agosto os processos licitatórios seriam paralisados devido a eleição), mas também porque o próprio defende em seu programa a continuidade das PPPs (Parcerias Público privadas) assumirem a administração das novas linhas do Metrô. Assim como na Apeoesp, onde não foram poucas as fotos sorridentes que Bebel da CUT pousou ao lado do governador, fazendo demagogia com bonificações aprovadas no semestre passado, que nem chegam perto de recuperar a perda salarial que os professores tiveram ao longo dos duros anos de gestão Alckmin e França no Governo. Esse tipo de estratégia revela o caráter de conciliação desses dois partidos e mostra qual política tiveram nos últimos anos, sendo responsáveis por abrir o caminho ao golpe institucional e para a direita no país. Como se vê em vários estados, PT e PC do B preferem fazer acordos com golpistas nessas eleições, ao mesmo tempo em que impedem o surgimento de uma alternativa à esquerda que apostasse na mobilização independente dos trabalhadores para enfrentar os ataques dos golpistas nestas eleições.

Em entrevista ao jornal "Estado de S.Paulo", deixa mais clara essa tentativa de acenar com trégua aos golpistas: “Veja, nós temos que recuperar bases. A maioria do povo também apoiou o impeachment e nós queremos recuperar a maioria do povo. Vamos precisar de uma grande aliança para governar, no Congresso. [...] O PMDB nunca foi um partido nacional, sempre foi uma federação de caciques nos estados. Então, vai depender do posicionamento do partido em cada estado”.

Como autorizado porta-voz da política petista, Marinho deixa claro que as alianças do PT com a direita atravessarão todo o país.

Se a candidatura de Marinho seguirá seu curso pragmático de ser funcional a Marcio França, e sem crescimento, ou se vai assumir uma posição de maior disputa com Skaf ou Dória, não elimina o fato de que o mal menor de hoje também pode ser o mal maior na luta dos trabalhadores amanhã. Se, eleitoralmente, o PT impede o surgimento de uma alternativa à esquerda, nos sindicatos, são parte de uma burocracia que contém as lutas e impede que os trabalhadores assumam o protagonismo na solução dos principais problemas do país. Por isso não votamos no PT, mas dedicamos nossa energia para denunciar o autoritarismo judiciário, com apoio do Alto Comando das Forças Armadas, que impediu o povo de decidir em quem votar ao vetar a candidatura de Lula, aprofundando o golpe institucional. Nossas candidaturas estão a serviço de construir uma alternativa independente, que sirva para ser uma ferramenta que atue com os trabalhadores em diversas categorias para recuperar os sindicatos, tirando-os do controle dessa burocracia, para que possamos reverter os ataques e os ajustes que irão se aprofundar, independentemente de qualquer governo.




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