Teoria

HISTÓRIA

Lucy dança, Lucy luta. O stalinismo persegue, hoje e ontem

Os comentários homofóbicos contra o vídeo de Lucy, estudante que dançou no acampamento da Juventude às Ruas, foram feitos por setores que reivindicavam Bolsonaro e Ratinho.Mas a menção a Stalin como parte do time homofóbico, obriga a retomar as raízes da ligação entre o stalinismo e conservadorismo. E sua diferença irreconciliável com princípios elementares do marxismo.

Simone Ishibashi

Rio de Janeiro

sexta-feira 5 de fevereiro de 2016| Edição do dia

Lucy é estudante secundarista de uma das escolas ocupadas mais emblemáticas de São Paulo, o EE Andronico de Mello. Foi parte daqueles jovens que derrotaram o governo Alckmin e seu plano de fechar escolas. Lucy lutou durante meses pelo que considerava justo. No último final de semana, Lucy participou do acampamento anticapitalista da Juventude às Ruas. Um vídeo de uma bela dança que executou na ocasião foi respondido por uma enxurrada de comentários homofóbicos.

Esses comentários, dignos das poeiras de humanidade mais abjetas que se pode imaginar, saudavam o direitista Bolsonaro, Ratinho e...Stalin. O que estimula a que elaboremos essas breves linhas sobre a relação histórica entre o stalinismo e o conservadorismo. E que teve sua marca, ainda que com fundamentos e traços distintos, em algumas guerrilhas latino-americanas.

A Revolução Russa trouxe as mais avançadas conquistas para os oprimidos

A Revolução Russa dirigida pelos bolcheviques em 1917 trouxe conquistas democráticas para os setores oprimidos, infinitamente superiores às dos países capitalistas imperialistas, já naquele início do século XX. As demandas das mulheres ocuparam um papel tremendamente destacado na política revolucionária. Como apontava Trotsky, dirigente do exército vermelho e um dos maiores revolucionários de todos os tempos, o novo poder instaurado pela revolução de 1917 “não se contentou em dar à mulher os mesmos direitos jurídicos e políticos que o homem. Fez também – e muito mais do que isso – tudo que podia e de qualquer modo muito mais do que qualquer outro regime para lhe dar acesso a todos os domínios econômicos e culturais1 ”.

Fazer com que as mulheres se tornassem sujeitos integrais de seu próprio destino, despojando-as da opressão, moralismo e hipocrisia que lhe eram impostos pelo capitalismo. Esse era o objetivo dos bolcheviques quando, antes da ascensão de Stalin ao poder, votaram leis que davam às mulheres o direito ao divórcio, ao aborto seguro e gratuito em 1920 (negado até hoje em nosso país, e que mostra sua face mais cruel com o recente surto de microcefalia), e construíram creches e restaurantes para tirá-las da clausura da vida doméstica. E isso mesmo em momentos extremamente difíceis como a guerra civil, que perdurou de até 1921, e que arrasou a economia no país e ameaçava a existência da jovem revolução.

Em relação à homossexualidade, ainda que se tratasse de um tema imensamente menos presente que na atualidade, os bolcheviques também aplicaram a mesma lógica de jamais reproduzir a repressão aos oprimidos feita pela sociedade burguesa. No início do século XX ser gay era crime sob pena de detenção, como no caso do escritor britânico Oscar Wilde, em diversos países da Europa Ocidental. Enquanto isso os bolcheviques não perseguiam os homossexuais, ou os criminaliza, tendo inclusive retirado os “crimes de sodomia” do código civil.

A reação stalinista: o “termidor” no lar

Quando Stalin ascende, após a morte de Lênin em 1924, e junto com ele uma burocracia com interesses próprios, aquele panorama legado pelas melhores tradições revolucionárias se transforma radicalmente. Ao contrário do avanço das liberdades democráticas e civis, se desenvolve um regime absolutamente conservador, que retira as conquistas das mulheres e dos setores oprimidos. Do direito de dispor de seu próprio corpo, as mulheres agora eram obrigadas pelo regime stalinista a aceitar “as alegrias da maternidade”, independentemente de sua vontade, de se tinham ou não condições para criar seus filhos. Começa uma campanha contra os divórcios, que passam a ser vistos como “muito frequentes”, e cria-se um imposto que se encarece caso se trate de um segundo ou terceiro divórcio. A família volta a ser a “maior realização” das mulheres soviéticas sob o regime de Stalin, bem como objeto de culto. Como bem assinalava Trotsky em sua crítica brilhante contida na Revolução Traída, o objetivo “mais imperioso do atual culto da família é sem dúvida a necessidade que tem a burocracia de uma estável hierarquia das relações e de uma juventude disciplinada e espalhada por 40 milhões de lares a servir de apoio à autoridade e ao poder”. A isso Trotsky denominou o “termidor do lar”.

O conceito “termidor” é tomado por Trotsky da Revolução Francesa e adequado para designar o momento em que o poder passa para as mãos das alas conservadoras sob comando de Stalin, que freiam o desenvolvimento da própria revolução. Esse foi um processo complexo, cuja análise extrapola os limites desse artigo. Mas o que cabe aqui é ressaltar como ocorre de maneira inequívoca com a ascensão de Stalin, que ao contrário de atuar para internacionalizar a revolução, e aprofundar suas conquistas, estimula o conservadorismo em todos os planos, e institui um rígido regime de controle absoluto, para garantir sua permanência no poder.

Dessa forma, não é de estranhar que todas as correntes políticas que se inspiraram no stalinismo tenham repulsa pela rebeldia da juventude, e sejam conservadoras em relação às demandas das mulheres e dos LGBTs.

As guerrilhas latino-americanas e a perseguição aos LGBTs

Essa atitude discriminatória e conservadora também foi uma marca de vários dos movimentos guerrilheiros latino-americanos. O caso mais conhecido é o de Cuba. A revolução cubana de 1959 se iniciou com o movimento contra a ditadura de Fulgêncio Batista, tendo na linha de frente Che Guevara e Fidel Castro. O objetivo inicial do movimento liderado por eles não era avançar para a expropriação da burguesia. Mas acabaram tendo que acabar com a propriedade privada dos meios de produção, como decorrência do combate à Fulgêncio.

Porém, diferentemente do partido bolchevique antes da ascensão de Stalin, o movimento dirigido por Fidel e Che não estava baseado numa estratégia internacionalista, e na busca por organismos de democracia de massas e dos trabalhadores organizados em soviets, tais como os que surgiram na revolução russa. Isso fez com que desde o início, o Estado que surgiu da revolução cubana tenha tido a imensa contradição de já estar dominado por uma burocracia. A própria estratégia guerrilheira, que substituía a mobilização das massas e dos trabalhadores na luta revolucionária por “focos” de combate ao poder instituído, fazia com que sua relação com os setores oprimidos fosse muito distinta à defendida por Trotsky e Lênin nos primeiros anos da revolução russa.

Isso levou a que em Cuba, durante a dominação de Fidel Castro, os gays tenham sido duramente perseguidos e postos em campos de concentração e prisões. Inúmeros escritores e artistas importantes foram perseguidos, sob a alegação de que ser gay seria uma “degeneração”. Portanto, uma grande conquista que havia sido a expropriação da classe dominante em Cuba, e consequentemente a ruptura à submissão ao imperialismo norte-americano, não se traduziu em liberdades democráticas para os gays.

Outras organizações, como o Sendero Luminoso, como também é conhecido o Partido Comunista do Peru, de inspiração maoísta, que atua como uma guerrilha, foi responsável durante os anos 1980-2000 pelo assassinato de centenas de LGBTs. Dessa forma, o Sendero Luminoso está na contramão absoluta das tradições revolucionárias de Lênin e Trotsky, que buscavam destruir a moralidade burguesa e colocar à classe trabalhadora a tarefa de ligar sua luta pela sua emancipação à resposta em profundidade às demandas de todos os setores oprimidos pelo capitalismo.

Por uma vida revolucionária e plena de sentido

Após esse breve resgate histórico, há que destacar que um anseio cada vez mais notável se faz sentir nessa juventude, e em setores cada vez mais amplos, de avançar em conquistas profundas. Mas não apenas no plano formal, de igualdade de direitos para os LGBTs e para as mulheres. Ainda que isso seja importante, há algo além que se gesta. Que toma a forma de um anseio de acabar com a hipocrisia, a subserviência, e as normas que a sociedade capitalista impõem. Essa juventude, que encontrou na dança de Lucy quase cem anos depois da revolução russa, uma expressão, quer viver uma vida plena de sentido.

Sentido esse que é negado pelo sistema capitalista a todos os trabalhadores e trabalhadoras, que têm suas vidas sugadas pela exploração e brutalidade a que são submetidos. Portanto, que a classe trabalhadora tome para si as demandas das mulheres, LGBTs, negros e demais setores oprimidos é algo da maior importância. Da mesma forma que essa juventude que desperta conheça e se aproprie das melhores experiências e tradições dos revolucionários. Para que veja que todo “comunismo” que se volta contra os oprimidos como estratégia de ação, não é comunismo verdadeiro. Digno desse nome são aqueles que combateram contra toda opressão e exploração. Por isso, longa vida à #EsquerdaArcoÍris!

Referência:
1 TROTSKY, Leon - A Revolução Traída




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