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ELEIÇÕES PORTO ALEGRE

Luciana Genro, a derrota de uma campanha que não empolgou

O PSOL aponta o pouco tempo de TV como responsável pela derrota da candidatura de Luciana Genro, que longe de chegar ao segundo turno amargou um quinto lugar no resultado final. É preciso também entender por que sua candidatura não conseguiu empolgar nem gerar um amplo movimento e um ativismo para a sua campanha e que o programa que ela defendeu não serve de base para um projeto de esquerda na cidade.

terça-feira 4 de outubro| Edição do dia

Para quem esperava e se propunha chegar ao segundo turno das eleições, terminar o pleito em quinto lugar é uma grande decepção. Para explicar o motivo dessa enorme quebra de expectativas, Luciana Genro afirmou: “Quando entramos nessa disputa sem buscar alianças de ocasião para aumentar o tempo de televisão, sabíamos que a disputa seria dura. Mas eu sempre disse que preferia perder sem abrir mão dos meus princípios e da minha coerência do que vencer e não ter condições de fazer as mudanças”. E afirma ainda: “Entramos na eleição para construir um projeto político e nos sentimos vitoriosos”.

Com esse discurso, Luciana Genro e os dirigentes e parlamentares do PSOL gaúcho, Pedro Ruas, Roberto Robaina e Fernanda Melchiona, não reconhecem a derrota eleitoral a partir dos objetivos que eles mesmos se propunham: chegar ao segundo turno e até mesmo vencer a prefeitura. Dessa forma evitam ter que explicar os motivos da sua derrota. O pouco tempo de TV e as normas reacionárias das eleições podem ser parte da explicação, mas não explicam tudo.

É tão insuficiente a explicação do tempo de TV que o jornal Zero Hora tenta uma explicação complementar, citando um cientista político que fala de “consenso conservador”. Por parte da casta política dirigente, que esteve a frente do golpe, existe um evidente “consenso conservador” que, no entanto, não tem sido suficiente para garantir uma unidade mais sólida entre as diferentes alas deste bloco. Ainda assim, esse consenso parcial entre os de cima, se dá no marco de um grande desgaste e perda de legitimidade do conjunto da casta política, que se expressou na grande abstenção e na quantidade de votos brancos e nulos. E que também se expressa de alguma forma, ainda que distorcida, na votação de alguns candidatos do PSOL, sobretudo com Freixo no Rio.

A eleição de Porto Alegre confirma essa visão. Por um lado, os votos somados de Luciana Genro e Raul Pont superam os de Melo e quase alcançam os de Marchezan. Por outro, brancos e nulos e abstenções somados superam amplamente os votos do primeiro colocado. Se era muito difícil vencer as eleições, existia também em Porto Alegre, assim como no Rio, espaço para uma campanha que empolgasse a juventude e a militância. O que isso reverteria em votos é impossível saber.

O contraste com a campanha de Freixo no Rio de Janeiro ressalta o fracasso do PSOL gaúcho. Compartilhando um programa similar, com o mesmo tempo de TV, Freixo, ao contrário de Luciana Genro, foi capaz de empolgar a juventude – parafraseando Jorge Maravilha, Freixo gosta de repetir “você não gosta de mim, mas sua neta gosta”.

Dentro, como dissemos, de uma base programática similar, já que nem o programa de Freixo no Rio, nem o de Luciana Genro em Porto Alegre levantavam um perspectiva anticapitalista, duas diferenças fundamentais entre Freixo e Luciana Genro, foram decisivas e ajudam a explicar a frustração das expectativas do PSOL gaúcho.

Freixo sempre se colocou abertamente contra o golpe institucional. Em Porto Alegre as manifestações contra o golpe, tanto depois da votação na câmara como com a consumação do golpe no Senado, foram massivas na juventude. Luciana Genro, que apoiou o golpismo até a véspera da votação e que seguiu até agora apoiando a lava jato (ao ponto de que sua marca nas eleições foi a expressão “mãos limpas”, o nome da operação da justiça italiana que o próprio juiz Sergio Moro toma como exemplo), que nunca participou nem apoiou as manifestações contra o golpe e que sequer falou em golpe durante toda a sua campanha. Durante a pré campanha o discurso de Freixo e Luciana Genro foram opostos. Enquanto Luciana Genro fechou a coligação com o PPL e buscava o apoio da REDE em nome de conseguir espaço nos debates de televisão (foi assim que esses acordos foram justificados nas redes sociais pelas figuras do PSOL gaúcho), Freixo reunia seus simpatizantes e dizia que sua aliança já estava feita, era com os movimentos sociais e ativistas e convoca atos na frente das emissoras para reivindicar sua participação.

Que projeto o PSOL gaúcho está construindo?

Sem dúvida alcançar 12% dos votos e três vereadores, entre eles a mais votada, seria uma grande vitória eleitoral para uma alternativa de esquerda e anticapitalista. Nesse caso, o erro por trás da frustração dos objetivos iniciais de chegar ao segundo turno e até vencer seria mais simples de corrigir. Seria simplesmente fruto de uma visão voluntarista e subestimada nas possibilidades de triunfo eleitoral.

No entanto o programa que Luciana Genro defendeu nas eleições não teve nada de anticapitalista. Ao contrário, foi um programa nos mesmos moldes do programa de conciliação de classes do PT, para se apresentar frente à opinião pública burguesa como uma gestora responsável e viável. Ao invés de aproveitar a tribuna eleitoral para lutar contra as privatizações, Luciana Genro se colocou a favor das PPPs – como se fosse possível conciliar o interesse de lucro com o interesse público, da maioria da população. Ao invés de denunciar a repressão contra a periferia e os bairros pobres e o caráter racista da policia, fez coro com a direita pedindo um maior efetivo da Brigada Militar e aplaudindo e a intervenção da Força Nacional em Porto Alegre. Ao invés de denunciar o caráter neoliberal da Lei de Responsabilidade Fiscal e lutar contra a terceirização, Luciana Genro se colocou nos marcos desta lei para dizer que sem a terceirização seria impossível respeitar essa lei reacionária.

O projeto de governar o município com uma aliança e um programa de conciliação de classes sofreu uma derrota em Porto Alegre. Mostrou-se incapaz de fazer frente e até mesmo de denunciar de forma consequente o discurso renovado da velha direita que se articulou em torno de Marchezan Jr. e do PP e que conseguiu capitalizar a insatisfação com os governos do PMDB e PDT no estado e no município de Porto Alegre.

O balanço destas eleições devem servir para abrir espaço a uma nova esquerda em Porto Alegre, operária e socialista, que possa apontar um caminho de superação do petismo, na luta contra o golpismo e a conciliação de classes petista. A Frente de Esquerda e dos Trabalhadores na Argentina é um exemplo, no plano internacional, da viabilidade de um projeto classista e revolucionário. Essa perspectiva foi defendida pelas candidaturas do MRT pelo PSOL e queremos discuti-la com os jovens e trabalhadores que apoiaram Luciana Genro nestas eleições e que agora estão refletindo sobre os motivos da sua derrota.




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