Cultura

DEPOIMENTO DE LIMA DUARTE APÓS MORTE DE MIGLIACCIO

Lima Duarte se emociona ao falar a Migliaccio: “eu te entendo, porque fomos do Teatro de Arena”

Lima Duarte, aos 90 anos, faz depoimento emocionado a seu companheiro do Teatro de Arena nos anos 1960, relembrando a resistência à ditadura e ligando à atual extrema-direita: “Os que lavam as mãos o fazem numa bacia de sangue”.

Fernando Pardal

@fepardal

quarta-feira 6 de maio| Edição do dia

O ator Lima Duarte gravou um emocionado depoimento dirigido a Flávio Migliaccio, ator que se suicidou nessa segunda-feira, aos 85 anos deixando um bilhete em que denunciava a situação política do país e o tratamento dispensado aos idosos.

Lima Duarte desabafou ao antigo amigo, “eu te entendo”. E, justificando porque entende o companheiro que disse “não dá mais” antes de tirar sua própria vida, retomou o passado que compartilharam no Teatro de Arena, um grupo de teatro de importância histórica e que, reunindo alguns dos mais importantes artistas do teatro de nosso país, enfrentou a ditadura militar. Augusto Boal, seu diretor, ligado à ALN, foi preso e torturado, e depois se exilou. Outros, como Heleny Guariba, militante da VPR, foi brutalmente assassinada pela repressão dos militares.

É nesse passado de lutas, de um teatro que se tornou conhecido ao retratar em “Eles não usam Black-tie” a classe trabalhadora e seu combate contra a exploração capitalista, que Lima Duarte encontrou o seu laço em comum com Migliaccio. Duarte diz como foi “linda” e “apaixonante” a missão de representar uma dramaturgia que o Arena procurava inventar, uma que fosse “nacional e popular”.

E em seu depoimento resgatou o medo, a apreensão que passavam ao esperar as “veraneios” pretas, os veículos usados pela repressão dos militares. Duarte conta quando viu a “sua” veraneio virando a esquina, quando foi levado ao DOPS para prestar depoimento sob a vigilância de Tuma e Fleury, carrascos torturadores do governo da ditadura.

Emocionado, Duarte continua: “por isso, por ter vivido esse momento, por ter pertencido ao Arena, eu digo que eu te entendo, eu te entendo, Migliaccio. Agora, quando sentimos o hálito putrefato de 64, o bafio terrível de 68, agora, 56 anos depois – eu tenho 90, você com 85 – quando eles promovem agora a devastação dos velhos… não podemos mais.”

O desabafo doloroso de Lima Duarte ao relembrar seu companheiro de luta e resistência nos palcos e no enfrentamento ao governo militar, que foi preso pelos capangas e hoje vê um presidente que comemora os torturadores, cercando-se de militares, toca a todos nós que lutamos contra a opressão profundamente.

Lima Duarte diz “eu não tive a coragem que você teve”. A desesperança e a angústia transparecem em sua fala, ao ver o velho companheiro partir. Deve ser um alerta para nós todos, em particular os mais jovens, herdeiros do combate contra a ditadura, e que não vivemos os dias de chumbo em que qualquer palavra errada, qualquer descuido poderia te levar a torturas infindáveis, à morte.

É compreensível que muitos dos lutadores dessa geração, que travou duros combates contra a ditadura, encontre-se cansada, esgotada e até desesperançada. Lembremos, no entanto, das palavras de um velho combatente que sempre esteve na linha de frente, o revolucionário russo Leon Trótski, que disse: “Apenas o fresco entusiasmo e o espírito ofensivo da juventude podem assegurar os primeiros triunfos da luta e somente ela trará de volta ao caminho da revolução os melhores elementos da velha geração. Sempre foi assim e assim será.”

Lima Duarte nos deixa, apesar da amargura com o momento, esse recado final em seu vídeo, com as palavras de Bertolt Brecht em uma das peças que encenou ao lado de Migliaccio no Arena: “E pra terminar, pra os que ficam, eu quero lembrar uma das falas de Pedro Jaqueiras em Os fuzis da mãe [Senhora] Carrar: ‘Os que lavam as mãos o fazem numa bacia de sangue’”.

Sem meias palavras, o recado da geração do Arena está dado. Não lavemos as mãos, tomemos as bandeiras de luta de suas mãos e sigamos o combate até a vitória final.




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