Política

LIÇÕES DA DERROTA DO PT

Lições na derrota: avanço da direita e qual esquerda construir

Qual esquerda construir diante das lições da derrota do PT?

Leandro Lanfredi

Rio de Janeiro | @leandrolanfrdi

sexta-feira 4 de novembro| Edição do dia

A monstruosa derrota eleitoral sofrida pelo PT, que não foi acompanhada nacionalmente por um crescimento de outra força à esquerda como o PSOL, abriu um grande debate na intelectualidade e na militância de esquerda do país, em primeiro lugar entender o acontecido, depois o que fazer. Debateremos aqui exclusivamente com as ideias que partem de alguma crítica ou autocrítica do petismo e não com aquelas que culpam o povo, como indica Mino Carta da CartaCapital em novo vídeo seu e na capa escolhida para seu semanário.

O “povo” não é um ente completamente externo e separado em relação a suas direções, nomeadamente o petismo que o moldou por décadas em uma passividade e na ideia da conciliação com os interesses dos empresários e da direita. Eis o resultado. Não faltam lições a quem queira tirar, mas há que querer.

A direita avançou, mas estamos frente à um giro conservador das massas?

É inegável que a direita ganhou posições institucionais. Primeiro com o golpe depois com as eleições municipais.

Mas as vitórias eleitorais não foram em muitos casos de uma direita com sua bandeiras abertas. Foi um triunfo do tempo de TV e do dinheiro nas campanhas, da antipolítica, de “gestores”, cartolas do futebol, de demagogos, pastores que juravam por suas isenções fiscais que a religião não entraria na política...foi também uma vitória que se combinou com um expressivo aumento do voto nulo, branco e das abstenções. Sobretudo em locais onde o PT era forte, só ver os recordes de “não voto” no ABC paulista agora todo dirigido pela direita. Uma exceção a isso foi o Rio de Janeiro com seus mais de um milhão de votos contra a direita e que expressa uma força social para avançar na luta contra Temer e seus ataques.

Esse fortalecimento da direita, no entanto, não muda, ainda a correlação de forças abertas por junho de 2013 que sacudiu o país anunciando o fim do período do “todos ganham” do lulismo. Quem ainda não tinha se dado conta disso “pela esquerda” seguramente se deu conta depois com o golpe. Enquanto a direita conquistou milhares de prefeituras, os estudantes tomaram milhares de escolas e universidades. Muitas vezes na mesma cidade onde a direita avança muito (exemplo máximo: Curitiba). Eis parte do xis da situação nacional.

Uma grande parcela dos ativistas leram nesse resultado o avanço do conservadorismo, ou até mesmo do fascismo. Mesmo a existência de amantes do fascismo como os Bolsonaro não pode ser encarada assim, não se trata de uma mobilização das classes médias contra o proletariado, trata-se na maioria dos casos de demagogos que terão que agora implementar cortes nos direitos sociais sem ter defendido que fariam isso. Tentarão impor suas agendas de retrocessos, mas aí voltamos a afirmação no título do artigo. Que esquerda construir perante essa situação que vivemos.

É natural, frente à direita querermos unidade.

Mas qual? Unidade debaixo da figura de Lula que tanto abriu caminho à direita. Ou Crivella não era aliado? Maluf? Temer? Até mesmo Feliciano? Unidade com o PSB de Eduardo Campos? Ou com o PDT de Ciro que além de ser um partido dos empresários abrigou notórios membros da bancada da bala como Major Olimpo? Com a ruralista Kátia Abreu? Detrás da discussão de “Frente Ampla” se esconde o retorno da velha conciliação petista, assunto que abordaremos mais abaixo.

Esquerda sem povo ou ideias que já não são de esquerda e nem batem mais com os anseios populares?

Um curioso debate ganhou as redes sociais depois do segundo turno no Rio. PT, PCdoB e muitos intelectuais leram nos resultados uma falta de influência no “povão”, que teria votado em Crivella. É curioso como o rigor crítico não alcançou seus próprios “ótimos” resultados em Santo André, Contagem, Vitória da Conquista, nem falar dos vexames do primeiro turno em antigos “bastiões” como São Bernardo, Olinda, São Paulo, Porto Alegre.

Como demonstrou Jean Ilg esse argumento encobre a força social para lutar contra Temer que se expressou nos mais de 40% na maioria dos bairros da Zona Norte e na importante votação nos setores de funcionalismo.

O PT já teve intelectuais como André Singer que teorizaram como o nordeste votaria por décadas “nas forças progressistas”. Não se sabe onde foi parar essa hipótese nem a autocrítica em relação a ela pois até mesmo no nordeste se viu uma poderosa derrota do PT e PCdoB (com poucas exceções).

A “hegemonia duradoura” estava construída sobre bases frágeis, em acordo com os oligarcas regionais, com os pequenos partidos da direita, com as igrejas. Veio a vingança. E os trabalhadores que pagarão o pato em doses maiores do que o PT já atacava os direitos dos trabalhadores.

Setores críticos à direção majoritária do PT opinam que faltou avançar em “mudanças mais duradouras” ou até mesmo “estruturais”, como no campo da reforma agrária, urbana, na mídia. Nunca lutaram por isso nos últimos 13 anos, não só isso, votaram em uníssono cada retirada de direitos que Dilma promoveu e agora jogam essas ideias de “reconstrução à esquerda” enquanto ao mesmo tempo que a direção majoritária de Lula e companhia oferecem a mesma saída: frente ampla. Ou seja, juntar do PSOL e movimentos sociais ao PDT e até mais pra “lá” pra dentro do empresariado dito progressista, como a ruralista Kátia Abreu.

As diferenças no PT aparentam ser várias pelos textos que circulam na Internet, mas todas elas partem da “Frente Ampla”, ou seja de reeditar na derrota a velha conciliação de classes. As principais diferenças em debate são em torno do papel do PT na frente ampla (deve ser o líder dela ou não), quem seria a direção do PT a conduzir essa costura à esquerda e à direita e qual programa adotar dentro da frente. Não está em questão a conciliação. Kátia Abreu é heroína porque votou contra o impeachment, e muitos etceteras.

Sem tirar lições profundas da conciliação de classes toda uma outra parte do vivo debate que muitos intelectuais (como fez Frei Betto por exemplo) e ativistas estão fazendo sobre o “retornar ao trabalho de base” é inócuo. Trabalho de base a IURD de Crivella e Macedo também faz. A questão é qual trabalho é necessário. Pode se construir algo com base de massas, mas não será de esquerda com Kátia Abreu, Ciro Gomes, etc.

Uma lição chave a tirar desses anos todos de governo do PT, do golpe institucional e agora do golpe eleitoral sofrido pelo PT é a necessidade de afirmar a independência política da classe trabalhadora. Isso começa pela independência frente aos empresários e seus partidos, mas passa por uma luta ativa para que a classe trabalhadora seja sujeito de dar uma resposta à crise política, social e econômica do país. Não batalhar por erguer o sujeito social esquecido e ocultado, a classe trabalhadora, no lugar dos “cidadãos”, do “povão”, é trabalhar “na base” pela reedição da tragédia conciliação de classes, ficar prostrado em meio a profundos ataques esperando a hora (eleitoral) do “volta Lula” ou “venha Ciro”.

As “massas” não estão somente nas urnas. Estão também em cada local de trabalho, ignoradas pelos sindicatos que naturalizam a divisão dos trabalhadores em efetivos e terceirizados, entre outras divisões. Sem superar esses aspectos programáticos cruciais não há “trabalho de base” não pelo menos desde um ponto de vista de esquerda e que tire as lições da experiência com o PT. Para nós, levar essas lições às últimas consequências leva a conclusão da necessidade de erguer um partido revolucionário que possa ser um instrumento não só nessa fase de “defesa” mas que possa contribuir a organizar o “contra-ataque” contra o capitalismo e o imperialismo.

É possível e necessário se inspirar na juventude que ocupa escolas e universidades e, com métodos democráticos, como assembleias verdadeiras, discutir como organizar uma verdadeira greve geral contra os ataques. É possível e necessário superar a divisão entre as lutas, o que se reproduz agora na juventude, que apesar de ocupar escolas no país todo, a ela falta coordenar suas ações, criar um comando nacional de delegados que erga essa resistência a novos patamares. Erguer a resistência da classe trabalhadora contra os ataques dos empresários, dos golpistas e da direita é parte de começar a erguer o sujeito social que pode se tornar sujeito político para questionar todo esse regime político da corrupção e exploração. Para ajudar as massas nessa experiência com essa democracia dos e para os empresários, o Esquerda Diário e o MRT defendem impor com a força da luta uma Nova Constituinte que permita debater todos grandes temas nacionais, dos privilégios dos políticos a como recuperar os recursos nacionais entregues ao imperialismo.




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