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Lições da greve dos trabalhadores da USP

Essa é a versão completa da contribuição do MRT para o debate de balanço da greve no Encontro dos Trabalhadores da USP, que ocorrerá em 16/09. Mais uma vez os trabalhadores da USP deram exemplos de como atuar na luta de classes, mas a greve não conseguiu barrar o arrocho, o desmonte e o corte de salários. A história do movimento operário é feita de vitórias e derrotas e é fundamental tirar as lições dessas experiência.

quinta-feira 15 de setembro| Edição do dia

No dia 18 de Julho de 2016 se encerrou a greve de trabalhadores da USP, que havia se iniciado em 12 de maio, contra o desmonte da universidade e o arrocho salarial. No mesmo dia os estudantes da USP haviam deflagraram greve. Na véspera os estudantes da Unicamp haviam ocupado sua reitoria. Aos longo das semanas seguintes todas as categorias das três universidades aderiram à greve unificada.

Nesta greve vimos, mais uma vez, os trabalhadores da USP darem exemplos, hoje raros, de grandes qualidades históricas do movimento operário, como a auto-organização pela base, com a greve sendo democraticamente dirigida por um comando formado por representantes eleitos nas unidades de trabalho, no qual a diretoria do sindicato se dissolveu; como a democracia operária das assembleias em que todos os trabalhadores efetivamente podem falar e propor, e a votação da maioria é o que vale; como a luta firme contra a repressão e em defesa do direito de greve; como a independência do Estado e a confiança nas próprias forças; como a solidariedade de classe entre os trabalhadores e com outras categorias; como a defesa dos direitos e interesses de todo o povo pobre e demais setores oprimidos da sociedade.

Ainda assim, a greve não teve força suficiente para impedir o arrocho, e as reitorias, em sintonia com o governo Alckmin, impuseram um reajuste de 3%, frente a uma inflação oficial de 10%. Na UNESP, nem isso foi implementado na data-base. O desmonte da universidade também não foi barrado. A reitoria recuou da intenção de desvincular o Hospital Universitário - pelo menos por hora, e nas suas declarações -, e a greve foi um fator decisivo nisso. Mas o desmonte segue, mesmo o HU continua em situação precária, e outras unidades e serviços, como creches, prefeituras e restaurantes continuam ameaçados, e logo após a greve o Conselho Universitário aprovou novo Plano de Incentivo a Demissão Voluntária. Outra pauta fundamental, as Cotas Raciais, também foi ignorada pela reitoria, que aprovou o quadro de vagas do próximo ano durante a greve, sem Cotas, nem sequer avanço significativo na reserva de vagas para negros e indígenas via ENEM.

Além disso, pela primeira vez em mais de 20 anos, a reitoria conseguiu impor que o corte de salários se mantivesse após o fim da greve, deixando centenas de trabalhadores sem os meios de subsistência de suas famílias, simplesmente por terem feito greve, abrindo um grave precedente de ataque a esse direito.

Assim, a greve não teve força para barrar os ataques da reitoria aos direitos dos trabalhadores e à universidade, e a reitoria ainda conseguiu impor um duro golpe à vanguarda. Portanto, o saldo geral da greve foi uma derrota dos trabalhadores nessa batalha, ainda que a guerra contra as reitorias e o governo, em defesa das universidades, da educação e da saúde, não esteja decidida e vá continuar. Além disso, a profundidade e extensão dessa derrota ainda estão por se definir, pois ainda se aguarda o julgamento do dissídio, inclusive da devolução dos salários cortados, que quase dois meses depois da greve ainda não tem data marcada.

A história do movimento operário é feita de vitórias e derrotas. Frente às derrotas, o fundamental é buscar entender seus motivos e aprender suas lições.

1 - A conjuntura nacional desfavorável e o isolamento das lutas.

A greve começou, coincidentemente, no mesmo dia em que Temer tomou posse como presidente interino. O impeachment foi parte de uma política burguesa para aprofundar os ataques contra os trabalhadores. A pressão burguesa para atacar o conjunto dos trabalhadores e dos serviços públicos era, e continua sendo, muito grande. Uma assembleia dos trabalhadores da USP, inclusive, chegou a essa resolução fundamental, fruto de um debate que dividiu a vanguarda, e no qual o MRT defendeu firmemente essa posição, em contraposição a quase todas as demais correntes organizadas na categoria, como MES, PSTU, Coletivo “Sempre na Luta” e MNN, que defenderam que o sindicato não deveria se posicionar contra o impeachment. E o MES, que sustentou essa posição que impedia de reconhecer a pressão da conjuntura, depois seria contra o recuo quando a greve já não tinha chance de vencer.

A percepção dessa conjuntura por parte dos trabalhadores se expressou em receio e hesitação no início da greve, e em comentários do tipo "o mar não está pra peixe”.

Por outro lado, a greve se iniciou em meio a outras lutas de resistência. Trabalhadores das fábricas realizavam algumas lutas importantes. Servidores públicos, especialmente da educação, junto a estudantes, protagonizavam grandes lutas no Ceará, Goias, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro. E em São Paulo, na semana que antecedeu a greve, entravam em cena o secundaristas, com quem buscávamos unificação, numa dinâmica que apontava para a mesma tendência que em 2015 foi capaz de derrotar Alckmin. No entanto, em seguida a repressão brutal levou a um refluxo da luta secundarista, e nas semanas seguintes refluíram quase todas as outras lutas no país, com exceção da educação no Rio de Janeiro, que também se manteve com dificuldade durante meses.

2 - A greve não se unificou efetivamente entre as categorias e as universidades.

Nas três universidades, a greve começou mais massiva entre estudantes. No entanto, os DCEs atuaram contra a unificação estadual através de um comando unificado. Mais que isso, na USP o DCE não foi capaz de unificar sequer o movimento estudantil da própria universidade, que se dividiu entre ações protagonizadas por diferente setores, em defesa de diferentes pontos da pauta unificada de reivindicações. Menos ainda houve uma unificação efetiva com trabalhadores, e durante a maior parte da greve as ações pela pauta unificada não tiveram peso estudantil, especialmente da convocação do DCE. A ADUSP, com uma greve fraca entre docentes, também foi parte disso, aderindo à greve semanas depois das demais categorias, e saindo dela semanas antes, logo que a reitoria adiou a votação das mudanças sobre a carreira docente.

3 - Uma parcela importante da categoria achou que não era o momento certo pra entrar em luta.

Sobre parte dos trabalhadores, pequena, a divisão entre a luta salarial e a luta política contra o desmonte da universidade se fez pesar, e mesmo os 3% de reajuste salarial não geraram a mesma indignação que o 0% gerou em 2014 (mesmo frente a uma inflação duas vezes maior agora). Outra parcela, maior, sim se convenceu da necessidade de lutar, mas não das condições, e não aderiu à greve por medo da repressão, principalmente do corte de ponto, mas também de retaliações mais duras num cenário nacional em que primam demissões, desemprego, e ataques aos direitos dos trabalhadores. Foi o caso de parte da vanguarda histórica mais combativa da categoria. Isso significou menos massividade, menos ativismo, um comando de greve menor e menos orgânico, menor politização das atividades, menos ligação com outras categorias e setores sociais, enfim, uma greve mais fraca. Agora, reunificar esses setores é uma das tarefas fundamentais para as próximas batalhas.

4 - O corte de salários teve um impacto maior sobre a greve do que em anos anteriores.

Consequência disso tudo, e também por ter sido implementado no início da greve, já no primeiro mês o corte levou a um refluxo muito grande e na maior parte das unidades - apesar de importantes exceções a serem reconhecidas -, inclusive aquelas que ainda não tinham sido atingidas, mas onde a ameaça do corte passou a ter mais peso.

5 - A direção da greve poderia ter atuado mais rapidamente sobre esses fatores.

Após o primeiro corte de ponto, o comando de greve demorou mais de uma semana para medir o seu impacto. Mesmo assim, somente após tentativas fracas de ações de força e radicalizadas, passou a planejar as ações da greve mais de acordo com suas forças reais. E em relação ao corte, que golpeava a greve, não houve proposta de uma ação unificada como resposta (como o fechamento da reitoria de 2014), deixando isso a cargo das unidades, sendo que parte delas não tinha força para pressionar suas direções locais, e nas que tinham, como a FFLCH e a FE, que reverteram o corte, isso consumiu grande parte do ativismo durante semanas. Provavelmente nada disso teria revertido os fatores fundamentais que pontuamos acima e que levaram à derrota. Mas são erros da direção da greve, dos quais o MRT se reconhece como parte, de forma autocrítica, e que poderiam ter reduzido as consequências dessa derrota. No mesmo sentido - muito ao contrário da oposição à diretoria do Sintusp, majoritariamente ligada ao PSOL e ao MES, que defendeu e sustenta que os trabalhadores ainda deveriam ter continuado em greve, no meio de Julho, com a justiça tendo negado liminar contra o corte de salários, que já entrava no terceiro mês, com a greve se enfraquecendo rapidamente, e independentemente da conjuntura nacional (ou, no caso do MES, coerentemente com seu posicionamento de que o Sintusp nem deveria se posicionar contra o Impeachment) -, o MRT considera que o recuo foi tardio, e que muito antes já era possível perceber que a greve não tinha mais forças suficientes, nem condições de amplia-las, para impor à reitoria suas reivindicações, nem sequer a devolução dos salários. Encerrar uma greve que ainda tem condições de avançar é uma traição. Mas manter uma greve que não tem condições de vencer ou crescer, se descolando da base e ignorando os sinais que ela dá, com a única consequência de expor a vanguarda a um grau maior de repressão e desmoralização, também seria uma traição.

Aqui nos concentramos nos motivos da derrota da greve, e nos erros cometidos, pois esse é um esforço fundamental para tirar as lições dessa experiência. No entanto, não se pode deixar que isso apague o fato de que a vanguarda desta categoria - uma das que mais lutou no país nos últimos 15 anos, mesmo quando a ocorrência de greves era muito menor, e por isso é responsável pela defesa do que resta da universidade pública, e dos direitos que os trabalhadores preservaram - protagonizou uma luta exemplar. Como dissemos acima, as derrotas são, tanto quanto as vitórias, parte inevitável da história do movimento operário. Isso apesar dos exemplos de auto-organização, democracia operária, solidariedade de classe, e muitos casos de entrega heroica à luta. Não é a toa que, mesmo com essa derrota, essa vanguarda saiu da greve organizada e moralizada. Falamos acima do impacto do corte de ponto, mas é preciso ressaltar os exemplos de unidades como a SAS (Superintendência de Assistência Social, que inclui bandejões e creches), onde estão concentrados a maioria dos trabalhadores que sofreram (e até agora estão sofrendo) o corte de salário, e resistiram com um enorme contingente firme na greve (assim como trabalhadores em várias outras unidades), e na assembleia que decidiu pelo encerramento da greve foram em várias companheiras e companheiros ao microfone dizer que valeu a pena ter lutado, pois foi uma luta justa e necessária, e a pior derrota é a de quem desiste antes de lutar. A união que a vanguarda expressou na saída da greve e nas reuniões e atividades de integração nas unidades na transição de volta ao trabalho é um sinal da enorme qualidade que essa vanguarda forjou ao longo de anos de luta, e que soube preservar para os próximos embates, pois esta foi somente uma batalha de uma guerra que continua, e para a qual essa vanguarda sai organizada.

As tarefas fundamentais agora passam por reunificar o conjunto da categoria, e resistir aos duros ataques que já estavam na pauta dessa greve e que a reitoria segue implementado contra a universidade e os trabalhadores, e que são parte dos ataques no país ao conjunto da classes trabalhadora, aos serviços públicos e aos direitos sociais, que o golpe que colocou Temer no poder veio aprofundar e acelerar, e contra os quais será fundamental atuar para unificar a classe, superando a paralisia da burocracia sindical da CUT, CTB e Força Sindical, e apontando para uma saída dos trabalhadores e independente para a situação nacional.




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