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Letras USP: CAELL e Coletivo Negro realizam live sobre racismo estrutural, precarização do trabalho e ensino

O Centro Acadêmico do curso de Letras, da gestão Pulso Latino, e o Coletivo Negro do curso, Claudia Silva Ferreira, chamou Silvana e Carmem, trabalhadoras terceirizadas, e Paula, professora temporária do curso, para debater sobre sucateamento da educação e precarização do trabalho em meio à pandemia.

terça-feira 25 de agosto| Edição do dia

Na terça-feira, 18, o Centro Acadêmico de Estudos Linguísticos e Literários Oswald de Andrade (CAELL), da gestão Pulso Latino, com membros do coletivo Faísca e independentes, junto ao coletivo negro Cláudia Silva Ferreira, realizou um importante debate acerca da precarização do trabalho e da educação na Universidade, interligado com o racismo estrutural, discutindo sobre a demissão de 25% do quadro de trabalhadores terceirizados da universidade, a falta de contratação de professores, e a existência de contratação temporária de docentes, por meio de regime de trabalho precário que a reitoria da USP vem impulsionando e aprofundando ainda mais em meio à crise econômica que estamos vivendo.

Tal iniciativa contou com a presença de Silvana Araújo da Silva, ex-terceirizada da USP e militante do Movimento Revolucionário de Trabalhadores (MRT) e da agrupação de negras e negros Quilombo Vermelho; Carmem Luiza Moreira, ex-terceirizada da UFPR e militante do PSTU; e Paula Renata de Araújo Coelho, professora temporária no curso de Letras, na Universidade de São Paulo.

No atual contexto nacional, com o aprofundamento da crise econômica em meio a uma crise sanitária, vemos um aumento da precarização da educação, do trabalho e da vida. Bolsonaro no governo federal expõe com o seu negacionismo a população à pandemia, e com as “MPs da morte” institui cada vez mais a miséria, com brutais ataques aos direitos dos trabalhadores, flexibilizando leis trabalhistas e permitindo, assim, que os empresários possam explorar cada vez mais os trabalhadores e garantir seus lucros. , no governo do Estado, que na pandemia teve um discurso demagógico se colocando contra o negacionismo bolsonarista, ao mesmo tempo que não fornecia testes a população e EPIs para os trabalhadores da saúde, e que hoje dá continuidade a política de reabertura econômica que é responsável pelo crescente número de trabalhadores mortos pela crise sanitária, aprofunda os ataques a educação por meio da PL 529, projeto de lei que prevê a privatização de inúmeras fundações e ataca a autonomia universitária.

As convidadas da live discorreram sobre os crescentes ataques aos três setores que compõem a comunidade universitária, trabalhadores, professores e estudantes. A crise de financiamento das estaduais paulistas, USP, Unesp e Unicamp, e a aprovação do teto de gastos em 2017, que congela contratações em 5 anos na Universidade de São Paulo (USP), são medidas do governo estadual, há anos sob gestão do PSDB, e da reitoria, que precariza o trabalho e o ensino e permanência estudantil dentro da universidade. A reitoria da USP, hoje sob comando de Vahan Agopyan, que cinicamente adere a campanha “Vidas Negras Importam”, segue a risca a política de , rifando a vida dos trabalhadores mais precários.

Em meio a notificação de mais de 100 mil mortes causadas pela COVID- 19 e com o Brasil como epicentro da pandemia, que atinge principalmente famílias pobres e negras, que fazem parte do setor mais atingido pela crise sanitária e econômica, a Reitoria da USP aplicou um corte de 25% no valor dos contratos com as empresas terceirizadas que atuam dentro da universidade, o que tem levado a demissão de vários terceirizados, que já ocupavam os postos mais precários e recebiam os piores salários. Esses que mais têm sofrido com a pandemia e que foram de início obrigados a trabalhar, mesmo os que faziam parte do grupo de risco, muitas vezes sem direito às EPIs, com os cortes implementados, são agora demitidos em plena pandemia.

Por outro lado, os setores de alunos mais fragilizados, aqueles poucos que conseguem furar o filtro social e racial que é o vestibular, também são os mais prejudicados com a imposição do ensino remoto, que foi implementado de modo precário e autoritário pela reitoria e diretoria dos institutos, e que não está por fora do projeto de sucateamento cada vez maior da universidade, prejudicando muitos estudantes que não têm condições materiais ou psicológicas de dar prosseguimento ao semestre a distância.

A falta de contratação de professores, e a existência de contratos temporários para docentes que, por meio dos planos de sucateamento da educação e dos postos de trabalho, chegam a receber salários de aproximadamente R$1.900,00, foi um tema que teve centralidade na intervenção da professora temporária Paula, que contou sua experiência enquanto estudante da USP, moradora do Crusp e dependente das cada vez mais escassas políticas de permanência estudantil. Um relato de toda a precarização sofrida pelas universidades públicas há anos, e que se aprofunda com os ataques dos governos a educação pública. Os casos de estágios precários destinados aos estudantes, que muitas vezes ganham apenas uma bolsa e realizam funções de trabalhadores efetivos, sendo obrigados a realizar tarefas que não condizem com as suas funções acordadas, são também, cada vez mais, uma realidade na universidade, explicitando o sucateamento da universidade que utiliza o trabalho desses estudantes para não contratar trabalhadores adequados a cumprirem as funções.
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Por isso se mostra cada vez mais necessária a união entre os estudantes e os trabalhadores contra todos esses ataques, o que foi reafirmado pela ex-trabalhadora terceirizada Silvana, que foi linha de frente na greve da Dima, na USP, em 2005, e por Carmen, ex-terceirizada da UFPR, que destacou a importância da unidade dos três setores da universidade e retomou a crescente precarização do trabalho a nível nacional.

Cada vez fica mais claro que o Estado burguês, submisso aos empresários e aos governos, principalmente em momentos como o que estamos passando, despeja a conta da crise criada por eles mesmos nas costas dos trabalhadores e da juventude, principalmente os negros e pobres, que têm seus futuros questionados diariamente seja pela repressão policial, como foi o caso de George Floyd nos EUA e os vários João Pedro aqui no Brasil, seja pelas condições de trabalho que são sujeitados.

Hoje, são as negras e negros que mais são afetados pela crise sanitária e econômica, que sentem na pele os efeitos dos ataques trabalhistas, como a Reforma Trabalhista e a Reforma da Previdência. São também os que mais sofrem com a precarização do trabalho e da educação, seja por meio do sucateamento da educação básica e do ensino superior, o que leva a um futuro, e já a um presente, como exposto pelas três convidadas, nos piores postos de trabalho, por meio do objetivo consciente dos governos de atender as necessidades do mercado nesse sistema econômico-social capitalista cada vez mais degradado.

Nós, do Centro Acadêmico de Letras, na USP, assim como outros Centros Acadêmicos que são dirigidos pela Faísca e independentes em diversas universidades pelo país, estamos impulsionando nacionalmente uma campanha pela proibição das demissões dos terceirizados nas universidades em defesa dos direitos e emprego, e chamamos todas as organizações e entidades estudantis a se somarem a essa campanha.

Não aceitaremos que os trabalhadores vivam condições subumanas e beirem a morte em função do lucro dos capitalistas. Por isso também defendemos a efetivação desses trabalhadores terceirizados sem a necessidade de concurso público, assim como que a reitoria da USP abra o livro de contas da universidade e que a comunidade universitária composta por estudantes, trabalhadores e professores, possa democraticamente decidir como irá ser distribuída a verba da universidade, buscando atender os nossos interesses, e não os dos governos e da burocracia universitária.




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