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Leon Trótski: Diante do túmulo fresco de Kote Zinzadze

Tradução: Pedro Soares
Ilustração: Alexandre Minguez

Leon Trótski: Diante do túmulo fresco de Kote Zinzadze

Apresentamos aqui aos nossos leitores a tradução de um breve artigo escrito por Leon Trótski, traduzido pela primeira vez ao português diretamente do original em inglês. Essa carta foi escrita pelo dirigente revolucionário russo após a morte do militante da Oposição de Esquerda Kote Zinzadze, um abnegado lutador de longa data, que carregou consigo por sua vida até sua morte uma enorme bagagem de experiência, ambição e lealdade revolucionárias. Foi escrita em 7 de janeiro de 1931 e publicada no jornal The Militant, uma publicação quinzenal da Communist League of America (Opposition), em 15 de fevereiro do mesmo ano.

Diante do túmulo fresco de Kote Zinzadze

Leon Trótski

Foi preciso juntar condições extraordinárias como o tsarismo, a ilegalidade, as prisões e as deportações, longos anos de lutas contra os mencheviques e especialmente as experiências de três revoluções para produzir militantes como Kote Zinzadze. Sua vida foi completamente conectada com a história do movimento revolucionário por um período de mais de um quarto de século. Ele passou por todos os estágios do levante proletário, começando com os primeiros círculos de propaganda, até as barricadas e a tomada do poder. Por muitos anos ele conduziu o duro trabalho ilegal, e quando os revolucionários estavam enrolados nas teias da polícia, ele se devotou a desenrolá-los. Depois, ele esteve na liderança da extraordinária Comissão da Transcaucásia, isso é, no centro do poder, durante o período mais heroico da ditadura do proletariado.

Quando a reação contra Outubro havia mudado a composição e o caráter do aparato partidário bem como suas políticas, Kote Zinzadze foi um dos primeiros a começar a luta contra as novas tendências hostis ao espírito bolchevique. O primeiro conflito aconteceu durante a doença de Lênin. Stálin e Ordjonikidze, apoiados por Djerjinsky haviam feito um golpe de estado na Geórgia, substituindo o núcleo dos velhos bolcheviques por funcionários carreiristas do tipo de Eliava Orechakashvili e outros. Era precisamente sobre essa questão que Lênin estava se preparando para lançar uma batalha implacável contra a facção de Stálin no décimo-segundo congresso do partido. Em 6 de março de 1923, Lênin escreveu para o grupo de velhos bolcheviques georgianos, do qual Kote Zinzadze era um dos fundadores: “Eu apoio completamente a sua causa. Eu estou indignado com Ordjionikidze e com a conivência de Stálin e Djerjinsky. Estou preparando algumas notas e um discurso para vocês.”

O curso posterior dos acontecimento é suficientemente conhecido. A facção de Stálin destruiu a facção de Lênin no Cáucaso. Essa foi a primeira vitória da reação no Partido e abriu o segundo capítulo da revolução. Zinzadze, tuberculoso, carregando o peso de décadas de trabalho revolucionário, perseguido pelo aparato em cada passo, nem por um momento desertou de seu posto na luta. Em 1928, ele foi deportado para Bakhshi-Sarall onde vento e poeira fizeram seu trabalho desastroso no que havia restado de seus pulmões. Depois foi transferido para Alioubcha onde o inverno chuvoso completou o trabalho de destruição.

Alguns amigos queriam que Kote fosse internado no sanatório de Goulpriche, em Sochum, onde Zinzadze já tinha salvo sua vida diversas vezes antes, em momentos particularmente agudos de sua doença. Claro, Ordjonikidze tinha “prometido”, Ordjonikidze “promete” muito e para todos. Mas a covardia de seu caráter (grosseria não exclui covardia) sempre o fez um instrumento cego nas mãos de Stálin. Enquanto Zinzadze estava literalmente lutando contra a morte, Stálin lutou contra todas a tentativas de salvar o velho militante. Mandá-lo para Goulpriche na costa do Mar Negro? E se ele se recuperar? Podem se estabelecer conexões entre Batum e Constantinopla. Não, impossível!

Com a morte de Zinzadze, uma das figuras mais atraentes do velho bolchevismo desapareceu. Esse lutador que mais de uma vez arriscou a sua vida e que sabia bem como castigar o inimigo, era um homem de excepcional bondade em suas relações pessoais. Uma ironia sofisticada e um senso-de-humor quase malicioso se combinavam neste terrorista testado com uma ternura que alguém poderia chamar de feminina.

A séria doença que nem por um instante o liberou de seu aperto não só não conseguiu quebrar sua resistência moral, como não teve sucesso em dominar seu estado de espírito sempre jovial e sua afeição terna pela humanidade.

Kote não era um teórico. Mas seu pensamento claro, seu talento revolucionário e sua imensa experiência política – a experiência viva de três revoluções – o armaram melhor, mais seriamente e mais firmemente do que a doutrina digerida formalmente por aqueles que não possuem a força e a perseverança de Zinzadze. Como o Rei Lear de Shakespeare, ele foi um revolucionário em cada centímetro. Seu caráter talvez tenha se revelado mais fortemente nos últimos oito anos – anos de luta ininterrupta contra o advento e o entrincheiramento da burocracia sem princípios.

Zinzadze lutou organicamente contra tudo que lembrasse a traição, a capitulação e a deslealdade. Ele entendia a importância do bloco com Zinoviev e Kamenev. Mas moralmente ele nunca apoiou esse grupo. Suas cartas mostram toda a simplicidade de sua repugnância – é impossível encontrar outra palavra – contra revolucionários que, querendo manter sua filiação formal ao partido, o traem renunciando a suas ideias.

O número 2 do Boletim da Oposição Russa publicou uma carta de Zinzadze a Okudjava. É um excelente documento de tenacidade, clareza de pensamento e convicção. Zinzadze, como foi falado, não era um teórico, e ele voluntariamente deixou para outros formularem as tarefas da revolução, do partido e da Oposição. Mas todas as vezes que ele detectava uma nota falsa, ele pegava a caneta e nenhuma “autoridade” poderia impedi-lo de expressar suas suspeições e de fazer suas respostas. Sua carta, escrita no dia 2 de maio do ano passado e publicada no Boletim números 12-13 (p.27), é o melhor testemunho deste fato. Este homem prático, este organizador protegeu a pureza da doutrina mais atentamente do que alguns teóricos.

Nas cartas de Kote comumente encontramos as seguintes expressões: “uma má ‘instituição’, essas hesitações”. E mais: “ai das pessoas que não conseguem esperar” e “na solidão, pessoas fracas facilmente se tornam sujeitas a toda forma de contágio”. Sentimentos de uma fortaleza inquebrável penetravam Zinzadze e sustentavam sua fraca energia física. Ele considerava até mesmo sua doença um duelo revolucionário. Segundo uma de suas cartas ele estava resolvendo, em sua luta contra a morte, a questão: “quem vai vencer?”. “Neste meio tempo, a vantagem continua do meu lado”, acrescentava, com o otimismo que nunca o abandonou, meses antes de sua morte.

No verão de 1928, falando de si mesmo, de sua doença, Kote escreve de Bakhshi-Sarall para o autor dessas linhas: “...muitos de nossos camaradas e amigos foram forçados a se separar da vida, na prisão ou em algum lugar de deportação mas, em última instância, tudo isso servirá apenas para enriquecer a história revolucionária que educa as novas gerações. A juventude bolchevique, esclarecida pela luta da Oposição Bolchevique contra a ala oportunista do partido, vai entender de que lado está a verdade...”

Essas palavras, simples e ao mesmo tempo sublimes, Zinzadze só conseguia escrever em uma carta a um amigo íntimo. Agora que o autor não está mais entre os vivos, essas linhas podem e devem ser publicadas. Elas resumem a vida e a moral de um revolucionário de alta patente. Elas devem ser feitas públicas precisamente porque a juventude deve ser criada não somente com fórmulas teóricas mas também com exemplos de tenacidade revolucionária.

Os partidos comunistas do Ocidente ainda não produziram militantes como Zinzadze. Essa é sua principal fraqueza, que é determinada por razões históricas, mas que não deixa de ser uma fraqueza. A Oposição de Esquerda dos países ocidentais não é uma exceção – neste caso – e deve tomar nota disso.

É precisamente para a juventude da Oposição que o exemplo de Zinzadze pode e deve servir como lição. Zinzadze foi a negação viva de todo tipo de carreirismo político, ou seja, da capacidade de sacrificar os princípios, as ideias e as tarefas da causa por fins pessoais. Isso não significa de maneira nenhuma a negação da justificável ambição revolucionária. Não, a ambição política é uma força muito importante na luta. Mas o revolucionário começa ali onde a ambição pessoal é inteiramente subserviente a grande ideia, submete-se voluntariamente a ela e se funde com ela. Flertar com ideias, brincar com elas com o propósito de uma carreira pessoal – isso é o que Zinzadze condenou sem piedade durante sua vida e através de sua morte. A ambição de Zinzadze era uma ambição de lealdade revolucionária inabalável. Deve servir como uma lição a juventude proletária.

7 de janeiro de 1931

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