Sociedade

SUBNOTIFICAÇÃO

Leite e Marchezan reabrem comércio, mas mortes por síndromes respiratórias crescem 602% no RS

quarta-feira 6 de maio| Edição do dia

Sim, é isso mesmo que você leu. As mortes por síndromes respiratórias agudas no Rio Grande do Sul cresceram mais de 600% no último período. Os dados, fornecidos pela própria Secretaria de Saúde do estado, comparam as mortes por síndromes respiratórias agudas ocorridas desde o final de janeiro até o dia 18 de abril com as mortes ocorridas no mesmo período nos anos anteriores. Em comparação com 2019, houve aumento gigantesco de 602%, de 37 mortes ocorridas em 2019 para 260 mortes ocorridas em 2020. Veja o gráfico abaixo:

Chama atenção o tamanho do crescimento, bem como a discrepância entre os mortos oficiais e os não oficiais. Até o dia 18 de abril, o estado notificou 25 mortos. Mas se subtrairmos as mortes por síndromes respiratórias notificadas (260) pelos números do ano passado, chega a um número de 223 mortos. Enquanto escrevemos essa matéria, o estado notificou 83 mortes – isso mais de duas semanas depois dos dados do gráfico. Nem todas as mortes por síndromes respiratórias agudas são decorrentes da COVID, mas não é possível que um aumento de 602%, em meio a maior pandemia do século, seja casual. Pois é, é nisso que Leite, Marchezan e a Zero Hora acreditam, ou pelo menos querem que nós acreditemos.

Segundo a Zero Hora, a Secretaria de Saúde atribui a explosão de mortes a uma notificação maior dado o alerta, e descarta subnotificação. A quantidade de pesquisas que indicam uma subnotificação gritante no Brasil torna essa hipótese da SES um tanto quanto duvidosa, para não dizer mentirosa e criminosa. É evidente que há uma subnotificação em curso nas mortes, não pequena, tampouco casual – trata-se de subnotificação como política de estado. Como um biólogo outro dia disse, os coveiros têm sido os melhores epidemiologistas do momento…

Leite e Marchezan comemoram os números do Rio Grande do Sul em suas redes sociais e avançam na reabertura do comércio. O prefeito da capital recentemente “agradeceu a população” no twitter após publicar manchete da Zero Hora em que Porto Alegre figura no topo das capitais com menor ritmo de avanço do coronavírus. O desnível entre as mortes por síndromes respiratórias agudas e os casos notificados no mínimo problematiza esses dados. É de se questionar, em primeiro lugar, a eficácia dos testes (já comprovadamente ineficazes em muitos casos, a depender do tipo de teste oferecido) e se de fato eles estão sendo feitos em todas as pessoas que apresentam sintomas e em todas as pessoas que morrem com sintomas. A quantidade de histórias que ouvimos de conhecidos sobre mortos pela COVID e que o teste lhe foi negada não é pequena.

Nos cabe perguntar a serviço do que está a subnotificação. Os dados vem servindo, objetivamente, para Leite e Marchezan afrouxarem as medidas de isolamento social. Essa semana voltaram ao trabalho milhares de pessoas na capital. Leite dividiu o estado em cores para permitir às prefeituras a abertura do comércio. Na prática, a subnotificação serve para amenizar o estrago real aos olhos da população e ceder, com mais vazelina, às exigências da burguesia local. As carreatas dos empresários são vaiadas pelas janelas e rechaçadas pela maioria da população que acompanha o problema da pandemia global, mas fazem pressão no governo. Como sabemos que Leite e Marchezan trabalha para o time de lá, era de se esperar um alinhamento com esse setor da população. Os tucanos podem não balbuciar grosserias e barbaridades como o presidente Bolsonaro, mas suas ações vão na mesma linha. Tudo isso em conluio com a Zero Hora, que abafa os casos evidentes de subnotificação. Os empresários aplaudem e quem sofre é a população mais pobre que amarga o medo do desemprego ou da doença.

É preciso urgente saber para onde estão indo os testes prometidos, se eles estão sendo feitos de fato em todas as hospitalizadas. Sabemos que os profissionais da saúde não possuem testes, isso é um absurdo. Ao mesmo tempo exigir que a quarentena seja organizada de forma racional, fechando todos os serviços não essenciais, testando todos os trabalhadores que estão na linha de frente, garantindo uma renda mínima para os desempregados, proibindo as demissões e reduções salariais, e ampliando a rede SUS, centralizando todos os leitos de UTI nas mãos dos trabalhadores e do SUS. Não podemos confiar nas palavras desses senhores, é preciso ir a fundo nos dados. Apenas os trabalhadores podem dar uma saída para essa crise.




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