Sociedade

INIBIDORES CLANDESTINOS À VENDA

Lei libera inibidores de apetite perigosos à saúde e cria "mercado paralelo" para drogas

Inibidores de apetite com efeitos semelhantes à anfetamina e graves efeitos colaterais, proibidos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) desde 2011 foram liberados por uma lei aprovada em junho e sancionada por Rodrigo Maia como presidente interino. Agora, as drogas são vendidas sem liberação da Anvisa.

Fernando Pardal

@fepardal

quinta-feira 10 de agosto| Edição do dia

Até mesmo a AGU (Advocacia Geral da União) emitiu comunicado no dia anterior à assinatura de Rodrigo Maia sancionando a liberação da venda dos inibidores. Mas a queda de braço envolve um lobby poderoso: o Conselho Regional de Medicina (CRM) e aAbeso (Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica) afirmaram ser favoráveis à liberação dos medicamentos.

Entre os medicamentos proibidos pela resolução da Anvisa de 2011, encontram-se três pertencentes ao grupo das anfetaminas e aminas: Femproporex/Anfepramona; Lisdexanfetamina e Mazindol/Sibutramina.

Esses remédios, que costumavam ser receitados de forma absolutamente irresponsável e indiscriminada por médicos, principalmente endocrinologistas, causavam efeitos colaterais graves, em especial relacionados a transtornos mentais. Entre eles, estão a dependência, alteração de humor, tremores, insônia, agitação, depressão, surtos psicóticos, arritmia cardíaca, ansiedade, transtorno obsessivo-compusivo (TOC), tontura, náusea e palpitações.

Além disso, seus efeitos foram apontados como de curto prazo, não tendo nenhuma eficácia a médio e longo prazo.

Veja também: A medicina que só trabalha do consultório para dentro

A Anvisa e a Fundação Fiocruz se pronunciaram contra a liberação dos medicamentos feita pelo Congresso Nacional, afirmando que sua eficácia não é comprovada e que os efeitos colaterais superam os possíveis benefícios trazidos pelos remédios. A decisão da Anvisa de proibir os inibidores inicialmente teve como base 170 estudos científicos que apontavam as conclusões nas quais se embasava. Até mesmo a OMS recomenda que o uso dos medicamentos anorexígenos não ultrapasse 12 semanas devido às possibilidades de dependência.

Nenhum dos remédios liberados pelo Congresso é legalizado em países da Europa. Nos Estados Unidos, apenas a anfepramona é permitida, sendo comercializada desde 1997. O femproporex não é aprovado no país e o mazindol foi retirado das farmácias em 1999.

Outros medicamentos emagrecedores que não são à base de anfetamina, como a liraglutida, aprovada pela Anvisa em 2016, têm preços muito mais elevados, chegando a liraglutida ao custo de R$ 900 mensais. Outra opção menos onerosa é o Orlistate (R$ 133) que atua inibindo enzimas de digestão de gorduras (com o efeito colateral de uma literal diarreia de gordura).

Mercado paralelo

A liberação dos medicamentos sem o consentimento da Anvisa levou a uma situação complexa: a agência é responsável pela fiscalização da qualidade e da produção de medicamentos; sem sua atuação, os medicamentos liberados são produzidos apenas em farmácias de manipulação, sem controle sanitário ou de produção.

Nas redes sociais, a ânsia por "pílulas mágicas" de emagrecimento já levou ao surgimento de muitas comunidades de usuários para compartilhamento de informações sobre pontos de venda das drogas e médicos que as receitem. As comunidades têm nomes como "União pela volta dos inibidores de apetite".

A Folha reproduziu algumas das mensagens encontradas nesses grupos: "Médicos da clínica [nome] já estão receitando anfepramona e femproporex. Ligue e agende sua consulta!", "Confirmado!!! Já estou prescrevendo anfepramona em todos os consultórios!!!", ou "Meninas, estamos com agenda aberta para consulta com endocrinologista, aqui na região zona leste de SP". Outras pessoas oferecem a "mercadoria" sem necessidade de "qualquer burocracia" como receitas médicas ou consultas, a ser entregue por Sedex ou numa estação de metrô.

Medicina doente, necessidades doentias

A questão dos inibidores de apetite está longe de ser uma busca por saúde. Atende antes aos interesses de uma sociedade pautada por padrões de beleza impostos a ferro e fogo, particularmente às mulheres, que geram doenças psíquicas como a anorexia e a bulimia em massa.

Por outro lado, atendem a interesses de uma indústria farmacêutica que, colocando trilhões de dólares em movimento, rege os interesses de uma medicina capitalista muito interessada em lucro, e pouquíssimo na saúde humana.

Veja também: Medicina de mercado e miséria da medicina: a relação perniciosa do mercado com a medicina

A busca doentia por atender a padrões de beleza e aos interesses insaciáveis de lucros são os motivadores por trás da produção dos inibidores, e certamente também por trás de sua recente liberação por parte do Congresso. Política, indústria farmacêutica, interesses médicos pautados pela lógica do lucro e da mercadoria jamais poderão atender a necessidades humanas. Nossos corpos, mentes e necessidades seguem pautados por interesses alheios às verdadeiras necessidades e à liberdade da humanidade.

Veja também: “Você sabe com quem está falando?” A autocracia científica e o que ela esconde




Tópicos relacionados

Saúde Mental   /    medicina do capital   /    Sociedade   /    Saúde

Comentários

Comentar