Mundo Operário

BREQUE DOS APPS

"Larguei mão, nem me atenderam": entregadores acidentados relatam drama com o descaso dos apps

quarta-feira 1º de julho| Edição do dia

Os relatos de entregadores de aplicativos escancara o extremo da precarização do trabalho a qual os entregadores estão submetidos. Situações absurdas perpassam a vida de Joel, Alexandro, Felipe e Robson, depois de se acidentarem, perderem membros de seus corpos e sofrerem com o descaso dos aplicativos. Mas sabemos que essa realidade revoltante se estende a milhares.

Já denunciamos aqui nesse diário casos revoltantes como o que um entregador morre em acidente e empresa vai ao local recolher maquininha e caixa de transporte e relatos de entregadores que dizendo que a Rappi exige devolução do valor da entrega mesmo em caso de acidente ou morte do entregador Em pesquisas recentes, dados mostram como o número de acidentes entre entregadores aumentou, se comparados os dados dos meses deste ano com os do ano passado. Além de todos os riscos que enfrentam, esse setor da classe trabalhadora também não tem direitos trabalhistas básicos, (como férias, décimo terceiro, seguro acidente), assim como são submetidos a exaustivas jornadas de trabalho e estão mais exposto à pandemia, frente a falta de oferta de EPIs por parte das empresas.

Os profissionais relatam que em meio a pandemia trabalham ainda mais para ganhar menos, com cargas diárias de 12 horas por dia e atuação em 26 dias por mês, encontrando imensa dificuldade na comunicação com as empresas. O caso de Joel, Alexandro, Felipe e Robson, entregadores na Grande São Paulo, é estarrecedor. Nos acidentes sofridos durante o trabalho, perderam membros do corpo, o que os impediu de trabalhar, e ainda não receberam indenização, contando apenas com o apoio e solidariedade dos colegas motocas, com cestas básicas e doações de dinheiro.

Joel Brosselin com 61 anos seguiu trabalhando como entregador por estar a quatro anos da esperada aposentadoria. Novembro do ano passado, se chocou com um carro quando voltava de uma jornada de trabalho. O motorista fugiu sem prestar socorros. Foram 50 dias de internação e três cirurgias. As infecções e a diabetes complicaram seu quadro e obrigaram os médicos a amputar parte da perna direita. Joel passou sete meses sentindo-se abandonado pela empresa. Ouviu que não seria indenizado pois estava na volta do trabalho, e não num período entre entregas. Por conta da pandemia, teve de parar as sessões de fisioterapia. Sem dinheiro, começou uma vaquinha virtual para conseguir uma prótese e voltar a trabalhar até conseguir sua aposentadoria. Por conta da repercussão de um vídeo que publicou nas redes sociais, foi que recebeu contato do iFood, que agora disse-o que arcará com os custos e que será indenizado pelo seguro. Joel comenta e lamenta que o aplicativo obriga os profissionais a trabalhar numa rotina insegura: “Colocam um horário para retirada muito rápido, e somos obrigados a acelerar. Quando chove, não aumentam esses minutos de limite, então é pior. Temos que acelerar mais, e aí vêm os acidentes, os bloqueios do aplicativo [quando não chegamos a tempo], vêm as multas. Eles não se importam, não têm uma linha de comunicação conosco. [O meu vídeo] só chegou a eles porque o vídeo tomou essa proporção. Agora, me sinto um fracassado. Essa situação faz a gente ficar depressivo."

Alexandro Santos, 44 anos, em abril passado, à noite, enquanto prestava serviços ao aplicativo Zé Delivery, foi atingido em cheio por uma outra motocicleta que passou no sinal amarelo a mais de 100 km/h e apresentava sinais de embriaguez. Passou por quatro cirurgias, teve o pé amputado e ficou 15 dias em internação. Até agora sem receber qualquer contato ou tentativa de auxílio por parte da empresa, pretende entrar em processo judicial por seus direitos. “Me sinto desamparado. Eles não estão nem aí, como todos os aplicativos. Não ligam para os motocas, não dão o suporte e a segurança necessários. Na pandemia, mais pessoas estão trabalhando para esses aplicativos, ajudando a lucrar, e com isso estão baixando as taxas. Os motoboys pegam de três a cinco pedidos pelo valor de corridas que antes era de uma ou duas”.

Felipe Pereira Bockor, 21 anos, trabalhando para a Uber Eats há um ano e meio, por mais de dez horas ao dia, se acidentou no começo de maio passado. Na avenida Nações Unidas, foi atingido de frente por um carro. Passou por duas cirurgias e teve o pé amputado. Tentou contato por diversas vezes com a Uber Eats para procurar por direitos, mas só encontrou o descaso: “Nem me atenderam”. Não acredita mais no ressarcimento, não quer ir atrás da empresa, tampouco pede ajuda ao sindicato. “Eu mesmo larguei mão de ir atrás [da empresa]. Vi que não vai dar, não tive ajuda”, conta o jovem, que conseguiu uma prótese graças a uma vaquinha, através de colegas motoboys e amigos o ajudaram. Felipe declara que alguns sonhos tiveram de ficar para trás.

Robson José do Prado, 34, trabalhou por dez anos como motoboy contratado para empresas. Recentemente, sem trabalho com carteira assinada, migrou para os aplicativos. No mês passado, trabalhando também mais de dez horas por dia para garantir seu sustento, se acidentou. Passou por uma cirurgia de emergência, teve três paradas cardíacas e, na sequência, uma segunda cirurgia. Depois dos sustos, teve parte da perna esquerda amputada. Apesar de conseguir entrar em contato com a Uber Eats, que lhe disseram que pagarão cinco dos 21 dias internado, medicações e que também terá o seguro de invalidez permanente, Robson segue na espera e relata que está sem dinheiro, sem arrecadação, sem emprego e não sabe o que será do próximo mês. Robson precisou recorrer a uma vaquinha online criada por seu irmão para conseguir uma perna mecânica que até então, arrecadou pouco mais de R$ 3.900 dos R$ 30 mil colocados como meta.

Esses são alguns dos relatos de milhares de entregadores de aplicativos que sofrem as mais profundas consequências da ganância capitalista, não apenas no Brasil, como em todos os cantos do mundo. É nesse sentido, que marcamos a importância do fortalecimento da mobilização internacional dos entregadores nesse 1º julho, onde os entregadores de aplicativos farão uma paralisação histórica, por demandas elementares, exigindo melhores condições de trabalho, como o fornecimento de EPIs, fim do bloqueio arbitrário realizado pelas empresas, aumento do valor pago por quilômetro rodado, seguro de vida, aumento do valor mínimo para corridas, seguro de roubo e de doenças.

Nós, do Esquerda Diário, compreendemos que as mobilizações dos entregadores são fundamentais e devem ser apoiadas por outras categorias de trabalhadores, como os Metroviários que aprovaram greve em 1/7 contra ataques de Dória e junto com entregadores de APP, apesar de terem sido freados, nessa manhã, pela burocracia e com aval de setores da esquerda. A paralisação de entregadores acontece no Brasil, na Argentina e conta com a adesão em outros países como México, Chile, Costa Rica, Guatemala e Equador.

Batalhemos juntos por uma alternativa política de trabalhadores independente. Nossas vidas valem mais que o lucro deles!




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