Educação

REVOLUÇÃO RUSSA E EDUCAÇÃO

Krupskaya e a educação politécnica

Semana passada se comemorou o aniversário de nascimento e morte de Nadeshda Krupskaya (1869-1939), figura importante da Revolução Russa e do pensamento educacional socialista. Para comemorar essa grande revolucionária, publicamos um texto inédito em língua portuguesa.

Mauro Sala

Campinas

segunda-feira 6 de março| Edição do dia

Infelizmente, muitas vezes Krupskaya só é lembrada por seu relacionamento com Lênin – com quem foi casada de 1898 até a morte do grande dirigente da Revolução de Outubro -, minimizando seu papel como revolucionária e organizadora do partido do proletariado, e o fato de ter sido uma das responsáveis pela formulação de um programa educacional afinado com os ideais da revolução socialista, para o que contribuiu decisivamente.

Apesar da dificuldade de acesso aos textos de Krupskaya entre nós (um trabalho de tradução de suas principais contribuições é urgente!) podemos dizer que havia uma grande preocupação em sua formulação pedagógica: como articular educação e trabalho produtivo tendo em vista a construção do socialismo.

Ainda no exílio, durante a primeira guerra mundial, seguindo um conselho de Lênin, pesquisou e escreveu um livro, “Instrução Pública e Democracia”, sobre como os países industrialmente avançados colocavam esse problema.

Uma pedagogia socialista estava dando apenas seus primeiros passos e Krupskaya precisava se armar no arsenal do inimigo. A influência dos reformadores escolanovistas, como John Dewey, marcou profundamente seu pensamento, assim como de outros importantes teóricos nesse primeiro momento de construção do estado operário na Rússia.

A crítica que os escolanovistas faziam contra a escola tradicional parecia ter ainda mais valor quando pensada contra a educação czarista. Embora pensada para realidades diferentes – o que faz toda a diferença! - a ligação da escola com a vida foi a fórmula comum aos escolanovistas e à revolucionária bolchevique.

Mas não foi apenas nessa fonte que Krupskaya bebeu.

Krupskaya levou muito a sério uma formulação que Lênin tomava de Marx em um artigo sobre o criador do socialismo científico, escrito em 1914. Lênin, em seu artigo em homenagem à Karl Marx, transcreveu uma passagem d’O Capital que chamou sua atenção. Escreveu Lênin, citando Marx: “O sistema fabril nos mostra ’o germe da educação do futuro em que para todas as crianças, a partir de certa idade, se unirá o trabalho produtivo com o ensino e a ginástica, não só como método para o aumento da produção social, senão como único método capaz de produzir homens desenvolvidos em todos os aspectos’” (LÊNIN, “Karl Marx: breve esboço bibliográfico com uma exposição do marxismo”).

Lênin, ao elaborar o projeto de programa do partido bolchevique, formulou um ponto referente à escola onde defendia o “ensino gratuito, obrigatório, geral e politécnico (que dá a conhecer na teoria e na prática todos os ramos fundamentais da produção) para todas as crianças de ambos os sexos até os 16 anos, estrita relação do ensino com o trabalho social das crianças” (citado por Krupskaya em “Papel de Lenin en la lucha por una escuela politécnica”).

Essa formulação de Lênin, junto aos estudos que ela tinha feito sobre os países industrialmente desenvolvidos, fez com que Krupskaya tomasse essa formulação como uma formulação sua.

Em 1919, no VIII Congresso do Partido Comunista (Bolchevique) da Rússia, por influência dela e de Lênin, foi aprovada uma resolução que definia a “atuação da instrução geral e politécnica (que faz conhecer em teoria e em prática todos os ramos principais da produção), gratuita e obrigatória para todas as crianças e adolescentes dos dois sexos, até os 17 anos” e “a plena realização da escola única do trabalho, com o ensino na língua materna, com o estudo em comum das crianças dos dois sexos, absolutamente laica, livre de qualquer influência religiosa, que concretize uma estrita ligação do ensino com o trabalho socialmente produtivo, que prepare membros plenamente desenvolvidos para a sociedade comunista”. (citado em Manacorda, História da educação)

Essa proposição estava afinada com dois desafios: a superação das dificuldades da realidade Russa e a construção do Comunismo, ou seja, com o “aumento da produção material” e com a produção de “homens desenvolvidos em todos os aspectos”, para retomarmos a passagem de Marx citada por Lênin.

Não se tratava apenas da forma de se consolidar e superar os desafios da construção do estado operário num país atrasado como a Rússia, mas também do caminho para a superação da divisão social e hierárquica do trabalho e do definhamento do próprio Estado. Como escreveu Lênin no seu Estado e a Revolução, “A base econômica da extinção completa do Estado significa um desenvolvimento tão elevado do comunismo que nele desaparece a oposição entre o trabalho intelectual e o trabalho manual”, e para isso a articulação do ensino com o trabalho socialmente produtivo, junto com o fim da propriedade privada dos meios de produção, desempenha papel fundamental.

Krupskaya presidiu a Seção Científico-Pedagógica, ligada ao Comissariado do Povo para a Instrução Pública, sendo uma das responsáveis pela preparação dos novos programas escolares e foi uma das grandes defensoras das experiências das escolas-comunas (que avançou significativamente na concretização e avanço do programa da escola única do trabalho, ou seja, da educação politécnica), buscando generalizá-las para as escolas regulares.

Depois da morte de Lênin, em 1924, e após um curto período e que militou nas fileiras da oposição, Krupskaya acabou capitulando à burocracia stalinista, tendo se tornado, segundo as palavras de Trotski, “uma das figuras mais trágicas da história revolucionária”.

Mesmo assim, não podemos jogar fora sua decidida luta pela transformação da educação soviética, sua busca por uma educação nova para os novos tempos. A luta decidida de Krupskaya em defesa da educação politécnica marca muito mais sua trajetória do que sua capitulação à burocracia stalinista.

Assim, em memória à essa figura fundamental da educação socialista, ensaiada na URSS, publicamos um artigo seu, de 1930, intitulado “Diferença entre a instrução profissional e a politécnica”.

Diferença entre a instrução profissional e a politécnica

(artigo publicado na Revista “Onáshij détiaj”, em 1930 – traduzido do espanhol [1])

Para que se compreenda melhor a diferença entre a instrução profissional e a politécnica, colocarei um exemplo: tomaremos a indústria têxtil. Nela há muitos ofícios: o de tecelão, fiador, tingidor etc. Para ser um bom tecelão há que saber manejar um tear moderno, conhecê-lo com perfeição, conhecer as peculiaridades da matéria-prima e ter hábitos de trabalho. Quando nas fábricas têxteis havia teares movidos à mão, se necessitava uma prolongada preparação profissional. Tinha que trabalhar anos inteiros para adquirir a perícia necessária.

E como se adquiria essa perícia?

O aprendiz, submetido a um operário adulto, “se fixava” durante meses e meses em seu trabalho, ajudava primeiro a preparar o fio e fazia pequenas tarefas. Depois, o operário o colocava para trabalhar no tear e o aprendiz adquiria, pouco a pouco, hábitos de trabalho. O aprendiz ajudava consideravelmente o trabalhador em seu trabalho. Por isso, os velhos tecelões e tecelãs que trabalham à mão são partidários da aprendizagem individual.

Com o tempo, as máquinas foram deslocando o trabalho manual, mudando o próprio caráter do trabalho. Contudo, os hábitos de trabalho – ainda que de outro gênero – continuam sendo necessários. Agora, o tecelão deve conhecer seu tear, atender vários teares de uma vez e realizar rapidamente o trabalho que ainda não está mecanizado: mover alavancas, apertar botões etc.

A aprendizagem individual é completamente distinta na atualidade. Os aprendizes não fazem tarefas nem trabalho à mão. O trabalho de tecelão é mais responsável e não se pode encarregar dele um adolescente. A aprendizagem individual vai desaparecendo e seu lugar é ocupado pela escola profissional.

Se a escola profissional está bem equipada, o aluno conhecerá perfeitamente a máquina e se habituará, pouco a pouco, a trabalhar nela. A escola profissional moderna tem que estar bem equipada, se quer cumprir sua missão, mas isso é muito caro. As escolas profissionais desse tipo são muito poucas, mas se estão bem organizadas proporcionam uma boa qualificação.

A técnica avança e um novo invento faz desnecessários hábitos adquiridos com grande esforço. A máquina realiza o que antes fazia o homem e sua qualificação não serve para nada. Em um país atrasado, onde o trabalho à mão desempenha ainda um grande papel, onde as fábricas se reequipam com lentidão, as escolas profissionais e inclusive a aprendizagem individual têm grande importância.

Em um país que se industrializa rapidamente, se necessita de outra coisa, se necessita que os aprendizes tenham uma ideia da produção em seu conjunto, conheçam em que direção se desenvolve a técnica e saibam trabalhar em qualquer máquina, ou seja, que possuam uma cultura geral do trabalho e conheçam em geral a matéria. Quem adquiriu uma preparação desse tipo se adapta às frequentes mudanças da técnica. Será um operário qualificado não ao velho estilo, mas ao novo.

O que ensinará a escola de sete graus?

Não ensinará a tecer ou fiar com as mãos ou com máquinas, mas os jovens aprenderão muito do que é necessário saber na produção. Antes de tudo, lhes dará a conhecer o papel que desempenha a indústria têxtil na economia do mundo inteiro e na do nosso país. Lhes dará a conhecer como se desenvolverá a indústria na URSS. Os alunos saberão onde se encontra os centros de nossa indústria têxtil, que matérias-primas utilizam as fábricas – linho, algodão, lã, seda, seda artificial etc. -, onde se encontram zonas produtoras dessas matérias primas e como se desenvolverão em um futuro próximo. Conhecerão as peculiaridades das matérias primas e os métodos mais perfeitos de obtê-las e conservá-las, assim como a instalação de fábricas, as peculiaridades de sua estrutura, os distintos ramos de fabricação de tecidos. Também saberão que profissões se necessitam na fábrica. Estudarão a construção de máquinas têxteis, aprenderão a projetar estas máquinas e saberão a história do desenvolvimento da produção têxtil e em que consiste os aperfeiçoamentos modernos. Em oficinas especiais trabalharão em máquinas de distintos tipos, verão em que são vantajosas as máquinas novas em relação às máquinas velhas e aprenderão a atendê-las e pô-las em movimento: começando pelo trabalho manual e terminando pela eletricidade.

A escola deve despertar nos alunos grande interesse pela produção e o desejo de elevá-la a um nível mais alto. Por outro lado, a escola fabril de sete graus dará a conhecer aos alunos a organização do trabalho na fábrica e lhes ensinará a organização do trabalho em geral, tanto individual quanto social, assim como o modo de criar condições salubres de trabalho, rudimentos de técnicas de segurança em todas as fábricas e nas fábricas têxteis em particular. Por fim, os alunos aprenderão a história do movimento operário e sindical da URSS e dos países capitalistas e conhecerão a luta internacional dos trabalhadores e, em primeiro lugar, os do setor têxtil.

Tudo isso não proporcionará aos alunos uma profissão determinada que, quiçá, seja inútil amanhã, mas sim uma vasta instrução politécnica e hábitos gerais que lhes permitirão chegar às fábricas não como cegos peritos em que todos tropeçam, mas como operários conscientes, hábeis, que só necessitam uma curta aprendizagem especial.

[1] Traduzido de “Diferencia entre la instrucción profesional y la politécnica” In. KRUPSKAYA, Nadeshda. La educación de la juventud. Nuestra Cultura, Madri, 1978.




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