Política

AUMENTO DO TETO

Knobel e Wagner Romão do PT juntos para defender os privilégios do teto salarial

No momento em que a greve de trabalhadores da Unicamp é atacada pela reitoria com corte de salários, o atual presidente da Adunicamp e militante do PT, Wagner Romão, ao invés de colocar seu cargo e suas energias para defender os trabalhadores contra esse enorme ataque ao direito de organização, assina um texto ao Estadão junto com o reitor da Unicamp, Marcelo Knobel, defendendo o aumento do teto do salário do funcionalismo público, votado na Alesp no começo do mês.

sábado 30 de junho| Edição do dia

No começo do mês foi votado na Alesp a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 5 que eleva o teto salarial de todos os professores, promotores e demais servidores da alta cúpula das Universidades e do Estado para R$30 mil. Com os escândalos dos supersalários em 2016, na Unicamp se revelou que além de vários professores e funcionários ligados à reitoria já ganharem acima do teto que era de 22 mil, ganhavam ainda um segundo salário a partir da dupla matrícula, muitas vezes dobrando o teto, com alguns burocratas acumulando 70 mil de salário mensal.

Mesmo com a revogação da dupla matrícula, o privilégio do alto escalão de funcionários e professores é escandaloso se comparado com o que recebe um funcionário comum, mas é gritante se comparada com a miséria que a universidade paga aos terceirizados dos serviços. Essa situação tende a se agravar com o aumento do teto, que gerará para os cofres públicos uma despesa de mais de 1 bilhão de reais.

Um verdadeiro escândalo, se olharmos que essa PEC, que vai causar tamanha despesa pública, vai ser usufruída por apenas 4.000 servidores da alta cúpula do Estado, enquanto para os outros quase 500 mil servidores, o que Alckmin já vinha oferecendo e agora passa as mãos de Márcio França (PSB), é arrocho salarial, mais precarização e desmonte dos serviços públicos como as universidades e seus hospitais. Ou seja, para alguns poucos o discurso é “precisamos manter a qualidade do serviço” para a maioria é “carreguem a crise nas costas”.

Além da votação para o aumento dos privilégios para os altos cargos do Estado contar com o apoio do PT e do PSOL, a recente nota feita pelo reitor e Wagner Romão do PT, escancara qual o tipo de universidade o petismo defende, e a que a reitoria junto com a presidência da Adunicamp está se dispondo. Confundem propositalmente a manutenção dos privilégios com a defesa dos direitos dos funcionários e professores, uma vez que o aumento do teto só servirá para enriquecer os que já são os mais ricos dentro da universidade.

Ao mesmo tempo, os trabalhadores da Unicamp em sua greve mostram o descaso da reitoria com seus salários há muito tempo arrochado pela inflação, mais de 12,5% de salário perdido, e para eles a reitoria oferece apenas os míseros 1,5% de reajuste. Trabalhadores que estão lutando por melhores condições de salário e de trabalho, para defender também os serviços de saúde, como HC e CAISM, hospitais que servem diretamente a população e que são a cada dia mais precarizados, com falta de leitos, materiais e funcionários de acordo com a demanda. É neste momento que Romão se dispõe a estar lado a lado não com os trabalhadores, mas com a reitoria para defender privilégios para poucos burocratas.

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Fingindo não estarem diante de uma das maiores greves de trabalhadores colocam: “Entendemos, no entanto, que a resolução da crise não se pode dar em prejuízo do serviço público”. Uma afirmação cínica, uma vez que o discurso da reitoria para não dar reajuste, congelar as contratações de funcionários e professores, além das pautas estudantis, é justamente a crise orçamentária. É com esse discurso, que, hoje, a reitoria, com o apoio do petismo, ataca quem eles dizem defender.

É preciso desmascarar o discurso que fala de fuga de cérebros para a defesa dos privilégios. Quando se fala de aumentar o teto do funcionalismo público, que atinge os professores universitários, não estamos falando dos professores que estão entrando agora na universidade. Mas na verdade, dos professores que já estão aqui há muito tempo ou da burocracia do funcionalismo que faz aliança com a reitoria vigente. Inclusive, como a reitoria ousa falar da fuga de grandes profissionais que poderiam estar aqui dentro, se hoje ela congela a contratação de novos docentes e funcionários?

Precisamos questionar para quem serve o conhecimento produzido dentro da universidade. É verdade, como coloca o texto, que as estaduais paulistas respondem por cerca de um terço dos artigos científicos produzidos no país. Mas não falam que boa parte desse conhecimento produzido vai para a criação de patentes para as empresas privadas. Como o Inova na Unicamp, que segundo eles próprios representa “uma ponte entre o conhecimento produzido aqui dentro e a sua empresa”. Sendo diretamente o conhecimento produzido com dinheiro público, produzindo lucros para a iniciativa privada.

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Esse aumento tem nome e endereço, e de nenhuma maneira pode representar uma vitória para o conjunto do funcionalismo público. Enquanto essa medida permitirá que os altos cargos cheguem a salários de cerca de R$ 30.000, um professor da rede pública do Estado ganha em média de R$ 1.500 a R$ 2.000.

Os autores clamam que “o sistema de ensino superior público paulista é uma das principais forças do Estado e um patrimônio que a sociedade precisa defender.” Essa força do Estado por si não consegue responder aos problemas mais candentes da população que sofre hoje com desemprego e a degradação social da vida, com péssimas condições de saúde, educação, transporte, saneamento básico. Na verdade a Unicamp, USP e UNESP hoje funcionam como universidades para gerar os próximos quadros da burguesia, atacando justamente o conjunto da população que financia a universidade. Não à toa Serra, Mercadante, Dilma entre outros políticos saíram da Unicamp, além dos vários nomes da USP e UNESP.

Por isso nós da faísca queremos disputar cada estudante da universidade para uma perspectiva de aliança com os trabalhadores, que queira justamente subverter esse caráter da universidade e escancarar as portas da Unicamp à toda juventude e para que todo o conhecimento produzido aqui sirva aos trabalhadores e a população. Diferente das grandes mídias burguesas, que utilizam a discussão dos altos salários para defender a privatização das universidades, nós defendemos a universidade pública e os direitos dos estudantes, funcionários e professores de cada ataque dos governos e da reitoria, mas lutamos por uma universidade diferente do que é hoje, e o aumento do teto é reforçar a estrutura de classe que rege a universidade atualmente.

Queremos subverter a universidade do começo ao fim, erguendo uma estatuinte livre, soberana e democrática, para que não seja esta cúpula, que hoje corta salário de quem está em greve, mas os estudantes e trabalhadores que decidam os rumos da universidade, pondo fim ao estatuto herdeiro da ditadura, que segue punindo os estudantes, e assim dar fim também a essa estrutura de poder em que a decisão está nas mãos de poucos (em sua maioria no teto ou acima dele) contra uma maioria. Por isso defendemos que a universidade seja gerida pelos estudantes, trabalhadores e professores de forma proporcional ao seu peso dentro dela.

Aos trabalhadores a reitoria oferece hoje nem R$ 50,00 de reajuste no salário, à burocracia acadêmica mais de R$ 9.000. Sem dizer, o aumento do trabalho precário com milhares de terceirizados, em sua maioria mulheres negras, que chegam a ganhar 44 vezes menos que um alto salário (em média R$26.400). Queremos que os funcionários e professores sejam valorizados, por isso apoiamos ativamente a luta dos trabalhadores por reajuste salarial e contratação de professores e funcionários de acordo com a demanda e batalhamos para que os estudantes também apoiem essa greve, além de defender que os trabalhadores terceirizados possam ser reconhecidos como o que são, trabalhadores da universidade, e sejam efetivados com todos os direitos, sem necessidade de concurso público.

Não podemos naturalizar o aumento do teto para uma burocracia universitária parasitária. Ainda mais num momento de crise econômica. Para as reitorias, que o PT faz coro, o problema está no reajuste dos trabalhadores e não no aumento dos supersalários. Se existe crise orçamentária que se abra todas as contas da universidade e que sejam os estudantes e trabalhadores a decidir sobre o orçamento da universidade. Assim, também defendemos fora da universidade que não paguemos a dívida pública, que ano a ano suga milhões do cofre público para o bolso de banqueiros internacionais e do imperialismo, organizando toda a nossa economia para esse objetivo. Queremos enfrentar pela raíz os grandes problemas da sociedade e da universidade, para que o conhecimento não sirva às empresas, mas que possa responder aos grandes problemas sociais e de interesses da classe trabalhadora e da maioria da população.




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