Teoria

BICENTENÁRIO MARX

Karl Marx: o inventor da luta de classes?

Gilson Dantas

Brasília

sábado 5 de maio| Edição do dia

Sim, essa é uma das ideias que a direita procura plantar no imaginário coletivo: foi Marx quem criou a luta de classes. Marx seria o criador da “ficção” da sociedade dilacerada entre classes sociais, da discórdia e da guerra civil. Um incendiário, um espectro que sempre ronda a classe operária “ordeira” e desejosa de paz.

Longe de ser uma caricatura pura e simples, essa ideia de Marx como inventor e doutrinador da luta de classes circula até nos departamentos de ciências sociais de certas universidades, onde se ensina a importância das reformas sociais, dos pactos sociais e do “caminho do meio” em lugar da revolução e da guerra de classes.

No entanto, as classes sociais existem, sem que Marx tenha sido o descobridor da luta de classes; e ele mesmo declara isso explicitamente, como veremos mais adiante.

Antes, vejamos um pouco sobre a visão de história de Marx.

O dado seminal da concepção histórica de Marx pode ser bem definido a partir das impressões de um operário do tempo de Marx. O operário Joseph Dietzgen, depois de ter lido o primeiro livro onde Marx levanta os tópicos que aprofundará e desenvolverá em O capital, escreve a Marx. Sua carta é de 7 de novembro de 1867 e nela, ele argumenta o seguinte:

O entusiasmo que despertou em mim o trabalho de sua lavra que foi recentemente publicado em Hamburgo [trata-se de O capital], impele-me ao que talvez seja uma audácia inoportuna de desejar assegurar-lhe meu reconhecimento, admiração e gratidão. Já havia lido com grande atenção a Contribuição à crítica da economia política, parte I, quando foi publicado em Berlim, e confesso que livro nenhum [...] forneceu-me tantos conhecimentos positivos novos e tanta instrução quanto esse pequeno trabalho. [...] O senhor expressou pela primeira vez de forma clara, irresistível, científica, aquilo que doravante será a tendência consciente do desenvolvimento científico, vis-a-vis a subordinação da consciência humana à força anteriormente cega do progresso social da produção. É seu feito universal, honorável senhor, ter proporcionado a compreensão dessa tendência, ter favorecido a compreensão de que nossa produção se processa de modo não guiado” [Marx, 1974, p 203]

Aquele operário, lendo Marx na Rússia, captou plenamente uma novidade seminal do marxismo: não se trata de uma doutrina apriorística da sociedade, mas o método de captar, pelo pensamento, o movimento do real, suas contradições, suas tendências, independente da nossa vontade, tal como se desenvolve, objetivamente; é o desvelar das leis de movimento dessa sociedade especifica, anárquica, dominada pelo capital e suas leis tendenciais.

Já a partir do insight daquele operário qualificado se pode começar a entender que Marx não vem do nada [como um deus-ex-machina] e propõe as classes ou que as classes são antagônicas e lutam entre si e que sempre foi assim etc, etc. Na verdade, Marx estuda a sociedade como um processo histórico, que não obedece a qualquer consciência, um processo “não guiado”, objetivo, e termina descobrindo, nesse processo, antagonismos fundamentais que explicam seu movimento.

E é nessa investigação que a luta de classes aparece como motor da história [motor desde que existem as classes, naturalmente]. O que não quer dizer que tenha sido ele o primeiro a detectar a existência da luta de classes e isso ele mesmo reconhece em carta a Weydemeyer, em 1852, portanto pouco depois de ter escrito seus textos publicados no A luta de classes na França [França de 1848]:

Não me cabe o mérito de ter descoberto a existência das classes na sociedade moderna ou a luta entre elas. Muito antes de mim, alguns historiadores burgueses tinham exposto o desenvolvimento histórico desta luta de classes e alguns economistas burgueses a anatomia econômica das classes. O que eu fiz de novo foi demonstrar: 1) que a existência das classes está ligada apenas a determinadas fases históricas do desenvolvimento da produção, 2) que a luta de classes conduz necessariamente à ditadura do proletariado, 3) que esta mesma ditadura constitui tão somente a transição para a abolição de todas as classes e para uma sociedade sem classes” [Marx, 2016, p 33].

Justamente: esses elementos que são os cruciais de parte de Marx em relação à luta de classes encontram-se presentes em sua obra e, quando ele examina a primeira tentativa de revolução proletária, em 1871, na Comuna de Paris, tais ideias aparecem, ali, explicitadas e argumentadas, inclusive a respeito do Estado que a classe operária necessita levantar, que já não pode ser o velho Estado burguês com suas instituições tipo parlamento, polícia etc.

Mas aqui já estaríamos em outro tema. No que nos interessa, nessa nota, ele deixa claro, na citação acima, que durante toda a história da nossa espécie não havia classes sociais, não havia luta de classes; e também que - na era das classes sociais - o desfecho da luta de classes, que pode se desenvolver como uma necessidade [mas não uma inevitabilidade] da luta de classes, vem a ser a ditadura do proletariado. Isto é, se o proletariado se lança à luta decisiva contra a classe inimiga e vence, daqui se desdobra e decorre, se há direção consciente, a imposição do proletariado como classe dominante sobre a velha classe dominante.

E o “proletariado como classe dominante” vem a ser a forma acabada de democracia, em que os trabalhadores exercem sua hegemonia para levar a cabo as tarefas democráticas estruturais em um país como o Brasil, e que dirige, ela própria, a sociedade, sem qualquer amálgama com a burguesia, portanto pelas mãos da democracia proletária, de base.

Portanto, o desfecho revolucionário da luta de classes não pode ser nenhum amálgama com as velhas classes, tipo uma “democracia policlassista” – que, já de início, seria impossível, pois toda democracia serve a uma classe contra outra. Mas sim uma ditadura do proletariado [leia-se uma democracia proletária] contra a classe inimiga, expropriando-a econômica e politicamente.

Marx entende, portanto, como desdobramento necessário da guerra de classes [com a vitória da classe trabalhadora], um novo regime, de transição, na forma de governo de todos os oprimidos sob direção do proletariado organizado, em direção a uma sociedade sem classes.

Considerando todo o período recente em que o marxismo revolucionário praticamente desapareceu [na era da restauração burguesa, na queda da URSS, do Leste, do avanço neoliberal, etc.] do debate da esquerda, não custa reiterar que Marx nega, naquela citação e na sua obra madura, qualquer possiblidade de reforma do Estado burguês. E qualquer possiblidade de “amálgama de classe” como primeira “etapa”, tipo nacionalismo populista, “frentepopulismo” ou coisa parecida. A ditadura é do proletariado e não do proletariado e setores burgueses, por exemplo.

E isso é assim porque Marx amadurece, em seguida do Manifesto Comunista e a partir das revoluções de 1848 na Europa [“primavera dos povos”] novos elementos de análise histórica das classes, da luta de classes, que ele adianta no seu A luta de classes na França e formula na sua Circular do comitê central à Liga dos Comunistas de março de 1850.

A revolução de 1848 na França

No seu A luta de classes na França [1848], ele narra motins operários sufocados em sangue em 1832, 1834 e 1839 nas lutas contra a chamada monarquia de Julho na França. Ele mostra como vai eclodir, na revolução de fevereiro de 1848, uma sublevação de massas que, além do proletariado, inclui dois grandes partidos políticos [organizados em torno de dois jornais, O Nacional e A Reforma], o primeiro como órgão da burguesia republicana e refletindo interesses dos donos de indústria, e o segundo como órgão da pequeno burguesia democrática [onde estavam Ledru-Rollin e Louis Blanc]. No Manifesto Comunista Marx e Engels ainda defendiam uma aliança do proletariado com este último partido [“democrata-socialista”], onde estava Louis Blanc, dirigente operário que se iludia com a democracia burguesa como solução para os problemas sociais.

A Paris das barricadas que eclode em 22 de fevereiro, portanto, derroca a monarquia de Julho e o poder exclusivo da aristocracia financeira. Era a revolução. O povo vence as tropas do governo. Ao mesmo tempo em que os operários em armas impõem a proclamação da República e o voto universal.

Mas a verdade é que diante da debilidade política da burguesia “democrática”, o proletariado impôs um triunfo que era incômodo para toda a França burguesa, ao aparecer como partido autônomo, como analisa Marx.

O governo provisório era um compromisso de distintas classes. Será a primeira vez que um operário [Albert] e um representante do proletariado [Louis Blanc] participam do primeiro escalão de um governo capitalista.

Os operários seguiam armados e mobilizados exigindo uma “republica social”. Mas para a burguesia era preciso que a república burguesa não fosse além de uma república burguesa.

O governo manobrou, tomou medidas hábeis a seu favor e, finalmente, na Assembleia Constituinte, proclamou uma república burguesa exclusiva, sem os representantes do proletariado e, como declarou um dos novos ministros, “temos que conduzir o trabalho à sua antiga condição”, de trabalho. Os operários se sublevam, a reação da burguesia é sangrenta para debelar o que ela chamou de “golpe de Estado comunista”. Dissolvem o governo, colocam um ditador militar, o general Cavaignac, e são mobilizadas todas as forças de repressão contra o proletariado.

Em junho, cai o ultimo bolsão de resistência operária, o bairro de Saint Antoine, sendo liquidada a insurreição de junho, enquanto os operários gritavam, pela primeira vez “Derrubada da burguesia! Ditadura da classe operária!”.

Como disse Marx, aquela foi “a primeira grande batalha entre ambas as classes em que se divide a sociedade moderna. Uma luta pela manutenção, outra pela destruição da ordem burguesa”.

Não havia ainda condições históricas para uma revolução proletária; ali se travavam os primeiros combates, ensaios para o que viria mais adiante.

A independência de classe do proletariado

Mas a verdade estratégica será resgatada, desde ali, por Marx e Engels, sob a bandeira da independência de classe. E que estará plasmada, inicialmente, naquela Circular de 1850 e, anos depois, nas análises da Comuna de Paris: na luta de classes e na luta pelo poder não podemos ser reféns de qualquer amálgama de classe. De nenhuma estratégia burguesa, por mais “progressista” ou “democrática” que apareça a burguesia. São lições tiradas por Marx e Engels.

Os argumentos daquela Circular são claros:

O papel que os liberais jogaram em 1848, este papel de traição, será desempenhado na próxima revolução pelo partido da pequeno burguesia, a qual, entre os partidos de oposição ao governo, está agora ocupando a mesma posição que os liberais tinham antes da revolução de março. Este partido democrático, [é] mais perigoso para os trabalhadores do que foi o partido liberal” [Marx, 1850].

Por mais que se proclamem a si mesmos como “vermelhos” ou “social-democratas”, argumenta mais adiante, é isso que são.

E propõe que os trabalhadores não apenas evitem qualquer amálgama de classe, como também que

em vez de fazer coro com a burguesia democrática, os trabalhadores e particularmente a Liga, devem tratar de estabelecer junto à democracia oficial, uma organização independente, um partido da classe operária, legal e secreto, e fazer de cada comunidade o centro e o núcleo de sociedades da classe operária nas quais a atitude e o interesse do proletariado deverão ser discutidos independentemente das influências burguesas” [Marx, 1850].

Marx vai além e argumenta que os operários

“não devem se desorientar e abandonar seu trabalho por conta de considerações do tipo de que dividindo os votos democratas ajudariam aos partidos reacionários. Este argumento é usado para enganar o proletariado. O avanço que o partido proletário possa fazer com sua atitude independente é infinitamente mais importante que a desvantagem que resulta de termos uns reacionários a mais na representação nacional” [Marx, 1850].

Toda essa argumentação é atual. E esta última, inclusive, tem a ver com uma confusão mais que atual de certa esquerda, que a formula nos termos do “mal menor”: votemos em burgueses “democráticos” para que a direita não ganhe... Ao invés de garantir sua independência de classe, ficam a reboque de governos burgueses “progressistas”, “democráticos” e que, eventualmente, façam concessões às massas [para assegurar, na verdade, gordos lucros ao grande capital em uma economia que esteja crescendo], mas que, na hora crítica, dão passagem aos inimigos do proletariado.

Portanto, se Marx não descobriu a luta de classes, claramente foi ele [e Engels] que elaboraram normas e táticas para fazer avançar a luta de classes na direção da revolução proletária.

Nos dias atuais, como hierarquia do nosso debate político, revolucionário, também claramente se coloca a tarefa de tornar o marxismo uma força material na classe trabalhadora e em todo o movimento dos oprimidos. Para que a luta de classes, inexorável, parte estrutural do capitalismo, não nos leve ao desgaste histórico e a barbárie e sim à vitória da classe trabalhadora, primeiro em um país, em seguida em vários, para que, na base do internacionalismo proletário, finalmente, a espécie humana se livre do câncer do capitalismo.

Referências:

MARX, Karl, 1850. Circular del comitê central a la Liga Comunista. Disponível no site: https://www.marxists.org/espanol/m-e/1850s/50_circ.htm . Acessado em: 2/5/2018Retour ligne automatiqueRetour ligne automatique
MARX, Karl, 1974. O 18 brumário e cartas a Kugelmann. RJ: Paz e Terra.Retour ligne automatiqueRetour ligne automatique
MARX, Karl, 2016. Cartas filosóficas [Antologia]. SP: Iskra/Centelha.




Tópicos relacionados

comunismo   /    Marxismo   /    Teoria

Comentários

Comentar