Opinião

KARL LIEBKNECHT

Karl Liebknecht e seu legado político

Shimenny Wanderley

Campina Grande

sábado 20 de janeiro| Edição do dia

“ (...) quando a socialdemocracia alemã, com Scheidemann e Ebert encabeçando, orbitavam diante do militarismo e o imperialismo alemão, que pareciam poder submeter todo mundo — tanto no exterior , com a invasão do norte da França, como no interior, dominando não somente a casta militar e a burguesia, mas também os representantes oficiais da classe trabalhadora —, em meio a estes dias sombrios e trágicos um só voz se levantou na Alemanha para protestar e maldizer: a de Karl Liebknecht. E sua voz ressoou em todo o mundo (...)

Trotsky: O inflexível Karl Liebknecht (1919)

Há poucos dias, em 15 de janeiro, completou-se 99 anos do brutal assassinato de Rosa Luxemburg e Karl Liebknetch, dois marxistas revolucionários de destaque no movimento operário internacional.

O revolucionário alemão Karl Liebknecht era filho de Wilheim Liebknetch, um dos fundadores do Partido Operário Socialdemocrata Alemão (SPD - Sozialdemokratische Partei Deutschlands), este último interlocutor de Karl Marx e Friedrich Engels.

Em 1907, Karl Liebknecht já havia sido preso por seus escritos contra o militarismo e em 1912 é eleito deputado no Reichstag, o Parlamento Alemão.

Levando a frente uma política parlamentária revolucionária, diferentemente do resto dos deputados da socialdemocracia alemã, ele não só é recordado por ser o único deputado a votar contra os créditos de guerra na segunda sessão no dia 02 de dezembro de 1914, contrariando a decisão do SPD, o que foi o fato político importantíssimo, mas também por sua fundamentação denunciando os reais objetivos da guerra, uma guerra imperialista de partilha do mundo entre as grandes potências e que não correspondia a nenhum interesse de nenhum dos povos, bem como objetivava destruir o movimento operário em ascensão. Ele não só se opôs a guerra no Parlamento burguês senão que também denunciou, de forma extraparlamentar, o caráter desta, chamou constantemente a mobilização dos trabalhadores de forma independente contra a guerra, mantendo uma posição internacionalista proletária, socialista internacionalista, frente a maré chauvinista num país imperialista.

Karl Liebknecht é uma grande referência quando falamos de Parlamentarismo Revolucionário, que é a participação dos revolucionários no parlamento burguês, ou seja, a participação de partidos políticos revolucionários no Parlamento de uma forma específica em termos táticos, não estratégicos, no marco institucional.

As primeiras experiências de Parlamentarismo Revolucionário nos remetem a Rússia posterior a 1905, centralmente na experiência dos bolcheviques na segunda Duma em 1907. A Duma era a denominação do parlamento Russo antes da revolução de outubro de 1917. O czar após a revolução de 1905 objetivando pacificar o movimento grevista convocou a primeira Duma em 1906, que foi dissolvida em 1907 e convocada ainda no mesmo ano a segunda Duma. Mas um caso emblemático de parlamentarismo revolucionário, justamente aconteceu na Alemanha, e o protagonista foi Karl Liebknecht.

Há ao menos cinco escritos de Karl Liebknecht importantes sobre o tema, que permitem entender o contexto político também do revolucionário alemão, um primeiro que é o Fundamento do voto contra a aprovação dos créditos de guerra na sessão parlamentar do dia 02 de dezembro de 1914 na Alemanha; um segundo intitulado O inimigo principal está no próprio país; um terceiro que é uma Carta a Redação do “Labour Leader” da Inglaterra, assinada em Berlim em dezembro de 1914, o quarto é outro artigo O inimigo principal está em nosso próprio país.

Em 01 de maio de 1915 é preso numa manifestação em Berlim na Praça Potsdamer acusado de traição à pátria por sua atividade pública contra a guerra, e em setembro de 1915, ainda preso, e em quinto lugar redige uma Carta a Conferencia de Zimmerwald, que reuniu os socialistas europeus contra guerra, sendo libertado apenas em 01 novembro de 1918.

Também tem um livro intitulado Acerca da justiça de classe, mas não nos referiremos a ele nesta matéria. Por sua vez John Reed agrupa textos do revolucionário alemão num livro intitulado Contra a guerra Karl Liebknecht.

Na Declaração no Reichstag, realizada em Berlim em 02 de dezembro de 1914, Liebknecht define o caráter da guerra como imperialista, pela dominação capitalista do mercado mundial e pela dominação política de importantes regiões do planeta para a instalação de capital industrial e bancário. Simultaneamente define em termos políticos como um empreendimento de caráter bonapartista buscando desmoralizar e destruir o crescente movimento operário.

Da mesma forma que os alemães utilizam como palavra de ordem “Contra o czarismo” a palavra de ordem inglesa e francesa foi: “Contra o militarismo”, com objetivo de mobilizar as massas em nome de certos “objetivos nobres” mas se utilizando da "intenção hostil" entre os povos, estimulada pelas burguesias nacionais, para o objetivo de saquear e colonizar os territórios em disputa, assim como derrotar os movimentos operários de cada país. Assim como Marx e Engels no Manifesto do Partido Comunista afirmam que a emancipação do proletariado será obra do próprio proletariado, para o revolucionário alemão a libertação do povo russo e do povo alemão também será produto do próprio povo. Neste sentido defende uma paz baseada nos interesses da classe operária internacional contra os interesses das burguesias dos países em guerra.

Conclui que vota contra a guerra e seus responsáveis os dirigentes, os governos e as políticas capitalistas.

A Carta a Redação do “Labour Leader” da Inglaterra é relevante porque é uma oportunidade política desde Alemanha de se dirigir aos trabalhadores ingleses, já que este jornal realizava uma campanha contra a guerra nesse país. Afirma que o inimigo principal do proletariado internacional está no próprio país e é a ele que se deve combater e afirma seu internacionalismo apresentando que a luta de classes do proletariado não pode se dar senão em numa base internacional. A guerra mundial que destruiu a velha internacional, se referindo a II Internacional, é o melhor argumento em favor de uma nova internacional, revolucionária. Para Liebknecht a tarefa de cada militante socialista devia ser enquanto combatente de classe, um anunciador da fraternidade internacional, entendendo que será o proletariado de todos os países em guerra os que, por uma ação internacional, conseguirão paz na perspectiva do socialismo, anticapitalista. Finaliza exclamando: Proletários de todos os países uni-vos !!! e Guerra à Guerra !!!.

Será muito importante, para o desenvolvimento mais profundo dessas posições, as reflexões dos dirigentes bolcheviques russos, Lenin e Trotsky, para estabelecer que a guerra imperialista pode ser derrotada unicamente pela revolução proletária- e neste caso, a que poderia garantir a paz: nas famosas teses de Lênin, "a transformação da guerra imperialista em guerra civil contra as burguesias de cada país".

Nesta carta já antecipa alguns dos argumentos do O inimigo principal está em nosso país, para enfatizar a importância da independência política do proletariado, sua luta é para que o proletariado não seja eliminado como fator autônomo, destacando a importância do socialismo internacional. Sendo que as classes dominantes e sua ideologia dominante joga com a ideia de que as massas esquecem logo, neste sentido Liebknecht levanta a consigna: Nada a esquecer, tudo a apreender, luta de classe proletária contra a matança imperialista internacional, como orientação política nessa conjuntura.

Conclui que o inimigo principal do proletariado alemão está no próprio país, é o imperialismo alemão, o partido alemão da guerra, a diplomacia secreta alemã e exorta ao fim do genocídio.

Na Carta a Conferencia de Zimmerwald centralmente chama a combater os discursos de unidade nacional a partir da divisão em classes da sociedade, a ideia de unidade nacional tem como objetivo ocultar a existência de classes sociais com interesses antagônicos em cada país, em cada formação econômico-social, por isso a importância de defender uma posição socialista internacionalista.

Em 1915, junto com Rosa Luxemburgo, funda a Liga Spartaquista, base do que será o Partido Comunista da Alemanha, fundado em 1918. Durante 1918-1919 se abre um processo revolucionário na Alemanha no marco do final da primeira Guerra Mundial. Em 9 de novembro o social-democrata Fredrich Ebert assume o governo com a abdicação do Kaiser Guilherme II e a decretação da República. No dia 15 de janeiro de 1919, os freikorps, grupos paramilitares de luta anticomunista alemã, assassinam a Rosa Luxemburg e Karl Liebknecht, durante o governo de Ebert e sob responsabilidade de Gustav Noske, socialdemocrata que era Ministro do Interior do governo. Trotsky redige um belo texto sobre Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht intitulado O inflexível Karl Liebknecht.

Os principais legados de Karl Liebknecht é seu internacionalismo, sua visão estratégica e o exemplo concreto do uso da tática ParlamentarRevolucionária, subordinada a estratégia, a luta pelo poder político do Estado para destruir o Estado burguês, tática que hoje encontramos na experiência do Partido de los Trabajadores Socialistas (PTS) integrante da Frente de Izquierda y de los Trabajadores (FIT) na Argentina, exemplo concreto do que significa revolucionário em ação na prática política, e disto a esquerda deve tirar lições no Brasil.




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