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Karl Liebknecht: 148 anos do nascimento do inflexível revolucionário alemão

Shimenny Wanderley

Karl Liebknecht: 148 anos do nascimento do inflexível revolucionário alemão

Shimenny Wanderley

Karl Liebknecht encarnava o revolucionário inquebrável e genuíno. Em torno dele foram tecidas inúmeras lendas: agressivas na imprensa burguesa, heroicas nos lábios dos trabalhadores (...) Era capaz de lutar até a morte pelos princípios que professava. E o demonstrou levantando críticas contra os representantes da burguesia e os traidores socialdemocratas do Reichstag alemã (...) O demonstrou levantando em Berlin, na praça de Potsdam, o estandarte da rebelião contra os Hohenzollern e o militarismo burguês. Foi preso. Mas nem a prisão nem os trabalhos forçados conseguiram quebrar sua disposição e, liberado pela revolução de novembro, se pôs a frente dos elementos mais decididos da classe trabalhadora alemã. (León TROTSKY)

No dia 13 de agosto completaram-se 148 anos do nascimento do revolucionário alemão Karl Liebknecht. Camarada infatigável de luta de Rosa Luxemburg, deu mostras de coragem se opondo à guerra imperialista na própria Alemanha contra a maré chovisnista e a traição da socialdemocracia, realizando uma tática parlamentar revolucionária no marco de uma estratégia revolucionária, da qual podemos extrair valiosas lições políticas.

Nascido na cidade de Leipzig, nesse momento Reino da Saxônia, filho de Wilheim Liebknecht, um dos fundadores do Partido Socialdemocrata da Alemanha (Sozialdemokratische Partei Deutschlands - SPD), este último interlocutor de Karl Marx e Friedrich Engels.

Liebknecht militou na juventude do partido e em 1907 escreve ‘Militarismo e antimilitarismo’, famoso livro de denúncia do imperialismo e militarismo alemão, razão pela qual foi preso um ano e meio, sendo eleito deputado no Parlamento regional da Prússia em 1908, e em 1912 para o Reichstag, o Parlamento Alemão.

Mesmo sendo parlamentar, Liebknecht é mobilizado para a guerra no dia 07 de fevereiro de 1915, na qual foi obrigado a cavar trincheiras e tinha permissão só para participar das sessões no Reichstag, momentos nos quais Rosa Luxemburg é encarcerada por continuar com sua propaganda antimilitarista.

Em 02 de dezembro de 1914, Liebknecht aparece como um ponto de inflexão na história política do socialismo mundial, exercendo um mandato de deputado socialista, através do qual defende uma posição internacionalista, votando contra os novos créditos de guerra de que a classe dominante alemã precisava para a I Guerra Mundial.

Sobre esta posição política encontramos os seguintes escritos de Liebknecht que consideramos relevantes: ‘O Fundamento do voto contra a aprovação dos créditos de guerra’, apresentado na sessão parlamentar do dia 02 de dezembro de 1914 na Alemanha; ‘O inimigo principal está no próprio país’ e duas cartas: uma dirigida a redação do Labour Leader da Inglaterra e outra dirigida desde a prisão à Conferência de Zimmerwald.

No fundamento de seu voto, o socialista internacionalista, caracteriza de forma adequada a Primeira Guerra Mundial como interimperialista, pela dominação capitalista do mercado mundial e pela dominação política de importantes regiões para instalar capital industrial e bancário. Também entende a carnificina como um empreendimento bonapartista, buscando desmoralizar e destruir a ascensão do movimento operário internacional. Vota contra a guerra e explica sua posição política, acatando as deliberações do VIII Congresso da Internacional Socialista (II Internacional) realizado em 1910 na cidade de Copenhagen, na Dinamarca, o qual estabeleceu que caso fossem pautados nos Parlamentos os créditos de guerra, os deputados socialistas deveriam votar contra estes. Contraria, baseando-se nos Congressos da II Internacional, a deliberação do seu partido, o Partido Social Democrata da Alemanha (SPD) dirigido pelos os socialistas majoritários, belicistas.
Esta posição política de Liebknecht tem três importantes antecedentes: o primeiro, no II Congresso da Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT), conhecida também como I Internacional, realizado na Suíça, em 1867; o segundo, o exemplo dos socialistas alemães de Eisenach, partidários de Marx, que se abstêm de votar os créditos para guerra franco-prusiana; e, o terceiro, os socialistas alemães que se declaram partidários de uma paz justa com a França e contra a anexação de Alsacia-Lorena, em solidariedade com os trabalhadores franceses.

Karl Liebknecht não apenas se opôs à guerra no Parlamento burguês, num ato de coragem reconhecido até por liberais como Sebastián Haffner, autor do livro ‘A Revolução alemã (1918-1919)’, como também denunciou, de forma extraparlamentar, o caráter desta guerra, chamando constantemente à mobilização antibelicista os trabalhadores de forma independente, mantendo uma posição internacionalista proletária, socialista internacionalista, frente à maré chauvinista hegemônica na Alemanha.

Em maio de 1915, Liebknecht publica ‘O inimigo principal está no próprio país’ e continua aprofundando argumentos contra a guerra interimperialista. Enquanto as classes dominantes partiam do suposto de que o povo esquece rápido, especulando com a paciência das massas, o revolucionário alemão levanta como palavras de ordem: “Tudo a aprender! Nada a esquecer!”.

Além disso, destaca a luta heroica dos socialistas internacionalista italianos e a importância de ter como orientação política geral a luta da classe proletária contra a matança imperialista internacional, reafirmando que o inimigo principal de cada povo estaria no próprio país, e exorta ao fim do genocídio, apelando à unidade do proletariado numa luta de classes internacional, contra a diplomacia secreta e por uma paz socialista.

Destacamos também a importância das ‘Cartas’, uma dirigida à redação do Labour Leader, da Inglaterra, em dezembro de 1914, na qual dirige suas palavras de fraternidade internacionalista aos trabalhadores socialistas ingleses por parte dos socialistas alemães, em momentos em que as classes dominantes desses países estavam em guerra.

Depois da confusão causada pelo abandono dos princípios socialistas por parte da maioria dos partidos da II Internacional, esta iniciativa política tem ainda mais relevância e já aponta para a necessidade de construção de uma nova Internacional. Liebknecht entendia que cada socialista internacionalista deve ser um anunciador da fraternidade internacional, um lutador antibelicista. Tanto os trabalhadores socialistas internacionalistas ingleses como os russos e os sérvios são tomados como exemplos de luta contra a guerra e pela paz.

Liebknecht antecipa a tese de que cada Partido Socialista tem o inimigo no seu próprio país e é a ele que se deve combater. Defendeu que, frente a todos os discursos demagógicos da burguesia, a libertação de cada povo seria obra dele próprio. Na sua perspectiva não tinha dúvidas que a prosperidade dos povos estaria indissociavelmente ligada à luta do proletariado, e de que esta não poderia se dar senão numa base internacional. Conclui a carta aos ingleses citando o Manifesto do Partido Comunista: ‘Proletários de todos os países uni-vos!’, acrescentando ‘Guerra à Guerra !!!’

Outra carta relevante é a enviada à Conferência de Zimmerwald, escrita na prisão, em Berlim, também em 1915. Na perspectiva de Liebknecht, a Conferência de Zimmerwald teria duas tarefas centrais: a primeira, fazer um acerto de contas com os desertores da Internacional; a segunda, o apoio político àqueles que estavam resolutos em não recuar um só passo diante do imperialismo internacional. Para o missivista, devia-se ter clareza da posição dos socialistas internacionalistas com relação à guerra mundial e tirar as conclusões táticas de princípios sem relativizar por países, impulsionando-se a luta de classes internacional pela paz e a revolução socialista contra a unidade no nível apenas nacional e a ‘harmonia’ que as burguesias queriam impor. Para Liebknecht, o parlamentar revolucionário deveria também ter a perspectiva da necessidade de construção de uma nova Internacional sobre bases mais sólidas, sobre as ruínas da antiga.

John Reed fez um excelente trabalho de reunião de textos do revolucionário alemão, num livro intitulado ‘Contra a guerra: Karl Liebknecht’. No artigo ‘Declaração no Reichstag’, publicado em 02 de dezembro de 1914, conta a trajetória de Liebknecht, com foco no dia 02 de dezembro de 1914, na segunda sessão pela aprovação de créditos de guerra, na qual ele foi, como mencionamos, o único deputado que votou contra a concessão de novos créditos de guerra, inclusive contra as orientações do próprio partido, fato que dividiu a social democracia entre os reformistas dirigidos por Karl Kautsky e os revolucionários dirigidos por Liebknecht e Rosa Luxemburg, que mais tarde formaram a Liga Spartaquista, base do futuro Partido Comunista da Alemanha (KPD).

Como indicador do contexto político em que ocorreu a votação supracitada, podemos mencionar que em 20 de agosto de 1915, 29 deputados socialdemocratas abandonam a sala no momento de votar os novos créditos de guerra. Em 21 de dezembro desse ano já são dezenove os deputados que votam contra os créditos militares.

Liebknecht será expulso do grupo social-democrata em 12 de janeiro de 1916. Posteriormente é expulso um grupo heterogêneo de outros dezoito deputados.
No dia 01 de maio de 1916, Liebknecht é preso depois de uma manifestação contra a guerra em Berlin, sendo no dia 28 de junho condenado a 30 meses de prisão.

Frente à acusação de traição à pátria, expressa Ernst Nolte, um historiador abertamente de direita, que entende que o nazismo foi uma atitude defensiva frente ao risco da revolução russa, colocando nesta a responsabilidade pelo nazismo, Liebknecht afirmaria que a traição à pátria é um conceito que não tem sentido algum para um socialista internacionalista, posto que derrubar as fronteiras nacionais no marco de uma interação internacional com os socialistas de todos os países é o esforço central de um revolucionário internacionalista.

Em 27 de janeiro de 1916, aparece a primeira Carta assinada por Spartacus – grupo liderado por Rosa Luxemburg, Karl Liebknecht, Clara Zetkin e Franz Mehring. Durante os dias 06 a 09 de abril de 1917 funda-se o Partido Socialdemocrata Independente (USPD), na cidade de Gotha, e os socialistas internacionalistas formam uma frente com estes setores ecléticos e centristas em nome da unidade.

Isto terá consequências no marco da Revolução Alemã, que este ano faz 100 anos, posto que retardou a construção de uma organização política revolucionária autônoma e a revolução explode poucos dias depois da criação do Partido Comunista da Alemanha (KPD). Antes, em 07 de outubro de 1918 realiza-se a Conferência Nacional da Liga Spartaquista (LS).

Durante 1918-1919 abre-se um processo revolucionário na Alemanha, no período do final da primeira Guerra Mundial. Em 09 de novembro o socialdemocrata Fredrich Ebert assume o governo, com a abdicação do Kaiser Guilherme II e a decretação da República.

Entre os dias 29 de dezembro de 1918 e 01 de janeiro de 1919, realiza-se o Congresso que funda o Partido Comunista da Alemanha (KPD).

No dia 06 de janeiro produzem-se os primeiros combates em Berlin, e em 10 de janeiro proclama-se uma República de Conselhos Operários em Bremen, que se mantém durante 26 dias, até o dia 04 de fevereiro de 1919. Na noite do dia 09 para 10 de janeiro do mesmo ano, a redação do jornal Rote Fahne (Bandeira Vermelha), que fora criado por Rosa Luxemburg e Karl Liebnektch, sendo seus editoriais escritos por eles mesmos, é invadida por soldados, com o objetivo preciso de assassinar Liebknecht.

No dia 11 de janeiro de 1919 o socialdemocrata Gustav Noske entra em Berlim, dirigindo os, grupos paramilitares de extrema direita, uma organização de luta anticomunista alemã. Ernest Meyer e George Ladebour, destacados dirigentes comunistas, são presos.

No marco da Revolução Alemã, em 15 de janeiro de 1919, os Freikorps, assassinam Karl Liebknecht e Rosa Luxemburg, durante o governo de Ebert e a mando de Gustav Noske, socialdemocrata que era Ministro do Interior do governo.
Importante destacar que também existiu por um curto espaço de tempo, uma república de conselhos em Munique, após os assassinatos de Karl Liebknecht e Rosa Luxemburg, na qual Eugene Levine teve um destacado papel. Sobre a Comuna de Bremen recomendamos a leitura do artigo de Gonzalo Adrián Rojas.

Segundo Sebatian Haffner, um historiador liberal da Revolução Alemã, o liberal, estes assassinatos já estavam sendo planejados, no mínimo desde dezembro de 1918, pois havia em toda Berlim cartazes com o seguinte conteúdo:

Trabalhadores, burgueses, a pátria está diante da ruína. Salvem-na! Ela recebe ameaças de dentro e de fora: da Liga Spartaquista. Matem seus líderes! Matem Liebknecht! Então terão paz, trabalho e pão! (Os soldados do front).

Gustav Noske, socialdemocrata, Comandante Chefe sob o governo socialdemocrata de Friedrich Ebert, foi quem pessoalmente deu a ordem a Friedrich Wilhelm von Oertzen, de realizar escutas telefônicas constantes de Karl Liebknecht nos dias prévios ao assassinato e informar todos os movimentos dos revolucionários, hora por hora ao capitão Pabst, o chefe do comando assassino.

Detidos no dia 15 de janeiro pelo Freikorps, como mencionamos, numa ação planejada e organizada desde no mínimo dezembro de 1918, foram assassinados Rosa Luxemburg e Karl Liebknecht. Os dois revolucionários foram levados ao Hotel Eden, centro de operações da contrarrevolução, e, de lá, trasladados para serem golpeados e executados. A versão oficial descreveu uma tentativa de fuga de Karl Liebknecht. Seu cadáver foi entregue como ‘desconhecido’. Rosa Luxemburg foi arrastada de seus escoltas por uma multidão e se desconhecia onde estava quando foi jogada da ponte de Linchtetstein no canal Landweth.

No mesmo dia 15 de janeiro publicam suas últimas matérias no jornal: de Luxemburg, ‘A ordem reina em Berlim’; de Liebknecht, ‘Apesar de tudo”, na qual o revolucionário alemão escreve:

Os derrotados de hoje serão os vencedores de amanhã (...) e se nós ainda vivermos, chegado o momento, viveremos o nosso programa: a humanidade redimida vai governar o mundo.

Sobre Karl Liebktnech também recomendamos a leitura do artigo publicado no site.
Em homenagem aos dois revolucionários, Trotsky redige, em 16 de janeiro de 1919, um belo texto intitulado ‘O inflexível Karl Liebknecht’, no qual descreve o socialista internacionalista alemão da seguinte forma:

Karl Liebknecht encarnava o revolucionário inquebrável e genuíno. Em torno dele foram tecidas inúmeras lendas: agressivas na imprensa burguesa, heroicas nos lábios dos trabalhadores. Em sua vida privada, Karl Liebknecht era — ai!, podemos somente falar dele no passado — a encarnação da bondade, da sensibilidade e amizade. Poderia dizer-se que seu caráter era de uma doçura quase feminina, no melhor sentido do termo, e que sua vontade revolucionária, de um temperamento excepcional, era capaz de lutar até a morte pelos princípios que professava. E o demonstrou levantando críticas contra os representantes da burguesia e os traidores socialdemocratas do Reichstag alemão, cuja atmosfera saturada pelos mesmos miasmas do chauvinismo e o militarismo triunfante. O demonstrou levantando em Berlin, na praça de Potsdam, o estandarte da rebelião contra os Hohenzollern e o militarismo burguês. Foi preso. Mas nem a prisão nem os trabalhos forçados conseguiram quebrar sua disposição e, liberado pela revolução de novembro, se pôs a frente dos elementos mais decididos da classe trabalhadora alemã.

Do ponto de vista político Karl Liebknecht é uma grande referência do marxismo revolucionário, do socialismo internacionalista, bem como do Parlamentarismo Revolucionário, que é a participação dos revolucionários no parlamento burguês, ou seja, a participação de partidos políticos revolucionários no Parlamento de uma forma específica em termos táticos, não estratégicos, no marco institucional, tendo como característica fundamental a manutenção da independência política em relação aos patrões, aos oficialismos governamentais e ao Estado. A participação dos socialistas revolucionários no parlamento se constrói numa perspectiva que articula a luta no Parlamento com os conflitos sociais em curso no país, se apresentando como tribunos do povo, em termos leninistas.

Nessa direção se organizam os legisladores do Partido de Trabajadores Socialistas (PTS), integrantes da Frente de Izquierda y de los Trabajadores – Unidad (FIT-U) da Argentina, organização irmã do Movimento Revolucionário dos Trabalhadores (MRT), no Brasil, como Nicolás del Caño ou Myriam Bregman, entre outros, estratégia da qual a esquerda brasileira deveria também tirar lições. Sobre a tática do parlamentarismo revolucionário recomendamos este artigo.

Trostky, num artigo intitulado ‘Rosa Luxemburg e a IV Internacional’, escrito em 24 de junho de 1935, conclui:

Se se deixar de lado o que é acessório (...) então nós temos plenamente o direito de colocar o nosso trabalho para IV Internacional sob o signo dos três ‘L’, isto é não somente o de Lenin, mas também o de Luxemburg e Liebknecht.

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