Educação

FUVEST 2017

Kant, a redação da FUVEST e o elitismo do vestibular

O tema da redação da FUVEST mais uma vez causou rebuliço nas redes sociais. Dessa vez cobrando que os candidatos falassem sobre um conceito de Kant, a redação reacendeu uma discussão sobre o elitismo da prova. Mas é preciso avançar: pra que serve o vestibular?

Flávia Toledo

São Paulo

segunda-feira 9 de janeiro| Edição do dia

Todos os anos, o tema da redação da FUVEST gera diversas discussões a respeito da prova, que parece aumentar de dificuldade a cada edição. Dessa vez, os estudantes tinham que elaborar um texto argumentativo respondendo se o homem atual saiu da menoridade e alcançou a maioridade a partir de um conceito do filósofo Immanuel Kant.

Muitos ficaram indignados com a proposta de tema. Sabendo da precarização do ensino público, muito se comentou sobre o fato de esse tema dificultar ainda mais o acesso ao ensino superior para aqueles que provavelmente nunca estudaram o autor em sala de aula. Houve também elogios ao tema, entendendo que a discussão seria propícia para o momento em que vivemos e que seria possível realizar a proposta sem conhecimento prévio do assunto. O debate, no entanto, precisa ser mais profundo do que apenas uma discussão sobre o tema da redação.

A redação é parte obrigatória para todos os candidatos da FUVEST. Para desenvolver o texto, os estudantes recebem uma coletânea que apresenta o tema – nada é cobrado de conteúdo além do que foi efetivamente apresentado pela comissão que prepara ao prova. Pensando unicamente por esse viés, não seria um problema desconhecer por completo o autor para realizar o texto, uma vez que não entra nos critérios de avaliação qualquer conhecimento prévio do assunto. Qual é, então, o grande problema desse tema?

Para a burocracia universitária, o vestibular tem de ser mais difícil

Em 2016, em meio à greve na USP que tinha como uma das pautas centrais a implementação de cotas étnico-raciais, ocorreu uma reunião do COG (Conselho de Graduação) em que o grande debate era a FUVEST – ignorando completamente essa pauta. A posição da burocracia era de que havia a necessidade de se aumentar a dificuldade das provas de Português e Matemática, consideradas “fáceis” para os gestores da universidade, encastelados há anos nos altos postos da USP e que devem ter inúmeros exemplares de colecionador da obra de Kant em suas bibliotecas particulares, montadas graças aos seus supersalários (enquanto os estudantes da universidade muitas vezes, por conta da falta de auxílio à permanência, têm de vender seus livros).

Nesse mesmo ano, o projeto de reforma do Ensino Médio indignou estudantes e professores pela proposta de cortar o ensino de Filosofia e Sociologia nas escolas. Apesar de soar contraditório com a redação da FUVEST, essa proposta vai de acordo com o que pensa o atual reitor da USP, Marco Antônio Zago, que considera a FFLCH (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas) um enorme dispêndio de verba inútil, já que a maior faculdade da USP pesquisa sobre temas pouco lucrativos e interessantes aos olhos do mercado. Para eles, Filosofia serve apenas para enfeitar luxuosas bibliotecas empoeiradas e dificultar o acesso à universidade.

O que é avaliado na redação?

A redação dos vestibulares serve para avaliar a fluência na língua escrita e o domínio da variante padrão, além de interpretação textual. Ou seja, ela testa se o candidato tem instrumental suficiente para elaborar textos de gêneros específicos na tal da “língua culta”, sem fugir do tema proposto. No caso, deveria realizar um texto argumentativo (portanto, defender uma posição apresentando argumentos que a embasem de maneira convincente, num texto em prosa) seguindo a gramática normativa, de maneira clara e organizada, dentro dos critérios de tamanho exigidos.

Escrever não é uma tarefa simples. Não é intuitivo, não é fácil, não é algo que se aprende sozinho. Falo isso enquanto estudante de Letras, com experiência enquanto professora e sendo, pessoalmente, fluente em língua escrita e na variante padrão. Neste ponto do texto, já reli os parágrafos anteriores duas vezes e reescrevi parte dele para que se tornasse mais compreensível. Também consultei uma fonte para conferir se a grafia do nome do autor estava correta. E já sei a que conclusão eu quero apresentar ao final do texto, conclusão a que cheguei mais de uma hora atrás, enquanto lia os muitos comentários sobre o assunto.

O processo de escrita de um texto prevê alguns mecanismos específicos que só são aprendidos na escola, tal qual a norma padrão. Primeiro, a organização de ideias. O que eu quero dizer? Qual conclusão quero apresentar? O que fundamenta essa minha ideia? Alguns fazem isso mentalmente, principalmente quem tem prática de escrita. Outros, fazem esquemas no papel, consultando ao longo da redação de seu texto.

Depois, o processo de redação propriamente dito. Escolhas sintáticas, a opção consciente de períodos mais longos ou mais curtos a depender do efeito desejado no leitor, inversão ou não de orações, enfim, escolhas de forma de elaboração do texto. Cada gênero literário tem algumas “regras” a serem seguidas, e dentro dessas regras há certa maleabilidade.

Por exemplo, eu estou escrevendo um texto argumentativo, então fiz uma introdução apresentando o debate que quero realizar, agora estou desenvolvendo meus argumentos e logo abaixo virá minha conclusão. Pela experiência e pelo conhecimento que eu tenho, e também por estar escrevendo para um portal de notícias, eu optei por realizar uma espécie de diálogo com você, leitor, e usando minha experiência pessoal para fundamentar as minhas opiniões, realizando um processo de metalinguagem (escrevo agora sobre como escrever um texto). Qualquer professor de redação de cursinho diria que essa opção é absurda, e talvez minha redação perdesse pontos no vestibular.

Por fim, existe um mecanismo que, infelizmente, pouco se discute em sala de aula: a leitura e reescrita do texto. Depois de escrever, é preciso reler o que se escreveu e fazer uma revisão – ortográfica, de pontuação e sintática. Muitos textos melhorariam sensivelmente se antes de serem finalizados fossem lidos por aquele que escreveu. Se o autor relê sua escrita, pode perceber se está claro, compreensível. E melhorar seu texto. O bom escritor é, antes de tudo, um bom leitor.

Mas o processo correto de escrita de um texto leva tempo. E tempo é dinheiro no capitalismo. A lógica produtivista não comporta essa dedicação, e é a partir dessa lógica que a escola ensina, hoje. Quantidade antes de qualidade. As escolas particulares fazem propaganda de si mesmas dizendo que seus alunos produzem duas redações por semana! E daí? Seria melhor que produzissem um único bom texto ao longo do ano, que produzissem o quanto conseguissem mas com qualidade, podendo reler, reescrever, se aprofundar na discussão, pesquisar, buscar fontes. Seria melhor que houvesse menos canetadas vermelhas nos textos dos alunos e mais dicionários disponíveis em sala para que pudessem consultar a grafia “correta” das palavras.

Daí a minha certeza de que a redação da FUVEST não seleciona em nada. Que bom texto pode sair de um estudante submetido a 5h de prova, dezenas de questões, num calor infernal como faz nessa época do ano no Brasil, sob a tensão de quem sabe que é agora ou nunca porque aquela prova que ele está fazendo existe unicamente para deixar a maioria dos estudantes fora da universidade?

Quem pode ir bem em uma prova como essa são, majoritariamente, os estudantes que foram treinados para realizar provas sob pressão, adestrados pelos cursinhos particulares que ganham rios de dinheiro enquanto fingem cobrir as deficiências da escola e fortalecem um filtro social que não seleciona, apenas exclui.

A FUVEST serve pra quê?

Foram poucos os estudantes que nesse domingo realizaram a prova da FUVEST que já tinham estudado Kant, talvez mesmo entre os oriundos de escola particular. E como coloquei acima, não era necessário conhecimento prévio. Mas, sim, a escolha do tema é mais um obstáculo para o ingresso do estudante de escola pública na USP e é um tema elitista.

É elitista porque quem idealizou a prova sabe muito bem o que é e o que não é ensinado no ensino básico e sabe tudo o que eu coloquei sobre como se escreve um bom texto. Quem pensou a redação sabe que escreve melhor quem lê bastante. E sabendo disso, tem consciência da diferença entre um estudante que cresceu em uma casa abarrotada de livros, cuja família paga para receber jornal em casa, que pôde ter professor particular quando necessário e que teve todos os livros didáticos de que precisava ao longo da sua vida escolar, e um estudante que não teve acesso a nada disso, que estudou em uma escola onde a biblioteca ficava fechada, que tem acesso restrito aos portais de notícia burgueses por não ser assinante e cujos professores de língua portuguesa tinham uma carga tão grande de aulas pra dar pra que o seu salário desse conta da sua sobrevivência que não podiam dar um atendimento cuidadoso e pessoal a cada um dos 50 estudantes da sala. É totalmente diferente a reação de cada um desses estudantes frente a uma redação de vestibular, e principalmente tendo de escrever sobre um assunto que desconhece, que foi apresentado a ele cinco minutos antes de ele ter de começar a escrever em uma linguagem que ele não domina, porque Kant é complexo até pro estudante de Filosofia da USP.

Pouco importa se o tema é propício ou não para o momento histórico. Pouco importa se a prova deu informações suficientes ou não para o candidato elaborar o texto. O fundamental dessa discussão é que o vestibular como um todo serve para uma única coisa: manter a maioria da população fora da universidade. E tal qual desejam os burocratas da USP, a cada ano a dificuldade aumenta para que apenas a elite possa entrar, para que fiquem de fora, não apenas a maioria, mas todos os estudantes pobres que ainda têm a “pachorra” de desejar fazer uma universidade.

Mais uma vez o tema da redação da FUVEST gerou debate. E mais uma vez ele é só a ponta do iceberg. O problema é a existência do vestibular. Sua função é deixar os filhos da classe trabalhadora pra fora da universidade pública, principalmente os negros, e para aqueles que insistirem em fazer um curso superior, que paguem para os grandes aglomerados educacionais privados e enriqueçam os grandes tubarões do ensino.

Nós, da Faísca – Juventude Anticapitalista e Revolucionária, defendemos cotas étnico-raciais já nas universidades, proporcionais ao número de negros e indígenas no estado. Mas sabemos que devemos ir por muito mais. Pelo fim do vestibular, que é um filtro social, e estatização de toda a rede privada de ensino para que haja vagas no ensino superior para todos que desejarem estudar.




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