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“Kalil e Zema deviam afastar quem é do grupo de risco” - diz trabalhadora da saúde

“Por que os técnicos em enfermagem estão morrendo?” - uma técnica em enfermagem de Belo Horizonte que trabalha em dois hospitais, um municipal e um estadual, relatou para o Esquerda Diário a situação dos trabalhadores da saúde de MG. Publicamos sua denúncia anonimamente.

quarta-feira 19 de agosto| Edição do dia

Como publicamos recentemente, foram três trabalhadores da saúde mortos em Belo Horizonte na semana passada. “Ontem eu vi que a Xuxa morreu. Uma funcionária lá do João XXIII, eu já trabalhei com ela. Eu não sei se ela era efetiva, mas ela era obesa e eles não afastaram.” – disse a técnica em enfermagem, confirmando mais uma morte em BH. Isso é diretamente responsabilidade do presidente e do governador, mas também do prefeito. Nenhum deles garantiu testes massivos, EPIs, licenças para os trabalhadores do grupo de risco sem nenhum desconto no salário.

“O que acontece é que todos os trabalhadores da saúde que tem problemas de saúde, como diabetes, hipertensão, ninguém se preocupa de nos afastar do serviço. A prefeitura e o estado poderiam no mínimo alterar os que estão em grupo de risco para outro setor. Uma trabalhadora da saúde que morreu tinha diabetes, hipertensão e era cardiopata e não foi afastada.”

Esse drama é vivido sobretudo pelos trabalhadores que não são efetivos: “Nós que temos doenças de base, seguimos trabalhando por que temos medo de perder o trabalho, pelo fato de sermos contratadas, as efetivas foram afastadas. Para a nossa categoria eles não estão nem aí. Trabalhamos sob pressão, quem tem doença, eles deveriam afastar, mas pensam assim: ‘se essas pessoas morrerem, vai ficar por isso mesmo, é só mais um número’. Mesmo que a gente é contratado, que mande a gente embora, mas não, estão nos mantendo expostos ao vírus, sem se preocupar se temos ou não problemas de saúde.“

Esse relato mostra como as alegações da Secretaria Municipal de Saúde não correspondem com o que vivem os trabalhadores da saúde. A técnica diz: “Se eu morrer de Covid minha filha vai falar ‘a minha mãe trabalhou na linha de frente, era grupo de risco, mas precisava pagar as contas, e não teve medicina do trabalho nem segurança do trabalho pra falar que tinha que afastar, independente de ser contrato e não efetiva’. Como eu vou pagar meu aluguel? Como eu vou comer? Preciso ir trabalhar com medo todo dia vendo meus colegas morrerem toda hora.”.

No mesmo relato, a trabalhadora denuncia que “o governador só afastou os maiores de 60 anos como se não tivesse gente mais nova que tem risco também. Querendo ou não, fechamos um contrato com eles por 3 anos. Atrás de mim tem mais funcionários com essa mesma frustração, trabalhando calados. Não podemos abrir a boca para falar alguma coisa, que somos afastadas. A gente não é nada para eles (os governantes), a não ser números”. Nas mãos de Zema, o Estado de MG foi, no fim de semana, o que registrou mais mortes por Covid em 24h, dentre todos do país.

O país que tem recordes de mortes de trabalhadores da saúde por Covid é profundamente racista, não à toa morrem mais negros. A técnica diz “Eu queria pode chegar no hospital e simplesmente pedir licença, porque eu sou obesa, hipertensa, e além de tudo eu sou preta e eu sei que tem mais preto morrendo...”. Os grandes empresários e seus políticos e juízes usam a opressão racial para separar os trabalhadores, mas também os separam entre formais e informais, efetivos, contratados e terceirizados. Ela segue: “Mas eu sou contrato e não posso correr o risco de ser demitida. Apesar de que eu trabalho como qualquer outro, o mesmo tanto, faço o mesmo serviço, só tem diferença que o efetivo tem férias prêmium e quinquênio, e podem aumentar o salário a cada 5 anos. A gente devia ter os mesmos direitos.”.

Por tudo isso, dizemos junto com essa e tantas outras e outros trabalhadores da saúde: Zema e Kalil, liberem já, sem nenhum desconto no salário, todos os trabalhadores da saúde que são do grupo de risco. Também nos colocamos contra todas as divisões dos trabalhadores, lutando pela efetivação de todos os trabalhadores contratados e terceirizados que já estão em exercício, e sem concurso público, por que todos os dias já provam que sabem fazer seu serviço. Igual trabalho, igual salário, sejam eles homens ou mulheres, negros ou brancos.




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