Juventude

Juventude e Revolução: com o impulso do presente retomar Maio de 68 e a Revolução Russa

domingo 26 de novembro| Edição do dia

Boa tarde a todas, todos e todes! Meu nome é Marie Castaneda e sou militante da Faísca, juventude anticapitalista e revolucionária e do MRT, Movimento Revolucionário de Trabalhadores.

O título desta mesa é juventude e revolução e para hoje pensarmos em qualquer perspectiva de futuro para a juventude é essencial pensarmos no que vivemos nos últimos anos e resgatar o legado do Maio de 68 e da Revolução Russa para almejar a possibilidade de rupturas bruscas desta realidade que vivemos.

Primeiro que a situação da juventude não é em absoluto agradável, a Reforma Trabalhista que entrou em vigor na semana passada prevê que grande parte de nós ou está perdendo direitos recém conhecidos ou nunca terá um emprego com os direitos mínimos que a antiga CLT garantia, as universidades públicas que foram ampliadas sem qualidade durante os governos do PT e já viam seus orçamentos murcharem mesmo antes do golpe, hoje anunciam mês após mês a insuficiência do dinheiro disponível
Quem ingressou ao ensino superior por fora das públicas, obrigado a se endividar para estudar, também durante os governos do PT"
Fomos o que fez o país tremer desde 2013 com a luta contra o aumento das passagens, fomos quem escancarou com dois pés no peito e milhares de pessoas nas ruas o descompasso existente entre o real avanço material da classe trabalhadora e a decadência dos serviços públicos e os mandatos do PT que garantiam acima de tudo os lucros dos bancos e o pagamento da dívida pública.

Trotsky definia a juventude como uma caixa de ressonância das contradições existentes na sociedade. E desde o estouro da queda do Lehman Brothers que fez explodir a crise do capitalismo que está no final do seu décimo ano, cumprimos este papel ao redor de todo o mundo.

Em 2008 mesmo, foi a juventude que colocou de pé o movimento Occupy Wall Street nos EUA, onde se colocavam como parte dos 99% contra os 1% com os quais o governo americano realmente demonstrava preocupação frente à crise. Em 2011, a juventude espanhola ocupou praças com o movimentos dos Indignados e o mundo todo se surpreendeu com a Primavera Árabe, iniciada por um jovem tunisiano que ateou fogo no próprio corpo como forma de protesto frente à impossibilidade de conseguir emprego e ver como seu diploma universitário não valia nada, o que culminou em um profundo processo no mundo árabe que derrubou governos e foi palco de massivas mobilizações e greves operárias nas quais se expressava a aliança entre jovens e trabalhadores, mas infelizmente foram processos derrotados e deram lugar a novas ditaduras, com processos de contrarrevolução como no Egito, ou guerras civis reacionárias como na Síria.
Em 2011 a juventude chilena inaugurou as ocupações de escola na América Latina em defesa da educação pública de verdade, em um país onde não existe nenhuma possibilidade estudar como direito garantido pelo Estado, ou seja, gratuito. Em 2013, a América Latina e em especial o Brasil, foi chacoalhada pela indignação da juventude que já via seu futuro sendo arruinado, também o Peru e o México foram palco de massivas manifestações. Em 2015 e 2016 escolas e universidades foram ocupadas contra a precarização e o golpe institucional.

Nas últimas experiências na Europa inclusive, com a luta contra a reforma trabalhista na França e pela autodeterminação da Catalunha, medidas de solidariedade mais concreta da juventude com a classe trabalhadora adicionaram uma grande dose de subversão a estes movimentos.

Assim, vivemos hoje os efeitos de um dos maiores levantes de juventude ao redor do mundo desde o Maio de 68, e quero aqui retomar alguns elementos do Maio de 68 e de lições da revolução russa para pensarmos como é possível construir uma juventude que esteja realmente interessada em uma ruptura brusa com esta realidade de miséria, exploração e opressão e consequentemente se aliar aos trabalhadores como única classe revolucionária.

O tomar as ruas pela juventude colocou em questionamento tudo. Colocou em questionamento a imensa quantidade de feminicídios ao redor de todo o mundo e a apropriação descarada do capitalismo de absolutamente toda forma de opressão para explorar cada vez mais. A liberdade sexual e de gênero da juventude explodiu e a burguesia hoje se desespera com toda a subversão que esta libertação pode trazer, transformando a própria existência LGBT em mercadoria. Nos EUA, maior imperialismo existente, a juventude negra se fez ouvir tombando camburões e defendendo o direito de respirar a juventude negra

No campo eleitoral, este levante da juventude se expressou em especial nos EUA com Bernie Sanders e no Reino Unido com Corbyn, que se apresentam como alternativas neorreformistas geraram ativismo na juventude e uma politização importante, apesar de serem fenômenos que buscam desviar a raiva social para dentro do regime capitalista e não tiveram um programa de ruptura com o sistema econômico dos grandes monopólios, tão necessário para a juventude que hoje é massacrada por estes.

Mas também com Syriza na Grécia e Podemos na Espanha, que apresentando novos formatos organizacionais, estes cresceram inversamente com a intensidade da luta de classes e hoje são aplicadores de ajustes neoliberais..

Frente à falência estratégica destas alternativas que esvaziam a luta de classes. O que podemos apontar pra necessidade de construção de uma juventude revolucionária e de onde podemos retirar as maiores lições?

Importante retomar antes disso uma pedaço do Programa de Transição, de Leon Trotsky, na qual sintetizada a capacidade da juventude de dar novas forças ao movimento operário:

“Claro, mesmo entre os operários que estiveram antes nas primeiras filas existe atualmente um bom número que está fatigado e decepcionado. Ficarão, ao menos no próximo período, afastados. Quando se gasta um programa ou uma organização, gasta-se a geração que os carregou sobre seus ombros. A renovação do movimento faz-se pela juventude, livre de toda responsabilidade pelo passado. A IV Internacional dá uma excepcional atenção à jovem geração do proletariado. Por toda sua política ela se esforça em inspirar à juventude confiança em suas próprias forças e em seu futuro. Apenas o fresco entusiasmo e o espirito ofensivo da juventude podem assegurar os primeiros sucessos na luta; apenas esses sucessos podem fazer voltar ao caminho da revolução os melhores elementos da velha geração. Sempre foi assim. Continuará sendo assim”

Vamos primeiro a 1968, quando os estudantes das universidades na França, a partir de sua auto organização de base foram as fábricas. Era o pós boom do pós guerra e o então presidente, De Gaulle, queria aplicar uma reforma da segurança social e restringir o acesso às universidades. A resposta foi contundente, desde o princípio em solidariedade ao Vietnã e contra a repressão feroz do imperialismo francês na Argélia.

Em março daquele ano, uma mobilização estudantil em defesa do Vietnam foi reprimida e a detenção de alguns estudantes serviu como faísca para incendiar a cidade. A Universidade de Nanterre foi a primeira a ser ocupada e mediante a intensificação da repressão, Sorbonne também foi ocupada, quando um dirigente da mobilização foi preso e a polícia reprimiu um campus, foi convocada greve geral estudantil e organizadas barricadas, nestas, os trabalhadores abandonados pelas suas direções se juntavam à juventude que despontava como quem poderia dar soluções à crise vivida.

No 10 de maio foi a famosa “noite das barricadas” e três dias depois as centrais sindicais foram obrigadas a convocar uma greve geral. As fábricas eram ocupadas, patrões sequestrados e ser realista e exigir o impossível deveria parecer o único sensato a se fazer.

Apesar do processo ter sido derrotado por intensa repressão e traição das direções, foi responsável por despertar outros ao redor do mundo como a primavera de Praga e no México, este processo deixou algumas lições fundamentais para pensar o papel fundamental que a juventude pode ter, com toda sua subversão ligada ao corpo e à arte. Quero remeter aqui a cinco principais lições:

  • A aliança operário-estudantil: A compreensão de que são os trabalhadores os que ocupam um papel específico no mundo em que vivemos, na produção e que mediante disso, são aqueles que podem impor derrotas à burguesia, fez com que a juventude de 68 encontrasse nestes seus aliados estratégicos. Seria enxergar aqui no Brasil que a massa de trabalhadores, em sua maioria negros, é aquela que pode de fato impor derrotas à burguesia. Basta lembrar do papel que cumpriu a Greve Geral do #28A para colocar em xeque o regime brasileiro.
  • Internacionalismo: Enquanto os estudantes franceses viviam os ataques de De Gaulle, este comandava a intervenção reacionária do exército imperialista francês na Argélia e estava ao lado dos Estados Unidos no Vietnã. Estas eram guerras em defesa do interesse de uma classe: a burguesia, para explorar mais ainda os trabalhadores em outros países, assim como os ataques aos estudantes queriam fazem com que a juventude e os trabalhadores da própria frança pagassem as contas da crise. Faz parte de entender como inclusive a Reforma Trabalhista brasileira está inspirada na que foi aplicada na Alemanha que por sua vez é exemplo para a Argentina, ou seja, em todo o mundo querem fazer com que a juventude não tenha o mínimo direito ao futuro.
  • Não confiança e combate à burocracia: O maior entrave enfrentado pelos trabalhadores contra sua mobilização foi a burocracia sindical que queria impedir sua organização e acabou por derrotar o levante do Maio de 68 negociando por fora das bases acordos com o governo. Parece familiar? Hoje é justamente a burocracia que impede no Brasil que os trabalhadores barrem as reformas.
  • Necessidade de uma política independente da classe operária a partir de sua autoorganização: Durante o levante de 68, as direções dos trabalhadores organizadas em partido, como por exemplo o PCF, tinha como atuação principal querer isolar os estudantes que se colocavam em luta e esforço em afundar greves e lutas.
    De todo o anterior se depreende a necessidade de construir um partido revolucionário dos trabalhadores que tenha como perspectiva um governo dos trabalhadores em ruptura com o capitalismo.

Bom, recentemente, na última cúpula do G20 na Alemanha, as manifestações eram abertas pelos dizeres “Faça do capitalismo história. Um novo mundo é possível” E estas cinco lições devem nos ajudar a pensar como construir uma alternativa da juventude em apoio à classe trabalhadora construindo partido.

Como já tinha mencionado, e como homenageia este evento, para pensar juventude e revolução, precisamos resgatar o legado Revolução Russa e quero atentar a uma especificidade que expressa a disposição de transformar da raiz toda a sociedade dos bolcheviques. Em um discurso em 1920, Lenin dizia que “a principal tarefa da juventude seria aprender”.

Neste aprender ele não queria dizer que a juventude deveria se apropriar do conhecimento como é apresentado hoje para o capitalismo que até o final serve apenas à burguesia. A juventude tem a potencialidade de a partir de se apropriar sim e tudo que foi produzido até hoje, ser parte fundamental do que será inventar e criar o novo, repudiando e combatendo cada ínfima célula de moral burguesa para criar um conhecimento e viver comunistas. Grande parte das demandas que hoje são identificadas como “de juventude” quando na realidade condizem com as necessidades da classe trabalhadora de conjunto, mas que pulsam ao ver registros de todas as lutas desde 2008, com mulheres, negras e negros e LGBTs tomando a linha de frente, são demandas que há 100 anos foram conquistadas pelos bolcheviques por meio da revolução de outubro e só poderão ser conquistadas através de uma confiança na construção de um partido revolucionário dos trabalhadores no Brasil. A necessidade de emancipar os trabalhadores e setores oprimidos de conjunto passa pelo direito ao próprio corpo com o aborto, a necessidade de restaurantes públicos, lavanderias públicas, etc, ao direito de ser LGBT e não ser identificado como doente e só podem ser conquistados se a juventude batalhar pela construção de uma alternativa anticapitalista que supere a trágica experiência de conciliação de classes do PT para que não tenhamos obstáculos reacionários ao espírito da aliança operário estudantil de 68 e possamos realmente construir um novo viver. É necessário também entender que esta alternativa passa por combater todo e qualquer aspecto de herança do stalinismo, responsável por isolar a União Soviética e reacionárias medidas de perseguição aos bolcheviques e às mulheres e LGBTs que hoje no Brasil estiveram representados em seu momento pelo PCB e PCdoB.

Esta tarefa não é uma tarefa fácil, mas o capitalismo a cada dia prova mais que merece ser destruído.




Tópicos relacionados

Juventude

Comentários

Comentar