QUESTÃO NEGRA

Juventude às Ruas e ISKRA organizam curso sobre o livro "A Revolução e o negro" na USP

A primeira sessão do curso foi no dia 26/02, no prédio de Letras da USP e contou com a presença de cerca de 40 estudantes advindos de diversos cursos universitários, além de secundaristas que participaram muito ativamente do debate.

sábado 27 de fevereiro de 2016| Edição do dia

Nesse primeiro encontro, debatemos o que é o marxismo, qual o aporte do trotskismo a partir da diferenciação com o stalinismo e a ideia inicial do livro, de que o capitalismo inventa o racismo. Ao início da atividade, foi lembrado que há 9 anos atrás, no mesmo dia 26/02, a trabalhadora terceirizada Cícera deveria retornar ao trabalho depois das férias, o que não pode ser feito pois havia sido assassinada 5 dias antes na quarta-feira de cinzas. Seus assassinos foram policiais que até seguem impunes. Esse curso é em homenagem às muitas Cíceras e Amarildos de nosso país, e se dá dentro da USP como parte de um combate necessário aos moldes racistas que persistem na principal universidade do país, que passam tanto pelo silêncio em relação a todas as Cíceras mas também pela recusa em implementar medidas efetivas de ingresso e permanência de negros na universidade, mantendo a realidade de que sigamos entrando apenas pelas portas dos fundos como terceirizados da limpeza e da cozinha. Esse curso é um curso militante, e a partir desse artigo sintetizamos as principais ideias debatidas além de convidá-los a participar da próxima sessão, às 18h do dia 11/03.

O que é o marxismo e qual a importância dessa ferramenta no combate ao racismo?

Esse tema foi central na primeira parte do curso. Existem muitas confusões sobre o que seja o marxismo, ainda mais no ambiente universitário, onde o marxismo salta da boca de muito acadêmicos que em nada implementam o mais fundamental dessa ciência que é a práxis, ou seja, a conclusão teórica na qual chega Marx na tese 11 das "Teses sobre Feuerbach", onde diz que "Os filófos apenas interpretaram o mundo de diferentes maneiras; o que importa é transformá-lo.

Desse ponto de vista, nos debruçamos sobre o debate do racismo nesse curso com a perspectiva de atuar sobre o mundo, ou seja, de compreendê-lo para melhor transformá-lo, tornando-nos revolucionários conscientes das enormes tarefas às quais estamos submetidos ao tomar tal decisão.

No que valha a questão negra, essa ideia é muito fundamental, pois ligada ao fato de que o marxismo se propõe uma ciência do materialismo histórico-dialético, partimos da ideia de que nós humanos não somos produtos da realidade material apenas, mas recebemos o acúmulo histórico das gerações anteriores materializado nas coisas do mundo e que somos capazes de, através de processos de consciência, nos colocar como sujeitos da fundação de uma nova realidade material.

Assim, pretender-se revolucionário passa por se colocar decididamente na luta consciente contra todas as manifestações materiais e ideológicas de racismo, pois sem um processo consciente de negação do mundo capitalista é impossível transformá-lo, por outro lado tomar consciência do mundo como é e decidir deixar as coisas como estão, serve apenas para contemplar uma realidade burguesa de opressão contra os negros e exploração contra toda uma classe.

Quais os aportes do Trotskismo?

Pouco se sabe sobre isso, mas o Trotskismo foi, dentre as diversas correntes de marxismo que se desenvolvem a partir do século XX, a que mais se preocupou em travar grandes batalhas para colocar a frente a luta contra as opressões. Principalmente a partir da morte de Lênin e a tomada de direção da Revolução Russa pelo stalinismo, Trotsky passou a travar polêmicas com a Terceira Internacional contra a linha que dava o stalinismo nacionalmente - que passou por exemplo por retrocessos importantes nas conquistas das mulheres dentro do primeiro país onde se aprovou aborto e divórcio, ou pela tese de "socialismo num só país" - e internacionalmente, onde passou a defender que em países mais atrasados, coloniais ou semicoloniais, a tarefa principal era realizar a revolução burguesa.

Nas teses da "Revolução Permante", Trotsky vai desenvolver que, no marco de um capitalismo internacionalizado, com grandes potências imperialistas, seria preciso compreender que 1) a revolução se inicia nacionalmente e só se finaliza a nível internacional; 2) as tarefas da revolução não acabam com a tomada do poder, pelo contrário se intensificam com ela, surgindo a necessidade de combater cada traço da ideologia burguesa, como o racismo; e 3) que o domínio da burguesia não se dá a nível nacional e que, portanto, os países atrasados e tudo o que há de mais atrasado em cada país é parte intrínseca do avanço do capitalismo, por isso avançar em cada pequena luta democrática, como o fim do racismo, jamais poderia ser tarefa das burguesias nacionais, mas sim tarefas dos próprios trabalhadores em unidade com os setores oprimidos.

Essa ideia final é muito importante para se compreender alguns erros cometidos pela esquerda brasileira, como foi a trajetória do PCB nos anos 30, 40, 50 e 60, nos quais pela via de sua orientação geral, se negou a colocar o combate ao racismo como parte de sua política, levando a uma desconfiança dos negros com a esquerda, como se só fosse possível lutar contra o racismo por fora da luta de classes. A política do PCB influenciou profundamente a esquerda brasileira e traumatizou gerações de movimento negro, que até hoje desconfiam dos partidos operários e atuam solitários contra o racismo. Parte da tarefa dos revolucionários, para Trotsky e todos os trotskystas que escrevem junto com ele nesse livro, é colocar a luta contra o racismo a frente de qualquer intervenção na realidade, como um combate de princípios contra a burguesia que sobrevive e se alimenta do racismo.

Capitalismo e racismo: cara de um, focinho de outro

O texto debatido posteriormente, de Breitman, desenvolve uma ideia que pode parecer óbvia, mas é na verdade uma importante polêmica em relação a quase tudo o que já se produziu sobre racismo no Brasil. Florestan Fernandes, por exemplo, localiza o racismo como ideologia pré capitalista, o que o leva a defender por exemplo que quanto mais o capitalismo avançasse, menos expressões de racismo existiram. Para fundamentar essa tese, Fernandes recorre a sociedades pré capitalistas e tenta mostrar pela via do uso do trabalho escravo a relação dessas sociedades com o racismo.

Breitman retorna às mesmas sociedades das quais fala Florestan (sem saber que Florestan viria a existir) e comprova que o que primava no tipo de dominação nunca era a cor da pele, mas sim a religião, como no caso do povo Mouro, ou a situação de derrotado de guerra, como nos casos de Egito, Roma e Grécia.

Durante a segunda onda colonizatória a coisa muda de figura: forma-se um triângulo comercial Atlântico onde a venda de "mercadoria escrava" era chave para a movimentação de lucro, assim, a questão do preconceito de cor está diretamente ligada à necessidade que essa nova classe encontra de justificar o surgimento de um mercado de africanos. Era preciso, portanto, diferenciar esses humanos - desumanizando-os - para que a venda deles fizesse sentido e fosse aceita socialmente.

Essa compreensão muda o quadro de como solucionar o problema do racismo. Se no primeiro caso é preciso "integrar o negro à sociedade de classes", no segundo é preciso destruir a sociedade de classes para que o negro conquiste sua emancipação definitiva. Se o capitalismo em sua fase de acumulação (durante a escravidão) precisou do racismo para fortalecer suas potências burguesas, que apenas por esse mercado conseguem fazer sua revolução, é também pela via do racismo que posteriormente os herdeiros dessa primeira burguesia aprofundam seus domínios sobre a classe operária, divindindo-a, e até hoje lucram rios de dinheiro com a desigualdade salarial.

Quanto mais o capitalismo avança, mais o racismo se aprofunda, ganhando contornos distintos e discursos distintos, mas sempre esteve aí como identidade intrinsecamente associada ao sistema capitalista. Se o capitalismo sobrevive do racismo, não é apenas o primeiro ou apenas o segundo que devem ser combatidos, mas ambos a partir de uma luta unificada e que não começa só no dia da revolução, mas no combate diário nos sindicatos e entidades estudantis, não apenas com cursos e palestras, mas também e principalmente através de batalhas fundamentais seja pelas pautas mais imediatas, como cotas, permanência estudantil, igualdade salarial, efetivação dos terceirizados, investigação dos autos de resistência, liberdade religiosa e demarcação das terras quilombolas, seja pelo fim da violência policial e das policiais, fim do vestibular, sistema de saúde público, de qualidade e controlado pelos trabalhadores e usuários, etc.

Como seguiremos o curso?

Na próxima sessão, a ser realizada no dia 11/03, às 18h na sala 107 da Letras, nos concentraremos no 2o. capítulo, que dá nome ao livro, "A revolução e o negro", que dá bastante conta de colocar o lugar do negro no avanço do feudalismo para o capitalismo e assim nos coloca o desafio de pensar o papel fundamental e decisivo do negro na transição do capitalismo para o comunismo.




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