Gênero e sexualidade

ASSÉDIO DE JOSE MAYER

José Mayer assedia, as mulheres protestam e a Rede Globo faz (muita) demagogia

Já ganhou grande repercussão o caso de assédio sexual que Susllem Tonani sofreu, por oito meses, do bambambã da Rede Globo José Mayer. Na última sexta-feira, a figurinista da emissora expôs um relato sobre tal violência no blog da Folha de São Paulo “#Agoraéquesãoelas”, que teve repercussão imediata, chegando a 73 mil compartilhamentos até o momento em que esta nota é escrita.

terça-feira 4 de abril de 2017| Edição do dia

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No domingo à noite, algumas atrizes, funcionárias e diretoras da emissora se reuniram para discutir uma ação de apoio ativo à Susllem. Daí, elas organizaram uma campanha nas redes sociais (desde ontem) em solidariedade à figurinista e em repúdio à violência do ator, todas usando camisetas com os dizeres “Mexeu com uma, mexeu com todas - #Chegadeassédio” – frases que claramente vieram das ruas, ecoando das manifestações massivas de mulheres que recorrentemente vêm acontecendo em nosso país e em todo o mundo. Fizeram inclusive uma manifestação na empresa hoje, com o traje. No facebook, somente as postagens de Patricia Pillar, Leticia Sabatella e Camila Pitanga (para pegar algumas das mais famosas) em menos de 7 horas já somam 12 mil curtidas e mais de 1400 compartilhamentos (até o presente momento de redação).

A Rede Globo, hoje, soltou uma nota dizendo que “apurou o caso e que tomou a decisão de suspender o ator José Mayer de produções futuras dos Estúdios Globo por tempo indeterminado”. Na nota, faz questão também de enfatizar que “Esta convicção da Globo [de que “repudia toda e qualquer forma de desrespeito, violência ou preconceito”] foi reafirmada para um grupo de atrizes, diretoras e produtoras, reunidas no domingo à noite”, as mesmas que organizaram a manifestação. E hoje, também, foi publicada uma carta do próprio “garanhão global” Mayer dizendo que errou, pedindo desculpas e que “Eu estou vivendo a dolorosa necessidade desta mudança. Dolorosa, mas necessária”.

A Globo, em defesa das mulheres? Pura demagogia

O que a Rede Globo quer apagar do histórico é que no dia da denúncia, além de dizer que ia apurar o caso, disse que “não comenta assuntos internos”, como publicado na Folha de São Paulo em artigo do próprio dia 31. Assim como, antes da decisão da empresa e em consonância com o silêncio desta, José Mayer teve a pachorra de dizer que o assédio era brincadeira e que se tratava de posturas de seu personagem na atual novela global.

O que a Globo também não diz é que, no relato de Susllem, várias pessoas já haviam presenciado de forma escancarada o assédio do ator, e que nada foi feito. E não diz também que, durante toda a sua programação, desde sua existência até hoje, sempre projetou a imagem da mulher de forma objetificada, submissa e nata dona de casa, supersexualizada. Dos antigos programas infantis às (todas) suas novelas; do antigo e ultra misógino e racista “Zorra Total” ao até hoje no ar “Big Brother Brasil” e o caseiro “Mais Você”; das antigas aparições até as mais atuais da figura da “Globeleza”. Todas imagens que só servem a perpetuar na nossa sociedade uma imagem totalmente machista das mulheres, o que aceita, e mais, instiga as mais diversas atitudes violentas que colocam as estatísticas de mulheres violentadas, de todas as formas, em números completamente assustadores. E não vai ser uma Fernanda Lima – no horário em que todos os trabalhadores já estão dormindo – fazendo propaganda dos cartazes feministas das manifestações que vai alterar o real papel que cumpre a Globo neste uso da mulher. Ah, vale a pequena nota de rodapé, nenhuma das outras emissoras de televisão deste país pode sair ilesa da mesma crítica voraz: todas cumprem o mesmo papel em perpetuar o machismo, de que a classe dominante tanto precisa para explorar e oprimir, e assim, extrair mais lucros, das mulheres negras e brancas.

E, se ainda vale mais uma nota de rodapé, e vale, o jornal Folha de São Paulo também não escapa. Ao ser publicada a nota de Susllem no blog, o jornal retirou imediatamente do ar, com o argumento de que a nota era muito grave e queria, primeiro, ouvir a “parte acusada” (seria esta o ator ou a própria Rede Globo??). Depois de muita indignação nas redes sociais, o jornal repostou o relato.

E, voltando à Globo, tudo o que se ouviu na matéria do Jornal Hoje, transmitida no dia de hoje, foi uma grande defesa da própria empresa, que de cada 10 palavras que Evaristo Costa (o âncora) falava, 5 era “Globo”. Ou seja, uma tentativa desesperada de reafirmar como “a Globo” já tomou as providências; “a Globo” repudia a ação; “a Globo” se solidariza com a funcionária... e depois leu – na íntegra! – a carta de... José Mayer. Obviamente a de Susllem nem passou perto do teleprompter do âncora, que ao final informou ao telespectador que “Susllem foi procurada e não foi achada”. Medo de colocar as próprias palavras da funcionária no ar, será? Necessidade de fazer muita demagogia para que a Globo não saia mal vista, isso sim.

Por que foram 8 meses de assédio sofrido em silêncio?

Susllem conta que passou oito meses sofrendo assédio sem ter coragem de denunciar o ator, mesmo tendo testemunhas oculares. Conta que o “emprego dos sonhos” passou a ser pesadelo, que fugia do ator a todo o momento.

Essa é a realidade de todas as mulheres, que, todas, em algum momento de suas vidas, já sofreram e sofrem algum tipo de assédio ou violência, em maior ou menor grau, e que na maioria das vezes fica completamente no desconhecimento e na impunidade. O medo de se manifestar e de se impor é uma constante.

Tudo isso porque é o próprio estado capitalista que impõe essa violência: na mídia, como dissemos antes; na dupla jornada de trabalho não paga nem por estado nem pelo patrão; no uso da mulher como objeto sexual pra atrair consumidores para suas cervejas e produtos diversos; nos menores salários comparados com os dos homens; nas faltas de condições plenas de maternidade; na soltura pelo STF de assassino e esquartejador de mulher confesso, como o “goleiro Bruno”; na conivência completa do mesmo Estado com as milhares de mulheres mortas pela violência machista e por abortos clandestinos.

Susllem provavelmente teve a sensação de que sua palavra, colocada na balança sozinha contra a do garanhão-que-faz-milhões-para-Globo, seria no começo igual a um grande nada, e provavelmente temia inclusive a demissão. Ela mesma disse que, mesmo com testemunhas presentes, José Mayer disse abertamente que a tocaria novamente e a chamou de “vaca”, e que se sentia sozinha e desprotegida.

O que a moralizou para não mais calar, e que também obrigou a Globo e a Folha de São Paulo a divulgarem e “tomarem providências”, foi o movimento de mulheres contra a sua opressão que vem tomando cada vez mais as ruas, as casas, as empresas, as escolas, em diversos países do mundo. O que está sendo conhecido como a “primavera feminista”. E que nesse caso, se expressa na rápida repercussão e solidariedade expressas nas redes sociais e na própria manifestação de funcionárias e atrizes que se solidarizaram com a figurinista.

Agora está posta a nossa luta, que deve ser contra a opressão do Estado capitalista

A Primavera Feminista está cada vez mais tomando espaço. Em grandes manifestações no Chile, Argentina por “Nenhuma a Menos”; nos Estados Unidos pelo feminismo para os 99% das mulheres contra o misógino Trump, mas também contra Hillary e todas as mulheres no poder que governam contra a maioria das mulheres; no Brasil contra a violência e em repúdio total aos estupros e mortes. Na paralisação internacional que tomou enormes proporções, com as trabalhadoras à frente junto a seus companheiros de trabalho parando a produção, em vários países do mundo no último 8 de março. É nesta força que reside o motor de transformação real deste sistema, e que hoje dá forças a cada vez mais mulheres de combater o machismo e se organizar contra ele.

Nós do Pão e Rosas nos somamos a esta força, lutando por um feminismo anticapitalista e revolucionário que coloque abaixo as estruturas sociais que perpetuam a nossa opressão, unindo as mulheres a toda a classe trabalhadora, ganhando toda ela para defender as nossas demandas.

Qualquer palavra ao vento do ator ou de emissoras de televisão, inclusive as “tomadas de providência” – ultra parciais e pra não perder espectador, claro – são única e exclusivamente fruto desta força das mulheres, na forma de pura demagogia.




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