Gênero e sexualidade

OLIMPIADAS

Jornalista utiliza aplicativo gay para oprimir atletas LGBTs

Jornalista norte-americano achou que seria divertido se passar por homossexual e divulgar para o mundo a intimidade sexual de alguns atletas da Vila Olímpica, colocando em risco suas vidas, carreira e relações familiares.

Adriano Favarin

São Paulo

sexta-feira 12 de agosto| Edição do dia

Nico Hines é o nome do infeliz. Ele se entende enquanto jornalista pelo site norte-americano The Daily Beast. E achou que seria super engraçado entrar na Vila Olímpica utilizando o aplicativo de paquera LGBT chamado Grindr, se passando por homossexual, e marcar encontro com atletas de diferentes países para, em seguida, publicar um artigo infame no qual descreve e apresenta para a sociedade alguns atletas que sequer assumiram publicamente ou no âmbito familiar e de profissão, a sua homossexualidade.

É sabido que a repressão às relações homossexuais é intrínseca a nossa sociedade, qualquer que seja o país e qualquer que seja o avanço na garantia de direitos legais. A sociedade tensiona o indivíduo a cada instante e desde o seu nascimento a adquirir uma identidade cis-heteronormativa e praticar relações cis-heterossexuais. As instituições familiares, escolares e eclesiásticas educam dentro destes valores e desta moral. Os meios de comunicação e entretenimento fortalecem o estigma e a sátira contra indivíduos que fujam dessas práticas ou dessa identidade. E, por fim, os países reforçam esse direcionamento com leis punitivas, repressão declarada ou omissão frente à violência homofóbica.

Nesse sentido é bastante compreensível que entre jovens de pouco mais de 18 anos, e principalmente no meio esportivo, publicizar uma identidade LGBT ou mesmo assumir que pratica relações homossexuais e/ou com pessoas trans seja algo extremamente complicado. Não se deve impor àqueles que ainda não criaram coragem para enfrentar abertamente a opressão sexual e social que sofrem qual deve ser o momento de fazê-lo. “Sair do armário” é uma decisão que só cabe ao indivíduo. Garantir que cada pessoa tenha mais fortalezas e mais condições desde o seu nascimento para fazê-lo é o dever de uma sociedade que se propõe livre e igualitária. Qualquer atitude que imponha essa condição ao outro é assédio, é homofobia!

Em determinado momento da sua violência em forma de artigo intitulado “Consegui três encontros no Grindr em uma hora na Vila Olímpica”, Hines menciona um atleta oriundo da Ásia Central, de um país onde a homossexualidade é criminalizada e as LGBT’s vivem em situação de risco de vida.

Amini Fonua, nadador e homossexual assumido, nascido em Tonga, postou no Twitter que “algumas dessas pessoas que você tirou do armário são meus amigos. Com família e vidas que serão afetadas para sempre. (...) Imagine um espaço onde você pode ser você mesmo, se sentir seguro, sendo arruinado por alguém que acha que tudo é brincadeira? (...) Nenhum heterossexual saberá alcançar a dor de revelar a sua verdade. Não tenho nem palavras, só consigo chorar. (...) Ainda é ilegal ser gay em Tonga, e enquanto sou forte para enfrentar isso, nem todo mundo consegue. Respeite isso. (...) Vergonha deste cara nojento e desumano que achou que seria divertido colocar em risco a vida dos atletas desta Vila”

No site The Daily Beast, depois da enxurrada de críticas, o artigo foi removido com a justificativa de que “não houve a intenção de prejudicar ou degradar membros da comunidade LGBT, mas intenções não importam, os impactos, sim. Nossa esperança é que, ao remover o artigo que está em conflito com nossos valores bem como com os quais aspiramos como jornalistas demonstre quão seriamente levamos nosso erro". Porém, esse frouxo pedido de desculpas destoa do tom que John Avlon, editor-chefe, utilizou ao afirmar que essa atitude [tirar atletas gays do armário] nunca foi a intenção de “nosso repórter”, mas que apenas “calhou que Nico obteve muito mais respostas no Grindr que em aplicativos que atendem a um público predominantemente heterossexual, então ele escreveu sobre isso.”

A certeza da impunidade levou Nico Hiner a achar natural se divertir (e divertir a tantos outros) com a opressão que assola as pessoas, e consequentemente, desrespeitar a intimidade e colocar em risco a vida, carreira e relações pessoais e familiares destes atletas. Afinal, a sociedade não ensina que LGBTs “são feitos pra apanhar, são bons de cuspir...”?

Desses ataques é feita a história de resistência e luta das LGBTs para existirem nessa sociedade. Muitas foram e são as vítimas mortais desse embate contra a heteronormatividade compulsória e contra a repressão sexual dessa sociedade. Mas as marcas nos dão aprendizados e é com essa foto abaixo em seu Instagram que o nadador Amini Fonua encerra de maneira lacradora em resposta a Hines dizendo “Ei, Nico Hines e Daily Beast - se vocês estavam procurando no Grindr por fogo no rabo (e não vejo outro motivo para vocês estarem lá), vocês têm o meu aqui em toda sua glória. Agora, beijem-na e vão se fuder! #orgulhogay”




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