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Joe Biden e o malefício do "mal menor"

Esta semana, aconteceu uma sessão da Convenção Nacional do Partido Democrata, que proclamou a fórmula Joe Biden-Kamala Harris para a eleição de novembro. Na próxima semana, será a vez da convenção dos republicanos, que oficializará a candidatura de Donald Trump.

Claudia Cinatti

Buenos Aires | @ClaudiaCinatti

sexta-feira 21 de agosto| Edição do dia

Esses mega eventos partidários (formato que na Argentina, até certo ponto, a direita macrista tentou copiar) são shows de televisão, com muito baile, balões azuis, vermelhos e brancos, chapéus extravagantes, celebridades misturadas com cidadãos comuns e ex-presidentes, primeiras-damas e políticos tradicionais. Eles são talvez uma das mais puras peças da vídeopolítica, essa fusão da política com o espetáculo midiático definido por Giovanni Sartori na década de 1990.

A pandemia do coronavírus interrompeu radicalmente a estética tradicional. A convenção democrata, ainda que formalmente com sede em Milwaukee, aconteceu na pura virtualidade. Sem balões e nem papéis. Alternando vídeos de figuras carismáticas como Michelle Obama falando da sala de estar de sua casa, com a típica tela de mosaico quadrado de Zoom. A forma atípica, em grande medida, faz com que o conteúdo da mensagem democrata busque capitalizar a rejeição de Trump à crise sanitária que as pesquisas continuam a detectar.

Embora a situação seja aguda porque combina a crise sanitária, a recessão econômica e social e o surgimento de um imponente movimento de massa contra o racismo e a violência policial depois do crime de George Floyd, não houve elementos disruptivos na convenção democrata que colocassem em questão a estratégia eleitoral de "moderação" para contestar o centro do espectro político e derrotar Trump.

A convenção confirmou a mudança na direção do Partido Democrata do casamento Clinton ao casamento Obama, como uma saída da crise de liderança que deixou a derrota de Hillary Clinton em 2016 para Donald Trump. O ex-presidente Bill Clinton falou por apenas cinco minutos, no bloco de "relíquias" do partido, juntamente com figuras como Jimmy Carter, muito longe do horário nobre da convenção. Essa reacomodação do clintonismo deve-se à caída em desgraça da "terceira via" e ao esgotamento do neoliberalismo, mas sobretudo ao surgimento do movimento MeToo para o qual uma figura como Bill Clinton, com seus escândalos juvenis, é muito desconfortável.

Sob a direção dos Obamas, a política democrata é unir na mesma coalizão republicanos que militam em grupos anti-trumpistas, progressistas de esquerda e "socialistas democráticos" como Bernie Sanders, hegemonizado pelo "establishment" do extremo centro. Desta forma, busca contrariar a campanha negativa de Donald Trump que sustenta que o Partido Democrata - sim, o partido de Wall Street - foi sequestrado pela "extrema esquerda" e que se Biden ganhasse a eleição transformaria os Estados Unidos na... Venezuela (sic).

Essa tendência à moderação e à preferência por setores conservadores anti-trumpistas foi expressa na participação proeminente de figuras tradicionais do partido republicano, como a viúva do senador John McCain. Entre outros ilustres "republicanos Biden" (como os chamam fazendo paralelo com os "democratas de Reagan" da década de 1980) também falaram o ex-governador de Ohio, John Kasich, um anti-abortista que tentou liquidar sindicatos e negociações coletivas do setor público. E Colin Powell, ex-secretário de Estado de George W. Bush, que inventou que Saddam Hussein tinha armas de destruição em massa para justificar a guerra do Iraque.

Em 2016, Hillary Clinton procurou atrair republicanos que militaram ativamente o "nunca Trump", incluindo muitos neoconservadores que se sentiam mais próximos do intervencionismo democrata e do "globalismo" do que do isolacionismo relativo e do protecionismo de Trump. Mas a tentativa falhou e não há indicadores sérios de que desta vez funcionará.

Outra definição política importante deixada pela convenção é que a ala esquerda do partido provou ter disciplinado a causa da unidade partidária. Desde que saiu das primárias em abril e se aliou à candidatura de Joe Biden, Bernie Sanders tem trabalhado para convencer sua base de esquerda do malmenorismo, que resiste votar em candidatos de Wall Street e do establishment. Na convenção, ele fez um discurso conciliador. Ele disse estar disposto a "trabalhar com progressistas, moderados e conservadores" para defender a democracia. E embelezou a plataforma de Biden, embora ele mal tenha incorporado demandas da ala esquerda, exceto questões secundárias, e rejeitou rotundamente uma das demandas mais populares da saúde universal.

A congressista Alexandra Ocasio Cortez, referência do "esquadrão" (grupo de quatro congressistas democratas de esquerda) e uma das oradoras mais esperadas da convenção, teve apenas 90 míseros segundos para falar, e usou esse tempo para proclamar a candidatura de Sanders, uma resistência que, embora simbólica, serviu para lembrar que a ala esquerda é um ator.

A estratégia do "sanderismo" no sentido amplo, que inclui a ala esquerda do Partido Democrata e a DSA (Democratic Socialist of America) é expandir sua representação política no Congresso e legislaturas, sob o guarda-chuva de Biden, considerando que vários de seus candidatos venceram as primárias, incluindo Cori Bush, o ativista do Black Lives Matter Jamaal Bowman, Rashida Tlaib, e Ilhan Omar, a congressista de origem somali que varreu as primárias de seu distrito em Minnesota. Dessa forma, eles tentam criar a ilusão de aumentar sua pressão no Congresso para empurrar algumas reformas.

Objetivamente, essas vitórias eleitorais de candidatos progressistas contra políticos tradicionais do Partido Democrata são expressão distorcida na superestrutura política de uma virada de esquerda na situação que vem se formando nos últimos anos, mas deu um salto com a rebelião que eclodiu após o crime de George Floyd. Mas, ao mesmo tempo, eles agem cobrindo o flanco esquerdo deste partido, que foi historicamente o instrumento privilegiado da classe dominante para cooptar movimentos sociais e fechar o caminho para a radicalização política.

A campanha presidencial de novembro está sob a influência de uma crise tripla: de saúde pelo coronavírus; econômica pela recessão aguda causada pelo confinamento que já deixou quase 30 milhões de desempregados; e política para o surgimento de um movimento de massa com pouco precedente histórico contra o racismo e a violência policial.

Por enquanto, Biden mantem uma vantagem considerável sobre Trump. E a julgar pelo número de contribuições, grandes corporações estão se jogando ao financiamento eleitoral. No entanto, muitos analistas prenunciam uma eleição mais apertada do que aparenta ser hoje.

Nas eleições de 2016, cerca de 25% dos eleitores primários de Sanders não votaram em Hillary Clinton, seja porque não foram votar ou porque o fizeram em terceiros partidos, como o partido verde. Apesar da enorme pressão para derrotar Trump, esse cenário pode se repetir. É provável que ter escolhido Kamala Harris (e não uma figura à esquerda) que, apesar de ser uma mulher não branca, está referenciada com a polícia e "lei e ordem" por suas ações como promotora, faça um amplo setor de ponta que se mobilizou contra a polícia, especialmente setores da juventude que simpatizam com o "socialismo democrático" , não se sinta desafiado pelo malmenorismo anti-trumpista. Se isso acontecer em alguns dos “swing states” o cenário eleitoral pode se complicar para Biden.

A perspectiva de por fim ao ciclo trumpista contribuiu para canalizar a raiva das ruas para o desvio eleitoral. Mas dificilmente um governo de "transição" como o de Biden seja suficiente para voltar a "normalidade" tão desejada pela classe dominante.




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