Política

ARBITRARIEDADE

João Bosco se revolta com o uso de sua canção em ação da PF na UFMG

"Não autorizo, politicamente, o uso dessa canção por quem trai seu desejo fundamental"

sexta-feira 8 de dezembro de 2017| Edição do dia

O cantor João Bosco, coautor com Aldir Blanc de O Bêbado e a Equilibrista, escreveu uma nota de repúdio que compartilhamos nesse artigo, contra o uso da música na Operação "Esperança Equilibrista", que a Polícia Federal e a Controladoria-Geral da União (CGU) deflagaram nesta quarta-feira (6), na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Sua música foi lançada em 1979 no contexto da repressão da Ditadura Militar no Brasil. "Não autorizo, politicamente, o uso dessa canção por quem trai seu desejo fundamental" diz o autor, em honra a todos que lutaram contra a Ditadura Militar no país.

Nós do Esquerda Diário nos posicionamos contra esta arbitrariedade, em defesa da autonomia universitária e contra os ataques da PF, do judiciário e do governo golpista de Temer à educação, às universidades e à memória da luta contra a Ditadura Militar.

Veja mais aqui: Contra o autoritarismo da PF e do judiciário golpista na UFMG

NOTA DE REPÚDIO À OPERAÇÃO “ESPERANÇA EQUILIBRISTA”:

Recebi com indignação a notícia de que a Polícia Federal conduziu coercitivamente o reitor da Universidade Federal de Minas Gerais, Jaime Ramirez, entre outros professores dessa universidade. A ação faz parte da investigação da construção do Memorial da Anistia. Como vem se tornando regra no Brasil, além da coerção desnecessária (ao que consta, não houve pedido prévio, cuja desobediência justificasse a medida), consta ainda que os acusados e seus advogados foram impedidos de ter acesso ao próprio processo, e alguns deles nem sequer sabiam se eram levados como testemunha ou suspeitos. O conjunto dessas medidas fere os princípios elementares do devido processo legal. É uma violência à cidadania.

Isso seria motivo suficiente para minha indignação. Mas a operação da PF me toca de modo mais direto, pois foi batizada de “Esperança equilibrista”, em alusão à canção que Aldir Blanc e eu fizemos em honra a todos os que lutaram contra a ditadura brasileira. Essa canção foi e permanece sendo, na memória coletiva do país, um hino à liberdade e à luta pela retomada do processo democrático. Não autorizo, politicamente, o uso dessa canção por quem trai seu desejo fundamental.

Resta ainda um ponto. Há indícios que me levam a ver nessas medidas violentas um ato de ataque à universidade pública. Isso, num momento em que a Universidade Estadual do Rio de Janeiro, estado onde moro, definha por conta de crimes cometidos por gestores públicos, e o ensino superior gratuito sofre ataques de grandes instituições (alinhadas a uma visão mais plutocrata do que democrática). Fica aqui portanto também a minha defesa veemente da universidade pública, espaço fundamental para a promoção de igualdades na sociedade brasileira. É essa a esperança equilibrista que tem que continuar.

João Bosco
07/12/2017




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