Política

SÃO PAULO

Jilmar Tatto e o legado petista: administração do capitalismo e adaptação ao regime golpista

sexta-feira 28 de agosto| Edição do dia

Foto de Alex Ferreira

Como já marcamos em outros artigos, as eleições municipais de 2020 serão as primeiras depois da vitória de Bolsonaro e ocorrem no marco do mesmo regime golpista que vem degradando cada vez mais a democracia podre e pactuada com os militares desde a transição da ditadura. Todos os partidos e forças políticas do pais buscarão se localizar nessas eleições preparando as disputas para ver em 2022 quem vai administrar o capitalismo brasileiro, agora sobre as bases da obra do golpe institucional que aprovou a reforma trabalhista, a PEC do Teto dos Gastos Públicos, a lei de terceirização irrestrita, privatizações e, depois de eleições completamente manipuladas, culminaram na eleição de Bolsonaro. Também serão eleições que ocorrem em meio à pandemia, um saldo de mais de 116 mil mortos, diversos ataques ao povo trabalhador e uma recuperação da aprovação de Bolsonaro em base ao auxílio emergencial.

No caso de São Paulo, a maior capital do país disputam a liderança das intenções de voto Bruno Covas, que junto a Doria já implementou diversos ataques aos trabalhadores e à população como a reforma administrativa e a reforma da previdência municipal aos professores e Celso Russomano (Republicanos), candidato de extrema-direita que apoiou o golpe institucional e é uma voz de setores conservadores como a Igreja Universal do Reino de Deus. Se somam também à lista de candidatos da reacionária extrema direita a preterida de Bolsonaro Joice Hasselman (PSL), Levy Fidelix (PRTB) e Arthur do Val (Patriota). Márcio França (que tenta aparecer como moderado) e que junto a Alckmin implementou privatizações e o congelamento de verbas para a saúde e educação, vem buscando o apoio de Bolsonaro para representar a sua base em SP. Também estão no radar golpsistas como Marta Suplicy e Paulo Skaf. Nesse cenário, com o fortalecimento de Bolsonaro e tantas candidaturas de extrema-direita e direita se mostra mais do que nunca que o PT (e a candidatura de Jilmar Tatto), que governou para os capitalistas, não é uma alternativa para combater Bolsonaro, os golpistas e os capitalistas.

Os resultados das eleições deste ano têm importância estratégica para o PT, rumo a seu principal objetivo que é chegar fortalecido eleitoralmente disputar as eleições de 2022. Para isso, o PT apresentou a candidatura de Jilmar Tatto, político antigo das fileiras do partido, enraizado na zona sul da cidade, alvo de denúncias por envolvimento na máfia dos transportes clandestinos quando foi Secretário Municipal de Transportes na gestão de Marta Suplicy em 2001, e que voltou a ocupar esse cargo com Haddad em 2013. A candidatura de Tatto tem se destacado na grande mídia por não ter gerado entusiasmo nem mesmo a militância do PT e, por ora, conta com apenas 3% das intenções dos votos.

Mesmo com a presidente do PT Gleisi Hoffman ameaçando de expulsão aqueles militantes do partido que “desertarem” da campanha de Tatto aliados históricos do PT (sobretudo de artistas, mas também de figuras importantes como André Singer, porta-voz do governo Lula, Celso Amorim, ex-ministro das Relações Exteriores, Tarso Genro, Leonardo Boff além de Marilena Chauí) declararam apoio a chapa Guilherme Boulos/Luiza Erundina do PSOL, por enxergarem aí uma possível oportunidade de aproveitar a identificação que essa candidatura tem com o próprio PT, bem como controlar qualquer alternativa que surja por fora de seu partido e não encontrarem em Tatto uma figura que consiga hegemonizar o PT.

Em entrevista recente a GGN, Gleise Hoffman reconheceu a apresentação de candidaturas próprias em várias cidades do país como parte da estratégia de “sobrevivência” dos partidos diante da aprovação da clausula de barreira, e a escolha de Jilmar Tatto como um plano B diante da recusa de Fernando Haddad em concorrer pelo PT as eleições municipais de São Paulo, para estar disponível em 2022 sem grandes percalços, como ter que abandonar da prefeitura.

Em entrevistas Tatto tenta se desvencilhar da possível divisão interna no PT insistindo que o partido está unido e descartando alianças com outros partidos da no primeiro turno das eleições, mas deixa o caminho preparado para apoios que o PT possa dar num eventual segundo turno. Ainda assim, não é suficiente para ocultar a fragilidade de sua candidatura. Caberá ainda ver qual será o papel de Lula nas eleições da cidade de São Paulo e qual papel a candidatura petista em SP vai cumprir na política de “reabilitação” do PT nacionalmente.

Na ausência até o momento de um candidato forte do bolsonarismo na disputa eleitoral paulista, o discurso de Jilmar Tatto tem se voltado em primeiro lugar contra Bruno Covas (que aparece nas pesquisas com 20% das intenções de voto) tentando reeditar a velha disputa entre PT e PSDB e cobrar o preço do adversário tucano, junto a Doria, pelos mais de 28 mil mortos de SP em decorrência da pandemia, fazendo demagogia de que vai testar massivamente para combater o contagio. Para a revista Veja, Tatto afirmou que se fosse prefeito teria decretado lockdown, mas não fala sobre garantir que os trabalhadores tivessem o direito de ficar em casa, sem risco de demissão e diminuição de salários. O que Tatto também não diz é que nos estados do Nordeste, governados pelo PT e PC do B os trabalhadores, sobretudo os setores mais precários, tampouco tiveram direito a quarentena, a dispensa remunerada nos setores não essenciais e a garantia de EPIs e testes massivos. O Ceará, governado por Camilo Santana do PT, é o estado com a maior taxa de mortalidade do país e, junto com a Bahia (governado por Rui Costa do PT) e o Maranhão (governado por Flávio Dino do PC do B), estão entre os seis estados com maior índice de mortes do Brasil.

Durante todos os seus anos de governo, seja em nível nacional ou na cidade de São Paulo o PT nunca questionou os lucros dos empresários e patrões e, ao contrário, foram parte da implementação de diversos ataques à classe trabalhadora em prol dos lucros patronais, ao contrário, Haddad foi quem apresentou para votação da Câmara a primeira versão da reforma da previdência contra os servidores municipais, o SampaPrev, e, obviamente não há qualquer intenção de Jilmar Tatto em reverter esse grande ataque, que atingiu inclusive trabalhadores da saúde e professores. Nos estados em que é governo no Nordeste, a disposição do PT em aprovar reformas previdenciárias foi a mesma, inclusive usando forte repressão policial contra os servidores, como na Bahia.

Hoje o atual candidato do PT se apresenta como especialista em mobilidade urbana e coloca como uma de suas principais bandeiras de campanha a melhoria do sistema e a implementação da “tarifa zero” nos transportes, mas em 2013, na prefeitura de Haddad em São Paulo, com Jilmar Tatto à frente da Secretária de Transportes, as reivindicações das mobilizações massivas pela revogação do aumento da tarifa dos transportes e melhorias nos ônibus e metrô tardaram a serem escutadas, e somente depois de intensa repressão, com feridos graves e com presos políticos é que Haddad anunciou ao lado de Geraldo Alckmin a revogação dos R$0,20. O que não foi revogado foi o sucateamento dos transportes e as péssimas condições de trabalho dos motoristas e cobradores, e por esse motivo em 2014 a categoria entrou em greve. Tatto criminalizou os trabalhadores paralisados, dizendo “Acionamos a Polícia Militar para que ela cumpra uma decisão judicial de que, todas as vezes que tiver obstrução do ônibus, por se tratar de um serviço essencial, que ela possa agir”.

Como já mencionamos, Jilmar Tatto como secretário de transportes na gestão da prefeitura de Marta Suplicy, foi acusado, junto a membros de sua família, de envolvimento em máfias de transportes clandestinos na cidade, quando os transportes ilegais foram incorporados ao sistema, por via de cooperativas. A relação entre a prefeitura de Marta Suplicy e o empresário dos transportes José Ruas Vaz, conhecido como “rei dos ônibus”, fez com que ele passasse a controlar mais da metade dos ônibus da cidade. Tatto também é um dos alvos do processo do Ministério Público que pede anulação de contratos, a dissolução de empresas e a devolução de R$ 1,8 bilhão por fraudes e formação de cartel envolvendo concessões de ônibus da prefeitura da capital paulista.

Na área da educação o PT também foi exemplo de governo para os empresários e setores conservadores, muito longe da imagem que tenta transmitir de defesa da educação e das demandas das minorias. O Plano Municipal de Educação aprovado pelo PT em 2015, por pressão dos setores fundamentalistas que hoje estão ao lado de Bolsonaro, excluiu qualquer menção ou aos direitos de igualdade entre os gêneros e educação sexual nas escolas, além de destinar grande parte das vagas criadas para creches e ensino infantil para redes conveniadas e indiretas, iniciando o processo de privatização do ensino que segue até hoje nas mãos de Covas.

Em meio à crise econômica, aprofundada com a pandemia, com o aumento do desemprego, do trabalho precário e da pobreza nada mais ardiloso que fazer demagogia com os anseios de melhora nas condições de vida, que podem serão atendidos completamente sem atacar os lucros exorbitantes dos banqueiros e empresários, com os quais o PT já demonstrou seu completo comprometimento. Jilmar Tatto repete em todas as entrevistas que concede para apresentar sua pré-candidatura, que vai gerar empregos através de cooperativas locais, mas a “geração de empregos” conhecida na gestão do PT em 2015 foi a demissão de mais de 2 mil garis da cidade, atacando justamente os setores mais precários da classe trabalhadora.

A grande propaganda que Jilmar Tatto vem fazendo é de que vai implementar uma renda básica em São Paulo, assim que (se) for eleito. O que Tatto não diz é que os responsáveis por empurrar o povo para as condições de extrema pobreza, com demissões, suspensões de contrato de trabalho, ttrabalho informal e precário são os mesmos grandes capitalistas para quem o PT governou quando esteve no poder, assegurando a eles uma “renda básica” de lucros extraordinários.

Sobre a drástica situação dos mais pobres em situação de rua, todos os anos, e esse não está sendo diferente, nos deparamos com tristes notícias de mortes. Ainda assim, Haddad quando era prefeito mandou a Guarda Civil Metropolitana retirar os colchões dos moradores de rua. A Jilmar Tatto vale perguntar porque o petista, além de postagens hipócritas nas redes sociais e dizer em entrevistas que dará “carinho” e “amor” as pessoas em situação de rua, não apresenta propostas de um plano de obras públicas, que se enfrente com a especulação imobiliária para gerar emprego e moradias. Jilmar Tatto em seu plano de governo diz que vai oferecer somente vagas em abrigos e banheiros nas ruas com pia para as pessoas se lavarem. Isso não é salvar vidas que podem ser perdidas para o frio, a fome e a COVID-19 nas ruas.

A proposta de fazer mutirões para a construção de casas, herdada da prefeitura petista de Erundina, que também são propostas de Jilmar Tatto, busca transferir para o povo uma responsabilidade que deveria ser do próprio governo que poderia garantir milhares de moradias populares a partir de um plano de obras públicas e uma reforma urbana radical. Um plano assim, poderia ser implementado se o orçamento público não estivesse completamente comprometido com o pagamento da dívida pública. Dessa forma, o que deveria ser um direito elementar a todos que é ter uma moradia digna torna-se um nicho extremamente lucrativo para as empreiteiras e os setores da especulação imobiliária que enriquecem ao custo de sugar anos de trabalho do povo trabalhador.

Na cidade de São Paulo durante os anos do PT, não faltaram privatizações de todas as cores e tamanhos nos diversos serviços públicos, seja sob a roupagem de parcerias público-privadas ou das chamadas OS´s (Organizações Sociais) que dominaram os serviços de saúde, creches e outras áreas. Chega a ser irônico Jilmar Tatto afirmar vai interromper as privatizações, como tem feito. No transporte público se não bastasse o aumento absurdo do valor das passagens, o Bilhete Único, reivindicado pela população diante da carestia do custo de vida, foi implantado graças a subsídios para os empresários dos transporte que tiveram a sua “renda básica” de milhões de reais garantidos todos os meses e pagos com o dinheiro do povo trabalhador.

Tanto PT quanto o Jilmar Tatto não perdem oportunidade de criticar e atacar com verborragia o governo Bolsonaro, e aproveitarão as eleições municipais para elevar sua propaganda contra o governo que vem crescendo nas pesquisas, mesmo em antigas bases petistas, e que será seu adversário direto em 2022. Ainda assim, quando se pergunta a Jilmar Tatto como será a relação dele com o governo Bolsonaro, caso seja eleito em São Paulo, a verdade surge e a ideia de oposição consciente fica clara, já que deseja uma “convivência saudável” e diz no site do próprio PT que “vai ter menos bate-cabeça do que agora”.

Após o golpe institucional, que o PT se limitou a combater com declarações, o partido saiu das eleições municipais de 2016 perdendo grande parte dos municípios que governava, incluindo São Paulo, pondo fim no chamado "cinturão vermelho" no estado. Em 2018, mesmo obtendo mais de 47 milhões de votos no segundo turno das eleições presidenciáveis, o PT logo reconheceu o resultado da eleição manipulada e assim que o Bolsonaro assumiu a presidência, o partido anunciou que faria uma “oposição consciente”, abrindo mão de organizar a força das mulheres, jovens e trabalhadores que votaram em Haddad para expressar seu rechaço a tudo que Bolsonaro representa. Ao contrário, alimentou o medo e a desmoralização com o discurso de que estaríamos diante do fascismo.

Graças a seu papel fundamental de controle e traição das greves operárias, da CUT e influencia indiretamente a CTB (dirigida historicamente pelo PC do B), o PT conquistou a sua localização como “pata esquerda” do regime burguês e durante seus 13 anos de governo (nos mandatos de Lula e Dilma) administrou o capitalismo e conciliou e trouxe para dentro de seus governos todos os golpistas e setores mais reacionários da sociedade, pavimentando assim o caminho do golpe institucional de 2016.

De lá para cá, a estratégia do PT não mudou. Segue se aliando e participado das mais diversas frentes e articulações com os golpistas, a direita tradicional e mantém um discurso mais moderado, por uma suposta luta pela defesa da democracia. Mas agora nas eleições essa disposição de conciliar do PT mostra uma cara ainda mais nefasta, chegando ao extremo de apoiar eleitoralmente, em Belford Roxo no RJ, Wagner Carneiro, o “Waguinho” (MDB), candidato à reeleição, que declarou apoio aberto a Bolsonaro e sai sorridente em fotos com Flávio Bolsonaro, de quem recebeu uma visita recentemente.

A política do PT de conciliar e se aliar aos setores mais conservadores e a direita, além do seu programa de administrar a obra do golpe e o capitalismo de um regime ainda mais perverso, que ataca diretamente a vida da população com retirada de direitos, desemprego, fome e miséria e agora mortes por uma pandemia que poderia ter sido controlada, só pode nos levar a conclusão que a ideia de “mal menor” ou de “esperança”, além da ideia de unidade das oposições contra Bolsonaro, que o PT e Jilmar Tatto tentam transmitir em sua campanha é um grande engodo para atrair uma importante parcela da população, de muitos jovens, mulheres, negros e LGBTs, que rechaçam Bolsonaro.

Em São Paulo esses setores começam a buscar uma alternativa a Bolsonaro, que rompa os limites impostos pelo “possibilismo” do petismo, não a toa a chapa do PSOL Boulos/Erundina vem ganhando apoio, com um sentimento legitimo de que é possível apostar em uma alternativa à esquerda do PT. Justamente por isso consideramos ainda mais importante debater com esse setor que pode ser uma força social importante com qual programa e estratégia podemos enfrentar Bolsonaro, os golpistas e os capitalistas. Ao mesmo tempo, consideramos uma contradição que justamente o PSOL, visto como uma alternativa a esquerda do PT termine não apenas se coligando com o PT em diversas cidades e, mesmo onde apresenta uma candidatura própria como em SP defenda um programa e uma estratégia tão semelhantes ao próprio PT.

Por tudo isso, é urgente um programa anti-capitalista e revolucionário que liguem as respostas para as necessidades mais imediatadas para enfrentar a crise sanitária, econômica e politica com a perspectiva de atacar os lucros capitalistas, enfrentar não apenas Bolsonaro, mas o conjunto do regime golpista e impor que sejam os capitalistas que paguem pela crise. É nesse sentido que consideramos fundamental a defesa do não pagamento da dívida pública, uma dívida ilegal, fraudulenta e ilegítima que canaliza para os banqueiros boa parte das riquezas da cidade, do estado e do país. Defendemos, entre outras propostas, uma reforma urbana radical para acabar com a especulação imobiliária, as moradias precárias e o desemprego.

Seguindo a perspectiva da independência de classes e de um parlamentarismo revolucionário, colocamos nossas forças a serviço de fortalecer a luta extra-parlamentar dos trabalhadores, da juventude e de todos os setores oprimidos. Isso passa por cercar de solidariedade as lutas que estão em curso como a greve nacional dos trabalhadores dos Correios e exigir das direções das grandes centrais CUT e CTB medidas que impulsionem a mais ampla frente única operária e a auto-organização dos trabalhadores contra todos os ataques e chamamos os setores do PSOL e do PSTU a batalharem também nessa mesma perspectiva.




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