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“Já sentiram minha falta?”: o trumpismo mostra que não foi totalmente derrotado em conferência conservadora

A Conferência de Ação Política Conservadora do último fim de semana teve foco em Trump e mostrou que o projeto de Biden de “voltar ao normal” está fadado ao fracasso. O trumpismo, longe de ter sido derrotado em novembro, está aqui para ficar.

terça-feira 2 de março| Edição do dia

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“Me deixem dizer uma coisa a vocês, Donald J. Trump não vai a lugar algum.” Essas palavras do senador Ted Cruz no seu discurso para a CPAC deste ano, que acabou neste domingo, podem muito bem resumir o evento. Enquanto o tema do evento foi oficialmente “América Não-Cancelada” - isso sem dúvida foi inspirado por redes sociais terem banido Trump de suas plataformas em janeiro após o ataque ao Capitólio - o evento foi provavelmente a mais clara demonstração até agora do quanto Trump remodelou o Partido Republicano à sua própria imagem. Essa reunião reafirmou que o trumpismo não foi derrotado.

A CPAC é a maior reunião anual de líderes conservadores e militantes da base conservadora: um “superbowl” da direita, nas palavras do conservador Charlie Kirk, contendo discursos de muitos dos Republicanos mais importantes. O evento costuma apontar a direção na qual o movimento conservador irá seguir nos próximos períodos, e também representa uma oportunidade de dar uma olhada nos “novos talentos” do partido Republicano e seus possíveis novos candidatos à presidência. Entre aqueles que tiveram as melhores recepções e começaram a galgar seu caminho à corrida presidencial de 2024 estavam o governador da Dakota do Sul, Kristi Noem, e o governador da Florida, Ron de Santis, ambos se gabando de terem implementado poucas restrições ao covid em seus estados e de terem mantido suas economias abertas.

Os oradores evitaram discussões políticas para contarem histórias de terror sobre os bichos papões de sempre para a direita: os antifas, George Soros, a China, o “Squad” (grupo de parlamentares mais progressistas), e obviamente, o socialismo. Como indicado pelo tema deste ano, a “cultura do cancelamento”, coisas como “liberdade de expressão” e “politicamente correto” foram cuspidas para todo lado. Alguns dos discursos tinham nomes como “Carta de Direitos, Liberdade e a Cultura do Cancelamento”, “O ataque da esquerda às pessoas livres”, e até “O Caminho para o Futuro: Libertar nossas igrejas, nossas vozes e nossas redes sociais”. Repudiando a retirada de Trump das plataformas, os oradores disseram que os conservadores estão sob ataques do governo, dos grandes monopólios de tecnologia, da mídia e de uma cultura de liberdade de expressão fora do controle, principalmente nas faculdades.

As notáveis ausências na conferência dizem tanto sobre a direção do movimento conservador quanto aqueles que estavam presentes. Críticos de longa data de Trump, os senadores Mitt Romney e Ben Sasse não estavam presentes, e nem o antigo embaixador das Nações Unidas Nikki Haley, que recentemente discursou contra Trump. A parlamentar Liz Cheney, que votou pelo impedimento de Trump nesse último mês e não compareceu à reunião, foi mencionada inúmeras vezes durante as falas do evento. O representante do Senado Mitch McConnell, que votou para absolver Trump, não foi convidado após fazer críticas ao ex-presidente depois da votação. Vários governadores Republicanos “moderados”, incluindo Larry Hogan de Maryland, Charlie Baker de Massachusetts, e Phil Scott de Vermont, recusaram o convite. A mensagem foi clara: o partido agora é de Trump, e seus críticos não devem aparecer.

Essa mensagem reverberou pela CPAC, onde milhares de pessoas vestiam roupas com o “Make America Great Again” e tiraram fotos com uma escultura dourada de Donald Trump com 1,80m de altura, vestido com shorts e a bandeira americana. Em entrevistas, muitos participantes juraram fidelidade a Trump acima do Partido Republicano, e juraram que sairiam do partido se ele não fosse candidato em 2024. Não foi nenhuma surpresa que Trump teve 55% dos votos na tradicional pesquisa de opinião, com De Santis em um distante segundo lugar. Mas o Trumpismo não foi apenas uma questão de estética ou pose: ele cobriu praticamente todos os aspectos da conferência.

Praticamente todas as falas da Conferência se centravam nos temas favoritos de Trump, desde de lei e ordem, China e imigração. De forma consistente ao tema do "não-cancelamento", os oradores também atacaram as empresas de “big tech” e fizeram alegações sem base sobre conservadores serem censurados em redes sociais. Nada menos do que nove falas focaram na fraude eleitoral e na importância de restaurar a “integridade” das eleições americanas. Mesmo que nem todos os oradores abertamente tenha abraçado a noção de que as eleições de novembro foram fraudadas ou roubadas, essa questão está sendo claramente usada para que governadores republicanos aumentem as restrições de votações em seus estados. A conferência de fato confirmou que as placas tectônicas do conservadorismo se moveram - firmemente em direção a Trump.

Demonstrando sua contínua centralidade no movimento conservador, Trump foi o evento principal da CPAC no domingo. Seu incoerente discurso de 90 minutos - tal qual em seus comícios - foi praticamente uma lista dos tópicos favoritos dele, pontuado por aplausos e, em vários momentos, gritos de “nós te amamos” e “você venceu”. Acusações de fraude eleitoral foram, é claro, uma peça central, e ele foi fundo sobre todos os votos fraudulentos e as práticas ilegais usadas para roubar a eleição - uma “desgraça”, segundo ele. Ele também discursou extensivamente sobre manter fronteiras fortes, imigrantes ilegais, lei e ordem, e reclamou sobre as “políticas radicais de imigração” de Biden. Com menos correntes o prendendo agora que não está mais no cargo, Trump repetiu sua infame frase sobre os países da América Latina: “Eles não estão nos dando o melhor deles. Lembram que eu disse isso? Nós estávamos 100% certos.”

Os pontos sobre política externa foram um chauvinismo à lá Trump. Ele mencionou a China 23 vezes - o dobro se contarmos os usos do termo racista “vírus chinês” que ele usou para se referir à covid-19 - e criticou o déficit americano com o país e sua dominância sobre o “futuro do mundo”. Enfatizou também que o NAFTA, o acordo nuclear com o Irã, e o Acordo de Paris eram os “piores negócios”, e que Biden voltar à OMS foi uma “rendição horrorosa”. Trump também se repetiu sobre as “guerras sem fim” e, revisitando outras de suas frases clássicas, disse que “se você vai até lá (Iraque), fique com o petróleo.” Outros alvos de suas falas foram a política energética dos Estados Unidos e o “ridículo Green New Deal”. Ele até mesmo falou sobre mulheres transgênero nos esportes, uma das questões que os conservadores adoram falar hoje em dia, em linha com o painel do dia anterior: “Meus pronomes são Primeiro lugar e Vencer: Protegendo os esportes femininos”.

Quem assistiu ao discurso de Trump estava, sem dúvida, esperando para ouvir sobre seus planos para a candidatura presidencial em 2024. Apesar de não ter declarado abertamente que iria fundar um novo partido, ele não descartou se candidatar novamente. Na verdade até brincou: “A incrível jornada que começamos juntos quatro anos atrás está longe de acabar”, e explicou seus planos para os próximos anos. “Anuncio que estarei ativamente trabalhando para eleger líderes republicanos fortes e inteligentes.”

Mas o valente retorno de Trump aos holofotes conservadores não é um resultado da inércia do partido e nem de uma nova roupagem de seus antigos discursos. Ele é resultado das fraquezas e divisões dentro tanto do partido Republicano quanto do partido Democrata. Políticos republicanos dos postos mais altos nem mesmo foram à CPAC, e Trump fez um chamado para excluí-los do partido. Trump e seus discursos ressoam precisamente porque a presidência de Biden garante as condições para preservá-lo. O projeto de Biden de “retorno ao normal”, restauração da legitimidade da hegemonia e das instituições americanas e a tentativa de retorno à ordem neoliberal que precedeu a presidência de Trump, tudo isso está fadado a dar errado. O trumpismo chegou para ficar.

Nesse sentido, Trump não esteve em nenhum momento desesperado por ter relevância, como algumas mídias mainstream tentam fazer parecer. O partido Republicano, particularmente sua base de extrema direita, ainda se apoia nele e nas questões que o impulsionaram no palco político em 2015, como a imigração e o nacionalismo. Mesmo que ele não concorra à presidência em 2024, ele e seus apoiadores deixaram claro que Trump ainda é o portador do estandarte do movimento conservador, e irá ditar as ordens ao partido nos próximos anos. O senador americano Rick Scott, antigo governador da Florida, multi-milionário e provável candidato a 2024, foi explícito sobre isso, enfatizando que o Partido Republicano não pode levar o partido “para trás”, porque “se nós fizermos isso, perderemos a base trabalhadora que o Presidente Trump conquistou. Perderemos eleições ao redor do país e, no fim, perderemos nossa nação. Não deixaremos isso acontecer.”

Quase quatro meses após a eleição presidencial e um mês após o início do mandato Biden, está claro que o trumpismo e a crise capitalista não irão embora tão fácil assim. A Conferência de Ação Política Conservadora trouxe esses fatos à tona, demonstrando que tanto os militantes de base republicanos quanto seus políticos estão comprometidos com Trump ao longo prazo. Mesmo com todas as promessas de Biden de retorno ao normal, a verdade é que seu governo não oferece nenhuma resposta significativa ao trumpismo. E longe de oferecer uma alternativa à classe trabalhadora, Biden continua a implementar o mesmo programa racista, capitalista e imperialista de sempre. Como socialistas, nossa tarefa não é apenas lutar contra o trumpismo e suas várias formas, mas também devemos lutar contra ambos os partidos do grande capital nos apoiando nas forças da classe trabalhadora, que está sob ataque no governo Biden assim como estava também no governo Trump.

Traduzido de: https://www.leftvoice.org/do-you-miss-me-yet-cpac-shows-that-trumpism-is-here-to-stay




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