Internacional

ISRAEL-PALESTINA

Israel, um Estado fundado sobre a limpeza étnica da Palestina

Josefina L. Martínez

Madrid | @josefinamar14

domingo 10 de dezembro de 2017| Edição do dia

No dia 14 de maio de 1948, o líder sionista Ben Gurion declarou a independência do Estado de Israel, um dia antes da expiração do mandato Britânico sobre a Palestina. Para o povo Palestino, o dia 15 de maio representa o início da Nakba (a catástrofe), o êxodo massivo imposto pelas forças armadas israelenses, a destruição de centenas de aldeias e os massacres de milhares de palestinos. O começo de uma ocupação colonial que continua até o dia de hoje.

Em fevereiro de 1947, os britânicos anunciaram sua decisão de se retirarem da Palestina (onde haviam imposto um Mandato colonial desde 1918) e deixar nas mãos da ONU a resolução de seu futuro.

Desde a década de 1920, com o aval dos britânicos, havia aumentado a penetração de colonos israelenses na Palestina. O movimento sionista promovia a colonização e proclamava a necessidade de um Estado judeu em território palestino. Em 1917, o Lord Balfour havia prometido ao movimento sionista a criação de um “lar nacional para os judeus na Palestina”. Em 1937 os britânicos defendem pela primeira vez a ideia da “repartição” da Palestina entre os habitantes nativos palestinos e os colonos israelenses.

Ben Gurion, o dirigente do movimento sionista desde meados da década de 1920 até os anos 60, tinha exigido em 1942 a totalidade do território da Palestina para a fundação do novo estado.

Depois da retirada dos britânicos, em 1947, a ONU formou um comitê especial para estudar a questão palestina, a UNSCOP. Levou 9 meses para “estudar a situação” e finalmente a Assembleia Geral da ONU aprovou a resolução 181, em 29 de novembro de 1947. Esta resolução estabelecia a repartição da Palestina em dois Estados, outorgando 56% do território aos sionistas.

Um estado colonial

Em dezembro de 1947 os palestinos formavam dois terços do total da população. O outro terço eram os colonos judeus, que em sua maioria tinham chegado depois de 1920. Do total da terra cultivada, a maior parte pertencia à população nativa e somente 5,8% estava nas mãos de colonos judeus. A maioria dos judeus tinha se assentado nas cidades, e existiam colônias judias isoladas no campo.

Mas apesar disto, a ONU assumiu o ponto de vista dos sionistas e lhes entregou mais da metade do território palestino para a constituição de seu novo Estado colonial. Sem considerar minimamente os interesses da população palestina, que se opunha à repartição.

O historiador palestino Waled Khalidi se refere ao conteúdo colonial da resolução da ONU assim: “A população nativa da Palestina, como a população nativa de qualquer outro país do mundo Árabe, Ásia, África, América e Europa, se negava a dividir a terra com uma comunidade colonizadora.”

O historiador israelense Ilan Pappé assinala, além disso, que a resolução entregava a maior parte da terra fértil, quase todo o espaço urbano e rural judeu, e incluía mais de 400 aldeias palestinas. Mais da metade do território palestino era entregue a um movimento completamente reacionário, que anunciava publicamente sua intenção de “desarabizar” a palestina.

Os sionistas aceitaram a resolução 181, festejaram o reconhecimento internacional para seu projeto imperialista, e utilizaram a resolução para conseguir seus objetivos originais, que eram de apropriar-se da maior parte do território palestino. Um ano mais tarde tinham conseguido ocupar 80% do território, depois de expulsar mais de 800.000 palestinos.

O plano de limpeza étnica

“Estas operações podem ser levadas a cabo da seguinte maneira: seja destruindo as aldeias (colocando fogo, explodindo-as e colocando minas entre os escombros) e em especial aqueles assentamentos que são difíceis de controlar de forma constante; ou então organizando operações de pente fino e controle segundo estas diretrizes: rodeia-se as aldeias, realiza-se uma busca dentro delas. Em caso de resistência, as forças armadas devem ser liquidadas e a população expulsa pra fora das fronteiras do Estado.” (Plano Dalet, 10 de março de 1948)

Ilan Pappé, historiador e professor de Ciência Política na Universidade de Haifa, em seu livro “A limpeza étnica na Palestina”, desarma vários dos “mitos fundacionais” da historiografia oficial israelense. Por meio de múltiplas fontes e testemunhos demonstra que houve uma limpeza étnica planificada. Em março de 1948, Ben Gurion e os dirigentes sionistas aprovam o Plano “D” para a limpeza étnica da Palestina.

Uma das principais falsificações do Estado de Israel é que os palestinos “fugiram voluntariamente” para dar passagem aos exércitos árabes. Mas os fatos desmentem isto totalmente. Antes da chegada dos exércitos árabes, entre 30 de março e 15 de maio de 1948, as forças judias já haviam ocupado e arrasado mais de 200 aldeias e expulsado mais de 250.000 palestinos.

Outro dos falsos mitos israelenses é o relato de um “David” indefeso frente aos exércitos árabes, onde a ocupação de terras teria sido consequência de ações defensivas.

A realidade é que os líderes árabes atrasaram o máximo possível sua entrada na Palestina e quando o fizeram, relutantemente, não opuseram uma resistência significativa ao exército sionista, que contava com mais de 50.000 homens e estava equipado de armas enviadas pela União Soviética. Outras 90 aldeias foram arrasadas entre 15 de maio e 11 de junho de 1948, quando começou a primeira trégua.

Além disso Israel contava com um fator chave, o pacto com o Rey Abdullah, com quem tinha negociado repartir e Israel ficaria com 80% da palestina e os 20% restantes seriam para a Jordânia, em troca de sua não intervenção em defesa dos palestinos.

Em um ano, entre o final de 1947 e 1948, 531 aldeias e onze bairros urbanos foram ocupados, destruídos e seus habitantes expulsos.

Algumas das cenas que Pappé reconstrói dão calafrios. Quando milhares de palestinos de Haiffa fugiram para o porto, tratando de escapar em barcos, os militares sionistas abriram fogo na multidão, provocando dezenas de mortes. No assédio à cidade palestina de Acre, seu aqueduto foi contaminado pelos israelenses com vírus de tifo, matando dezenas de mulheres e meninos.

Na aldeia de Saffuriyya, as forças israelenses bombardearam desde o ar para provocar o pânico. Depois seguiu o ataque por terra, não só contra a aldeia senão que contra as cavernas onde mulheres e meninos tinham se refugiado, que foram assassinados. Como neste caso, em muitas aldeias o exército de Israel enfrentou a resistência da população, voluntários locais e milícias do exército árabe de Libertação, mas que não puderam deter a ofensiva sionista.

Ao terminar o ano de 1948, 85% dos palestinos que viviam na zona que o Estado de Israel ocupou se transformaram em refugiados. Segundo dados publicados pelo BADIL (Centro de Documentação para os Direitos de Residência e dos Refugiados), existiam em 2007 cerca de 7 milhões de refugiados e desalojados palestinos no mundo.

Onde por centenas de anos existiram aldeias palestinas, que foram reduzidas a escombros em 1948, hoje existem parques de recreação de Israel e novas aldeias judias. Nisto consistiu a ação de “fazer florescer o deserto” por parte dos sionistas.
Os massacres sobre populações indefesas, a apropriação e o saque de terras e casas, os estupros de mulheres palestinas, o assassinato de meninos e bebês, são os componentes de uma história enterrada e ocultada desde então.

A decisão de Trump de reconhecer Jerusalém como a capital de Israel não só significa um respaldo aberto ao governo direitista e colonialista de Netanyahu, mas também uma provocação aberta ao povo palestino que considera Jerusalém como a capital do futuro estado próprio. As repercussões vieram de imediato não só no rechaço da maioria dos países, mas também nos protestos que começaram em todo o Oriente Médio, uma região que por si já é convulsiva e que com a decisão de Trump, ameaça acender fogo.




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