Internacional

SÍRIA

Irã dá por finalizado o uso de sua base aérea pela Rússia

A base era utilizada por bombardeiros russos para atacar capacetes brancos na Síria. O alarde de Putin gerou tensões no interior do Irã, que decidiu dar por finalizado o acordo.

terça-feira 23 de agosto| Edição do dia

O Irã preferia manter um perfil baixo no acordo a que tinham chegado com a Rússia para o uso de suas bases militares nos bombardeios sobre a Síria. No entanto, o alarde que Putin fez sobre este acordo, que durou tão somente alguns dias, gerou as críticas não somente da Casa Branca, como também dos próprios legisladores iranianos.

Se tratava da primeira vez que uma potência estrangeira usava uma base iraniana desde a Segunda Guerra Mundial. A Rússia e o Irã contribuíram com um apoio militar crucial ao regime sírio de Bashar Al-Assad, nos ataques sistemáticos contra os opositores em todo o território. Nas últimas semanas se multiplicaram os indiscriminados bombardeios russos sobre Aleppo e nos últimos dias o apoio às forças Sírias para bombardear capacetes brancos curdos, pela primeira vez desde o início da guerra.

Na semana pasada, bombardeiros russos de longo alcance Tupolev-22M3 e Sukhoi-34 utilizaram a base aérea de Nojeh, perto da cidade de Hamadán, no noroeste do Irã, para lançar ataques aéreos sobre a Síria. Depois destes ataques e do alarde que o presidente russo fez deles, alguns deputados iranianos qualificaram a operação como uma violação da Constitução, que proíbe "o estabelecimento de nenhuma base militar estrangeira no Irã, inclusive com propósitos pacíficos". Vinte deputados pediram uma sessão extraordinária ao presidente do parlamento para discutir o assunto, enquanto que os setores mais conservadores apontaram diretamente contra o presidente Rouhani.

É por isto que o governo modificou de imediato seu discurso. Segundo a agência Reuters, o Ministro de Defesa iraniano, Hossein Dehghan, rechaçou as críticas mas também repreendeu Moscou por publicizar o assunto, o que descreveu como um alarde e uma "traição de confiança".

"Não demos nenhuma base militar aos russos e não estão aqui para ficar", disse Dehghan, citado pela agência de notícias Fars na última hora do domingo. No entanto, o argumento parecia tardio porque as agências de notícias russas multiplicaram por mil as imagens de seus bombardeiros decolando do Irã e lançando suas bombas sobre capacetes brancos opositores na Síria.

O ministro declarou também que não havia "nenhum acordo por escrito" entre ambos países e que a "cooperação operacional" era temporal e limitada a abastecimento.

O Departamento de Estado estadounidense disse na semana passada que o assunto era "desafortunado mas não surpreendente" e que estavam analizando se teria violado a resolução 2231 do Conselho de Segurança da ONU, que proíbe o fornecimento, venda ou transferência de aviões de combate ao Irã.

A tentativa russa de mostrar-se como um ator chave na região, que além do uso destas bases no Irã inclui a recente reunião com o presidente da Turquia, Erdogan, e os acordos energéticos e armamentísticos com o Azerbaijão, parecem colocar mais tensão em uma situação por si só convulsionada. A ingerência direta ou indireta de potências imperialistas como os Estados Unidos e a Europa, além das potências regionais como Rússia, Irã e Turquia, não fizeram mais que ter um efeito reacionário aprofundando as penúrias dos trabalhadores e do povo sírios, com centenas de milhares de mortos e milhões de desabrigados.

Fonte: Reuters

Tradução: Francisco Marques




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