Sociedade

TRABALHO ESCRAVO

Indígenas Guarani Kaiowá foram submetidos ao trabalho escravo em fazenda no Mato-Grosso do Sul

No último mês, foram resgatados 24 indígenas do povo Guarani Kaiowá de um latifúndio, no qual foram descobertas condições extremamente degradantes aos quais passavam.

domingo 12 de julho| Edição do dia

Fonte: Secretaria de Inspeção do Trabalho/Divulgação

No dia 24 de junho, na região de Itaquiraí, a aproximadamente 420 km de Campo Grande (MS), 24 indígenas do povo Guarani Kaiowá foram encontrados em condições de trabalho análogas à escravidão. Sem EPIs e vivendo em condições degradantes em meio à pandemia, esse caso, assim como os demais, deixa evidente os catastróficos efeitos do racismo estrutural e da crise sanitária, econômica e social sobre os povos indígenas.

Em uma operação que durou aproximadamente 48 horas, 24 indígenas do povo Guarani Kaiowá foram encontrados em condições análogas à escravidão em uma colheita. De acordo com as informações, a remuneração recebida exemplifica o mais absurdo da exploração e mostra a face mais cruel do capitalismo, sobretudo, desde o golpe institucional de 2016 e a ascensão de Bolsonaro à presidência. Os trabalhadores recebiam 18 reais por cada bag, o equivalente a 700 quilos de mandioca.

A quase inexistente remuneração se combinava às extenuantes jornadas de trabalho na colheita, às péssimas condições de moradia e às dívidas do aluguel do local onde moravam. Dessa forma, os trabalhadores trabalhavam, aproximadamente, 12 horas por dia, moravam em edículas insalubres, ao passo que não tinha acesso a EPIs e eram submetidos a um absurdo endividamento. Segundo denúncias anônimas, os indígenas eram recrutados em suas próprias aldeias, com promessas de um trabalho com condições justas, mas a desilusão veio logo em seguida dadas as condições em ques foram submetidos.

Os trabalhadores conseguiram enviar uma mensagem de SMS ao CTI (Coletivo dos Trabalhadores Indígenas), por meio da qual solicitaram ajuda. Desde essa entidade, foi possível encaminhar essa denúncia para o Ministério Público do Trabalho, que enviou auditores fiscais para dar flagrante dessa situação. O trabalho precário que vem atingindo os grandes centros também não deixa de ser uma realidade no campo e dado o cenário onde não se tem concursos para auditores fiscais no estado desde 2010, acaba sendo um prato cheio para latifundiários se aproveitarem dessa debilidade, sem contar de todo o aparato do Estado, nas mãos de Bolsonaro e companhia que vem dando respaldo para atrocidades cometidas por esses exploradores. Mas, tal como esse exemplo, os setores oprimidos e trabalhadores precários não são meros atores passivos, frente a essa situação. Como podemos ver no mundo todo, justamente vemos os setores oprimidos e mais explorados na linha de frente para combater essa situação e podendo indicar transformações profundas a isso. Nos grandes centros, nos deparamos com setores ultra explorados, como os entregadores de apps, lutando para melhores condições de trabalho, como foi no dia primeiro deste mês. Devemos nos apoiar nesses fatos para avançar mais ainda contra esses acontecimentos indignantes.

Conforme nos deparamos com uma crise ascendente do capitalismo, a resposta que vemos dos capitalistas é justamente uma maior exploração em todos os sentidos, a custo da natureza e da vida dos trabalhadores, sobretudo dos povos oprimidos, que passam a ser um mão de obra barata para eles. Essa exploração histórica, muitas vezes sob métodos extremamente violentos, e que vem se agravando desde o início do século, também é combinada com a maximização de lucros de grandes fazendeiros que possuem seus representantes para defendê-los em diversas instâncias, como o próprio presidente Bolsonaro e seu gabinete, incluindo seu vice, Mourão que nas últimas semanas, vem tecendo comentários extremamente racistas sobre os povos indígenas.

Porém, esse acontecimento demonstra como a organização dos indígenas foi fundamental para combater essa situação e num marco de uma explosão de contestações antirracistas no Brasil e no mundo, a necessidade de discutirmos sobre a união dos trabalhadores, abraçando as pautas dos setores oprimidos trata-se de uma questão importantíssima para que consigamos avançar contra a exploração e violência a esses setores. Ao contrário de setores como o PT ou PCdoB, que abraçam os empresários e exploradores que reproduzem essa lógica desprezível de precarizar a vida de trabalhadores em meio a crise, para tentar constituir alguma “Frente Ampla” contra o Bolsonaro, nós acreditamos que só por meio de uma mobilização independente dos trabalhadores e setores oprimidos que conseguiremos enfrentar profundamente Bolsonaro, Mourão e todo esse sistema intrinsecamente racista e que corrói de forma irracional a natureza. É fundamental refletirmos sob a luz de todas as mobilizações que vêm questionando profundamente o racismo em diversas partes do mundo, a relação entre a exploração e a opressão, e como que podemos enxergar um horizonte que não contenha esses sintomas do capitalismo a partir da combinação dessas lutas.




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