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sexta-feira 4 de setembro de 2015 | Edição do dia
POVO INDÍGENA

Indígena Tukano grava um vídeo pedindo socorro a todos os movimentos sociais


“Nas próximas semanas, naquele estado haverá um massacre, haverá uma guerra, porque nós estamos organizados e nossos guerreiros vão se juntar a eles lá e cada um tá fazendo o que pode. Mas nós somos poucos, nós somos muito poucos, e tem um monte de brasileiro que enche a boca pra falar que tem sangue indígena, e na hora do massacre ninguém se mexe.”

Na noite desta quarta-feira, a indígena Daiara Figueroa, da etnia Tukano publicou em seu facebook um vídeo muito comovente. Nele, ela denuncia a situação de guerra em que se encontram diversas comunidades Guarani-Kaiowá do Mato Grosso do Sul, e faz um apelo para todos os movimentos sociais que se unam a causa indígena durante este momento difícil e de barbárie.

A todos aqueles que lutam pelos direitos das minorias chegou a hora de abraçar seu irmão indígena.Pedimos que lembrem...

Posted by Daiara Figueroa on Quarta, 2 de setembro de 2015

Desde o início de agosto cinco fazendas estão ocupadas no município de Antonio João – MS, por indígenas Guarani-Kaiowá que reivindicam estes territórios como parte da terra indígena Ñanderu Marangatu. No último sábado (29), a liderança indígena Semião Vilhalva foi assassinada com um tiro no rosto durante um conflito com fazendeiros.

Em 2005, este território já havia sido homologado pelo então presidente Lula, mas por conta da pressão dos fazendeiros, o ministro do STF, na época Nelson Jobim decidiu anular a demarcação, resultando em um conflito entre fazendeiros e indígenas, onde o indígena Dorvalino da Rocha foi assassinado.

Novamente a história se repete, e a população brasileira e o Estado assistem de braços cruzados o massacre, como fizeram durante toda a história do genocídio indígena.

Na quarta-feira, 2, o ministro da Justiça José Eduardo Cardoso se reuniu com o governador do MS, Reinaldo Azambuja (PSDB), fazendeiros e indígenas para discutir uma possível solução para o conflito. Durante a reunião, o ministro foi interrompido diversas vezes por uma fazendeira enquanto falava e, ao declarar que seria considerado crime qualquer tipo de incitação à violência na região, ouviu gritarem “não tenho medo de você”, demonstrando claramente como entre os latifundiários as coisas ainda se resolvem no “olho por olho”.

Lideranças indígenas não guardam muitas expectativas quanto as decisões que serão tomadas nos próximos dias. Depois de experienciar diversas mesas de debate que procuravam resolver outros conflitos de terra, como o caso de Buriti em Sidrolândia, já se sabe o quanto os fazendeiros são intransigentes e provavelmente não aceitem o valor das indenizações oferecidas pelo Estado.

Hoje, às 10h, ocorreu na Esplanada dos Ministérios um ato de resistência Guarani-Kaiowá organizado por estudantes indígenas da UnB exigindo a demarcação dos territórios e justiça aos assassinatos de lideranças nos últimos anos, um funeral foi simulado durante o ato.

Em São Paulo, na segunda-feira, dia 7, os indígenas Tupinambá de Olivença organizarão um ato pela demarcação de seu território e dos demais territórios indígenas. O local e o horário serão divulgados na página Primavera Tupinambá.

Na Matilha Cultual, no dia 8 às 19h irá ocorrer um encontro para discutir medidas concretas que possam ajudar e dar visibilidade para a luta Guarani-Kaiowá no Mato Grosso do Sul.

Pela primeira vez, vamos nos unir a esta causa

“Eu quero dizer pra vocês, que se vocês não abraçarem essa causa vocês não vão ser merecedores de suas bandeiras, porque nós somos os povos originários dessas terras, e o genocídio dos povos indígenas é o maior genocídio da história da humanidade.”

Em 515 anos da história do Brasil, o genocídio contra os povos indígenas conseguiu se marcar na história como o mais cruel da humanidade. Ao invadirem estas terras, estima-se que mais de 4 milhões de pessoas vivessem apenas no que hoje identificamos como território brasileiro. Em cerca de 300 anos após esta chegada violenta, a população indígena havia sido reduzida a apenas 100 mil indivíduos.

Os crimes que ocorreram contra indígenas desde que o Brasil se consagrou como uma República independente, em nada se dissociam do que foi o genocídio que se deu em trezentos anos. Muito pelo contrário, eles são uma continuação de uma barbaridade que nunca teve fim e que a nossa sociedade, quiçá por vergonha, preferiu ignorar e mascarar em seus livros de história.

O vídeo de Daiara nos mostra fortemente isso. Embora diversos movimentos sociais tenham se erguido e massificado ao longo do tempo, dialogando entre si, ou ao menos tendo consciência da existência de cada um e de sua importância, o movimento indígena ficou esquecido. Teve que se erguer por ele mesmo durante a história. Teve que guerrear para garantir seus direitos na constituição em baixo de assassinatos e agressões graves contra seu povo. Enquanto o povo se maravilhava com documentários exibidos pelo programa fantástico, mostrando indígenas e seus costumes exóticos nos lugares mais isolados da Amazônia, guerreiros continuavam morrendo para garantir alguns direitos que foram assegurados apenas há 27 anos na Constituição Brasileira. E agora o agronegócio quer tomá-los de novo por meio de medidas anti-indígenas como a PEC 215, ou destilando preconceitos e mentiras entre a população, que cada vez menos esconde seu racismo e ódio contra os povos originários.

Neste momento de crise, se faz importante que escutemos esses povos e nos posicionemos ao seu lado. O Brasil deve parar de romantizar a imagem indígena, e assumir esse sangue para se colocar em luta com os inúmeros guerreiros que tem tomado ruas e fazendas em nosso país.

Enquanto ficarmos em silêncio, não divulgarmos a voz destes povos e não nos indignarmos com o maior genocídio da humanidade, seremos tão coniventes para a morte de lideranças como Simião Vilhalva, quanto são estes fazendeiros que lhes apontam o fuzil todos os dias no rosto.