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Incêndio no Museu de História Natural da UFMG pode ter destruído acervo único

Segundo o ex-diretor Antônio Costa, peças históricas do museu foram destruídas. Não é a primeira vez que vemos parte incalculável das nossas memórias se consumirem em chamas, consequência do descaso do Estado pela cultura e pela pesquisa científica.

Elisa Campos

Coordenadora do CAFCA-UFMG

terça-feira 16 de junho| Edição do dia

Peças importantes podem ter sido destruídas pelo incêndio que começou por volta das 5h25m da manhã de segunda (15) em um dos prédios do Museu de História Natural da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). O museu fica no bairro Horto Florestal, região leste da cidade de Belo Horizonte, em uma área preservada de quase 600.000m² típica da Mata Atlântica, que não foi atingida pelo fogo. O museu é composto por um acervo de 265.664 itens das áreas de Arqueologia, Paleontologia, Geologia, Botânica, Zoologia, Cartografia Histórica, Etnografia, Arte Popular e Documentação Bibliográfica e Arquivística.

A UFMG dará a dimensão do prejuízo após perícia, mas Mariana de Oliveira, diretora do local, afirma que certamente afetou uma área muito importante do acervo. Antônio Gilberto Costa, ex-diretor do museu e atual professor do Instituto de Geociências da UFMG, disse em entrevista que “Muita coisa se perdeu, coisas fantásticas da paleontologia”. O professor afirmou que pelas imagens é possível inferir que parte do acervo orgânico, parte da zoologia, peças de cerâmica do Vale do Jequitinhonha, além da rara coleção arqueológica do pesquisador inglês Harold Walter, que reunia ossos e fragmentos do homem de Lagoa Santa, podem ter sido destruídos.

“O grande problema é que esse acervo era único. Tinha coisas importantes não só para Minas, mas que contavam a evolução do homem”, disse Antônio Costa. Ainda, o ex-diretor acusa a reitoria da UFMG por negligência e omissão. À frente da direção do museu de 2013-2019, disse que “É uma situação que sabia que ia acontecer. Quando houve o incêndio no Museu Nacional (no Rio de Janeiro, em 2018), nós alertamos a universidade sobre o risco”. A equipe de funcionários que trabalha no museu havia inclusive formulado um plano de segurança para situações de emergência, mas que nunca foi aprovado pela reitoria. “Se a universidade quer manter esses museus, ela tem que se preocupar com isso”, denunciou.

Não é a primeira vez que vemos materiais históricos se queimarem nos museus brasileiros. Em nota anexa no final dessa notícia, os estudantes da UFMG dos Centros Acadêmicos de Museologia (CAMUS) e de Conservação e Restauração de Bens Culturais Móveis, (CENACOR) relembram exemplos de incêndio em equipamentos culturais nos últimos anos no Brasil. O abandono das políticas de segurança e manutenção dos museus não é um acidente. É um descaso desse Estado (com “E” maiúsculo), que gerido governo após governo não tem, nas engrenagens produtivas do capitalismo, nenhuma prioridade para a cultura, a memória e a história.

No governo atual de Bolsonaro esse descaso sistemático se expressa das formas mais revoltantes. Ora, nem precisamos ir muito longe, pois foi apenas um dia antes do incêndio no Museu de História Nacional da UFMG que Weintraub, ministro da educação, disse em uma manifestação golpista: “(...) eu quero ter mais médico, mais enfermeiro, mais engenheiro, mais dentistas. Eu não quero mais sociólogo, antropólogo, não quero mais filósofo com o meu dinheiro”. Essas e outras tantas declarações onde as ciências humanas são inferiorizadas em relação a outras áreas do conhecimento, junto a falta de repasses de verbas, de contratações de profissionais, de políticas de preservação, produzem tragédias como a de ontem. Ou ainda, como faz o governo Zema, quando as iniciativas culturais são constantemente entregues nas mãos de empresas privadas.

Os museus são frutos do trabalho cuidadoso de muitas mãos, entre pesquisadores, professores e estudantes, para construir uma memória que se expresse materialmente, que nos conecte historicamente a tempos onde não existimos individualmente, mas que fazemos parte coletivamente através desses esforços. Cada peça queimada tem um pouco de nós em suas cinzas.

Confira a seguir a nota dos Centro Acadêmicos CAMUS e do CENACOR da UFMG:

Nota Oficial do CAMUS e do CENACOR UFMG sobre o incêndio ocorrido no Museu de História Natural e Jardim Botânico da UFMG - MHNJB

O Centro Acadêmico de Museologia, CAMUS, e o Centro Acadêmico de Conservação e Restauração de Bens Culturais Móveis, CENACOR, da Universidade Federal de Minas Gerais, UFMG, vem a público prestar sua solidariedade ao catastrófico incêndio ocorrido no Museu de História Natural e Jardim Botânico da UFMG, MHNJB, nesta manhã de segunda-feira, 15 de junho. E se coloca à disposição de toda a equipe do Museu para auxiliar no que for preciso.

Todos os anos os Museus vêm sofrendo um grande histórico de perdas ocasionadas pelo descaso das faltas de repasses financeiros, falta de editais e concursos de contratação de profissionais habilitados para atuação nas instituições, falta de políticas de preservação contra incêndios, falta de gestão de risco, falta de estruturas e materiais adequados para o armazenamento seguro dos acervos, entre outras faltas igualmente graves. Estas representam o enorme projeto de sucateamento das instituições públicas, o descaso com a cultura e com a ciência. A UFMG, nos últimos anos, vem sofrendo um enorme corte de verbas por parte do governo federal, o que significa um investimento menor em pesquisas e manutenção de seus espaços. O incêndio no Museu de História Natural e Jardim Botânico, assim, como outros incêndios em espaços similares que já ocorreram no Brasil, são retrato de um descaso com a cultura, a educação e o patrimônio por parte dos governos. Esses incêndios não são acidentes, coincidências ou casos isolados, são resultados de uma política neoliberal de desmonte da cultura e das instituições públicas, imposta para nós todos os dias - política essa que prioriza iniciativas privatistas e que vem destruindo espaços que foram conquistados com muita luta e organização da sociedade civil.

A importância de profissionais qualificados dentro das instituições é de fundamental importância nesses momentos de tragédias que atingem os bens culturais. Enfatizamos a atuação de antropólogos, arqueólogos, bombeiros, conservadores, historiadores, museólogos, e demais profissionais que atuam em prol da cultura e do patrimônio.

Nos colocamos à disposição como possíveis articuladores dos discentes, caso a instituição necessite de auxílio de voluntários do curso de Museologia e de Conservação e Restauração, cabendo em nossa responsabilidade, junto a coordenação, fazer o levantamento de possíveis interessados em ajudar o Museu.

Lembramos que o IBRAM tem em aberto um banco de dados para cadastramento de voluntários no trabalho de auxílio a salvaguarda de bens culturais no Brasil: Link na Bio.
Alguns exemplos de incêndio em equipamentos culturais dos últimos anos no Brasil:

2005 - Arquivo psiquiátrico do Juqueri
2010 - Instituto Butantã
2012 - Biblioteca Pública Estadual de Minas Gerais
2013 - Centro Municipal de Cultura de Gramado, Memorial da América Latina, Museu de Ciências Naturais da PUC Minas, Teatro Municipal de Botucatu, Museu do Índio, e Instituto Chico Mendes
2014 - Centro Cultural do Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo
2015 - Museu da Língua Portuguesa
2016 - Cinemateca Brasileira
2018 - Museu Nacional, Biblioteca Pública do Maranhão
2020 - Museu da História Natural e Jardim Botânico da UFMG

Estamos em luto e em luta!




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