Política

COLETES AMARELOS

Imprensa argentina faz fake news para explicar os protestos na França

Utilizando uma nota publicada originalmente em um jornal dos Estados Unidos, a mídia argentina tenta ocultar o profundo descontentamento social na França, reduzindo as manifestações a uma recusa em pagar por energias limpas.

sexta-feira 7 de dezembro| Edição do dia

Como explicar que durante mais de três semanas as manifestações dos “coletes amarelos”, que colocaram o governo de Emmanuel Macron a prova, não se tratam da expressão do descontentamento com as medidas de austeridade e as reformas impostas pelo governo francês?

O jornal argentino La Nación encontrou a solução. Depois de semanas de protestos, com imagens que recorreram o mundo do centro de Paris cheio de barricadas, La Nación aproveita um artigo publicado originalmente no Washington Post para analisar a crise francesa e reduzi-la a “um sintoma da recusa em pagar por energias limpas”. Uma verdadeira “fake news” para ocultar a questão de fato.

A “taxa ecológica”, o eufemismo usado pelo governo francês para justificar o aumento do diesel, foi somente a gota d’água que despertou o movimento dos “coletes amarelos”, que é conformado majoritariamente pela classe operária branca que empobreceu devido a desindustrialização relativa na França desde 1980, também por empreendedores de profissões independentes, assim como, em menor medida, por pequenos patrões, ou seja, setores que formam uma classe média empobrecida.

Para confirmar que não se trata de nenhuma medida ecológica, e sim de colocar imposto aos setores mais pauperizados enquanto dá benefícios às empresas (incluindo as petroleiras), basta ver o exemplo de que a petroleira Total obtém 9 bilhões de euros de lucro líquido e não paga imposto.

Soa ridículo, mas o jornal argentino busca instalar a ideia de que os protestos se tratariam simplesmente de cidadãos que não se importam com o planeta e que foram manipulados pelos discursos de setores contrários ao “Acordo de Paris”, próximos à extrema direita. “A política climática não só gera entusiasmo. Também excita ira nos movimentos populistas de direita” diz o artigo em um de seus parágrafos. Mas devemos dizer aos editores desse jornal argentino que, mais além da utilização que o presidente dos EUA fez das manifestações para reivindicar sua oposição ao Acordo sobre a mudança climática, ninguém incendeia o centro de Paris simplesmente para poder queimar mais dióxido de carbono.

A nota não aprofunda sobre o tema da questão climática, um problema que nem os governos que apoiam o acordo de Paris dão resposta, menos ainda os governos que se opõem, cuidadosos em não tomar medidas que prejudiquem o lucro das grandes empresas capitalistas. A notícia simplesmente reduz a explosão social francesa a uma questão em que as “tentativas para fixar preços à emissão de carbono se chocam com uma feroz oposição”.

Longe dessa explicação simplista e intencionada, a crise é muito mais profunda. Como disse um dos manifestantes à rede BFM TV ao ser consultado pelo motivo dos protestos: “Isto é o que acontece quando o povo tem fome”. Algo explica por que, mesmo depois que Macron retrocedesse na aplicação do imposto ao diesel, a resposta dos “coletes amarelos” tenha sido “Os franceses não querem as migalhas que o governo lhes dá. Queremos a baguete inteira”, aludindo que as manifestações continuariam por um conjunto de demandas que incluem, entre outras, o aumento do salário mínimo e pela volta da aplicação do imposto sobre as grandes fortunas, que foi revogado por Macron para beneficiar as grandes empresas e riquezas.

As medidas de austeridade e as reformas impostas pelo governo, como a reforma trabalhista, fizeram com que o governo francês acreditasse que seu avanço sobre os direitos sociais, com a consequente piora das condições de vida de milhões, era imparável. Enquanto Macron pensava estar fortalecido por cada avanço em suas reformas, contrariamente ia gestando uma perda de legitimidade e descontentamento que explodiu no setor em que a representação política dos partidos e das organizações tradicionais era mais débil.

Fica difícil acreditar que os editores do jornal argentino La Nación transmitam essa realidade francesa. A utilização de um artigo que relaciona as manifestações dos “coletes amarelos” com o discurso de governos e setores que se opõem ao Acordo sobre a mudança climática de Paris, não é simples casualidade. Funciona como uma verdadeira “fake news” que camufla a situação.

Desta maneira a crise francesa se reduziria somente aos “impostos sobre o clima”, deixando fora os motivos do descontentamento social ao conjunto dos ataques que Macron vem levando. Sendo somente esse o erro, os editores e a mídia podem respirar tranquilos e manter seu apoio às medidas de ajuste tomadas pelo governo do presidente argentino Mauricio Macri, que possui projeto e planos de ajuste muito parecidos aos impostos pelo governo francês.

Enquanto Macri reivindica a reforma trabalhista de Macron e dos golpistas aqui no Brasil como um modelo a seguir, ninguém que liga a televisão e vê o que está acontecendo na França pensa o mesmo sobre as reformas. Não é casual tantas coincidências entre tais governos, Macron, Macri, os próprios golpistas como Temer e futuro presidente do Brasil, Bolsonaro. Durante a Reunião de Cúpula do G20, uma cronista comentou que tanto Macron como Macri são vistos como os presidentes que “governam para os ricos”.

Mas o retrocesso do governo francês no aumento do imposto mostra o valor da mobilização massiva e da luta nas ruas para que se retrocedam as medidas de ajuste. Isso vale para a França, para a Argentina e para o Brasil.




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