Opinião

COLUNA

Imperialismo em tempos de Covid

Simone Ishibashi

Rio de Janeiro

quinta-feira 25 de fevereiro| Edição do dia

Desde que a pandemia do Covid irrompeu sobre o mundo, as divisões mais marcantes da hierarquia e disputa entre as nações tomou novos contornos. No início foram os fechamentos de fronteiras, a campanha racista de Trump contra a China, e as demonstrações do elevadíssimo custo em vidas que o desmantelamento da Saúde pública causou nos países centrais, como nos Estados Unidos. A principal economia do mundo, aliás, atingiu ontem a terrível marca oficial de 500 mil mortos oficiais, escancarando os efeitos de décadas de ataques aos trabalhadores. A irracionalidade e decadência capitalista saltam aos olhos quando é justamente do principal imperialismo que emanou a onda de negacionismo de Trump, replicada com requintes de cinismo por Bolsonaro.

Agora, um ano após a explosão da pandemia torna-se claro que ela veio para ficar. Novas cepas, como as variantes inglesa, sul-africana, e até mesmo uma carioca, emergiram no cenário, aprofundando as incertezas. Mas não se pode considerar que isso seja meramente natural, embora em se tratando de um vírus é de conhecimento geral que as mutações se colocam como algo certo. As mortes, os relatos dos parentes que perdem seus entes queridos todos os dias, as seqüelas graves e cada vez mais evidentes, inclusive para os que tiveram a forma considerada leve da doença, são as conseqüências do vácuo total de qualquer plano coerente por parte dos governos para lidar com a pandemia. No começo não havia testes, e a quarentena foi possível apenas para uma parcela da população. No Brasil a parca estrutura montada na primeira onda, foi rapidamente desfeita, e o clamor dos empresários atendido sem pestanejar demonstra que no capitalismo sim, o lucro está acima da vida das pessoas.

Na atual conjuntura a irracionalidade capitalista assume uma nova face. Enquanto já está em andamento a produção de várias vacinas pelos maiores monopólios farmacêuticos do mundo, os índices de mortes e contaminação dão saltos. É evidente que a vacina não é o elixir da humanidade. Mas salta aos olhos como a ganância capitalista é predominante. As patentes seguem mantidas, a produção e distribuição à população que necessita dos imunizantes está absolutamente condicionada à manutenção dos lucros da big pharma, e às formas que as tensões entre os governos e Estados assumem no atual tabuleiro internacional.
Nesta mesma coluna, há algumas poucas semanas, debatemos com a correção do pressuposto de Zizek de que um novo senso de solidariedade poderia emergir como produto da situação marcada pela pandemia, contra as leituras distópicas da realidade que falsamente concebem a destruição da humanidade como algo mais palpável que uma revolução. Mas se o pressuposto indicou um caminho interessante, não podemos dizer o mesmo sobre a hipótese que levanta acerca do sujeito desse novo senso de solidariedade. Zizek saúda entusiasticamente os donos da BioNtech, um dos grandes capitalistas, por exortar seus concorrentes da big pharma a também desenvolverem imunizantes.

Esse tipo de ilusão não se sustenta. Seja para avaliar a ação de um capitalista individual, como o fundador da BioNtech, seja para analisar as movimentações dos países frente à pandemia. Na segunda-feira, dia 22 de fevereiro, o próprio diretor geral da OMS, Tedhros Adhanom, denunciou que os países mais ricos do mundo estão minando a possibilidade de uma repartição das vacinas. O presidente alemão também declarou o óbvio fato de que quando os países imperialistas elevam sua demanda pelas vacinas, elas faltarão para os países que integram o Fundo de Acesso Global para as Vacinas da Covid (do qual, aliás, o Brasil de Bolsonaro negacionista não faz parte). Para que se tenha uma idéia, os países centrais mais importantes do planeta já tinham assinado contratos para terem acesso a vacina em quantidades que superam de 3 a 7 vezes sua população. Cerca de 24% das vacinas tiveram como destino os Estados Unidos, com um total de 74 milhões de doses. A China, mesmo não figurando entre o rol de países imperialistas clássicos adotou essa mesma postura, adquirindo 14% da produção. Já os países da União Europeia reuniram um total de 12,5% respectivamente.

Lênin, em sua célebre obra de 1917 “O Imperialismo, fase superior do capitalismo”, dava conta dos enormes efeitos que a inauguração da época imperialista trazia. Essa nova época é marcada pela substituição do capitalismo de livre concorrência pelo monopólico, e exacerba a competição entre os monopólios de forma até então inaudita. Conseqüentemente, no plano internacional as nações atuariam “umas em detrimento de outras”. Este é um modus operandi que assumiu várias formas concretas desde que Lênin sintetizou suas teses. Mas isso nunca alterou o fato de que essa natureza da época imperialista se mantém absolutamente vigente. Mesmo sob discursos mais multilaterais, e aparentes ou circunstanciais colaborações inter-estatais, a busca pela defesa dos interesses próprio de suas nações sempre deu a tônica. As nações imperialistas sempre atuaram em defesa de seus interesses imediatos e estratégicos, submetendo, saqueando e dominando as demais. No caso do acesso à vacina e das respostas para lidar com a pandemia não seria diferente. Esperar que as nações imperialistas sejam acometidas por uma crise de consciência e passem a colocar como primeira hierarquia a defesa de um bem comum, sem que as bases do imperialismo sejam questionadas, é igualmente uma ilusão. A crise atual é internacional, e muitas coisas mudaram desde Lênin. Mas uma que não mudou é que tais saídas só podem ser dadas em profundidade pelos trabalhadores e povos do mundo.




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