Cultura

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Imagens do proletariado

Afonso Machado

Campinas

terça-feira 4 de outubro| Edição do dia

O entendimento que a classe trabalhadora possui da sua condição histórica, pressupõe a imagem que esta mesma classe faz de si mesma. Mas por que em várias situações as lentes dos óculos do proletariado ficam tão embaçadas? Obviamente que se trata de um problema político, de organização e direção política: o partido, o sindicato, os conselhos e os movimentos sociais em geral, são instrumentos necessários para a educação política. Porém, sem negar a importância de tais instrumentos, devemos inserir igualmente a questão estética como parte do problema político: numa sociedade em que as imagens do proletariado são muitas vezes criadas por aqueles que defendem a ordem capitalista, a consciência de classe permanecerá atrasada se a esquerda não pensar o rosto da classe trabalhadora.

O problema da imagem coloca novamente no centro da roda as questões relacionadas à arte. Todos sabemos que artistas progressistas não são executores de ordens políticas. Certamente eles tem mais o que fazer do que ficar realizando uma profissão de fé política. É de uma total falta de imaginação achar que o artista socialista é aquele que apenas representa os problemas econômicos decorrentes do capitalismo. Trotski mostrou que o buraco é bem mais embaixo: (...) “ É falso que só consideramos nova e revolucionária a arte que fala do operário. Não passa de absurdo dizer que exigimos dos poetas apenas obras sobre chaminés de fábricas ou sobre uma insurreição contra o capital “(...). Ou seja, as iniciativas revolucionárias em arte não se restringem a uma temática proletária. Mas por que iniciei este artigo falando sobre a necessidade de pensarmos as imagens da classe trabalhadora?

Certo, a maioria de nós defende( e com razão) que a contribuição da arte para a ruptura com os valores da classe dominante passa por diferentes projetos estéticos, muitas vezes conflitantes entre si. Isto é necessário para que retiremos do horizonte cultural da esquerda a deplorável ideia de pensamento único. Feita esta premissa, é preciso em seguida explicar a necessidade de apoiar as tendências artísticas revolucionárias que abordam os problemas do proletariado: estamos hoje sofrendo com uma onda reacionária que tenta, por todos os lados da cultura, massacrar a consciência de classe. Se por um lado a arte interessada na emancipação humana não é apenas aquela que trata dos conflitos entre capital e trabalho, por outro os artistas contestadores não podem negligenciar a importância de obras que contribuem com a tomada de consciência sobre o problema social. Esta é uma questão da maior gravidade, visto que os efeitos da terceirização estão inclusive na consciência dos indivíduos das diferentes categorias de trabalhadores que muitas vezes não se veem como parte de uma classe. A arte ajuda a preparar o terreno da luta operária: se o trabalhador explorado hoje não corresponde apenas aquele modelo que Charles Chaplin imortalizou no sensacional filme Tempos Modernos(1936) , devemos pesquisar novas realizações visuais capazes de fazer com que o trabalhador entenda o seu papel na engrenagem. Não é movido por um humanismo burguês que o artista de esquerda escolhe abordar o drama proletário: as próprias conquistas estéticas do século passado, estão ameaçadas de escorrerem pelo ralo do relativismo pós moderno se os artistas não compreenderem que uma nova cultura, livre e promotora das potencialidades criativas do humano, depende do sucesso político das lutas do movimento operário.

Um grave problema dos nossos dias é que em muitos casos as imagens da classe operária não são feitas por gente de esquerda. A produção de imagens dos trabalhadores que serve a propósitos conservadores, possui uma de suas raízes modernas em Goebbels: os nazistas realizaram a falsa integração política do trabalhador por meio da imagem, ou seja, sua representação em torno das noções de povo e nação sem que as relações de produção fossem modificadas(Walter Benjamin observou com muita perspicácia esta questão). A habilidade ideológica dos conservadores permite representar os trabalhadores e ao mesmo tempo defender o capitalismo. A resposta da esquerda contra as técnicas de manipulação de massa, está na produção de imagens que almeja uma reflexão sobre a sociedade de classes; portanto uma das tarefas políticas da arte e daqueles que pensam os problemas da percepção, é elaborar a imagem revolucionária daqueles que erguendo a produção material nas costas foram relegados à condição de personagens secundários da história.

Da pintura ao cinema, da gravura à fotografia, encontramos vários exemplos de artistas brasileiros que defenderam os interesses históricos dos trabalhadores. A arte social mergulhou na realidade concreta. Quem seria o trabalhador brasileiro? Quais seriam as suas reais condições de vida e quais seriam as suas peculiaridades culturais? Durante o rápido flerte de Tarsila do Amaral com a esquerda, a pintora brasileira ofereceu importantes dicas estéticas no quadro Operários(1933). Apesar desta pintura ser hoje em dia exaustivamente reproduzida em livros escolares, cartazes e exposições, ela é um valioso ponto de partida para pensarmos a cara da classe operária brasileira. Por mais que aparente ser arroz com feijão dentro do cotidiano, Operários é uma obra que deve ser discutida sempre: embarcando com tintas e ideologia na proposta artística que visa retratar operários de uma mesma corporação(proposta esta que durante o início dos anos 30, fazia muito a cabeça de vários artistas socialistas da Europa), Tarsila apresenta os rostos de operários caracterizados por uma diversidade étnica. Nosso proletariado, que historicamente foi marcado pela miscigenação, possui um rosto plural, uma riqueza cultural aprisionada numa mesma realidade econômica: a exploração capitalista. As imagens reveladoras desta diversidade étnica que necessita de uma unidade política de luta, sempre foram reprimidas na consciência do proletariado.

Existem diversas situações ideológicas na arte brasileira. Historicamente encontramos projetos de europeização e de marginalização descarada que colocam a população sob a condição de espectadora passiva dos processos políticos do Brasil. Diante disso, deve-se valorizar na educação política dos trabalhadores, a arte social promovida no século XX por artistas como Lívio Abramo(já já eu volto a falar dele). Não é possível apreciar os chamados efeitos plásticos de uma obra socialmente comprometida deixando de lado seu conteúdo: é preciso partir da sua vigência estética para valorizar sua proposta política.

Hoje o aumento das tensões sociais pode intensificar um nítido antagonismo de classe no campo da representação artística. Logicamente que a classe dominante continuará produzindo imagens mentirosas. Quanto aos artistas de esquerda, é preciso pesquisar e tocar o barco nas mais variadas frentes de combate cultural. O estudo de nossa arte que procurou uma visão crítica e original da classe operária, é uma etapa necessária para realizarmos um passo importante. Neste sentido seria legal aprender com o trabalho de um artista como Lívio Abramo: dentro da arte social dos anos 30, ele foi o primeiro artista no Brasil que partiu dos avanços estéticos da arte moderna(especialmente do expressionismo alemão) para se chegar a um realismo social que flagra a diversidade cultural coexistindo com a miséria proletária. Sem cair na conversa mole da exaltação nacionalista, Abramo nos lega gravuras que ainda possuem poder de fogo e portanto podem ser relidas pelos artistas de hoje em dia. A luta ideológica no campo da imagem mal começou.




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