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TEORIA: DEFESA DO MARXISMO

Igualar para confundir, a máxima de Pondé para atacar o marxismo

quarta-feira 3 de outubro| Edição do dia

Na segunda-feira (dia 17/09), Pondé escreveu um artigo para a Folha de São Paulo criticando o PT e igualando diferentes experiências históricas do século XX no intuito de generalizar suas críticas ao conjunto da “esquerda”. Nesse artigo buscaremos destrinchar melhor as diferenças desses processos históricos de luta e a necessidade de um partido revolucionário de trabalhadores, de tipo leninista, que nada tem a ver com a conciliação de classes petista

Pondé busca no início de seu artigo fazer uma caracterização simplista daquilo que é o PT na política nacional e internacional, o descrevendo como uma Quimera da velha esquerda dos Partidos Comunistas ocidentais (a via chilena de transição pacífica ao socialismo) e uma suposta “nova esquerda” de universidade. Que sabemos não ter preocupação real alguma com a transformação radical da sociedade, distante das ideias de Marx e Engels.

A confusão da sua definição deve ser analisada a luz da tentativa constante da burguesia e dos ditos “liberais” – No seu caso está mais para neo-liberal com traços reacionários, como sua crítica barata ao feminismo – de assimilar a política revolucionária com as direções stalinistas e reformistas de todo tipo, que em momentos de bonança capitalista atuam como pata esquerda do regime, traindo as lutas da classe trabalhadora, e em momentos de crise servem como espantalhos para aumentar o ceticismo na revolução, coisa que esses partidos como PCB e PT jamais tiveram compromisso.

PT: Um partido fruto da derrota de um ascenso operário

Se é verdade que o PT é resultado da experiência dos trabalhadores, criado por esses bravos lutadores das ondas de greve do ABC no final dos anos 70 – quando o regime da Ditadura Militar começava a ruir e necessitava de uma transição pacífica a democracia burguesa – é também verdade que o papel que cumpriu Lula e o que depois se conformou na CUT e no PT foi de garantir essa transição pacífica, traindo a luta desses operários e limitando o horizonte desse processo: Não é hora de revolução, devemos disputar o Estado burguês e fazer uma política onde todos saiam ganhando, inclusive os militares!

Esse “novo sindicalismo” – que de novo não tem nada – remete as raízes da atuação do antigo PCB, que durante o século XX sob direção stalinista e com a orientação vinda da III Internacional já burocratizada atuava como “polícia política” do PTB de Vargas e Jango nos sindicatos que dirigiam. Em nome de “combater” o fascismo a orientação geral para os PCs do mundo todo era se aliarem aos ditos “setores progressistas” da burguesia e numa estratégia de conciliação de classes garantir a perpetuação do regime burguês, onde nunca era a hora dos trabalhadores se erguerem contra esse sistema de exploração e avançarem, como fizeram os bolcheviques em 1917, rumo a uma sociedade sem exploradores e explorados.

Sendo assim a construção do PT se deu reafirmando a conciliação de classes. Tal como vemos nas eleições atuais, com o projeto petista que seguirá com os ajustes impostos pelo imperialismo, que nada mais são que ataques aos direitos dos trabalhadores e dos povos oprimidos, como a chama responsabilidade fiscal e outros. Portanto se é verdade que o PT representa algum tipo de velha política no Brasil, essa é a da conciliação de classes e não a da revolução, como Pondé tenta distorcer.

A concepção de Partido Leninista e a atual configuração dos partidos políticos

A crítica simplista de Pondé ignora um longo debate histórico entre a concepção de partido que devem adotar aqueles que buscam a revolução, que teve seu início nas intensas polêmicas entre a social-democracia alemã e os bolcheviques russos.

Os primeiros defendiam que o partido deveria ser uma organização de massas, agrupando a classe de conjunto com suas profundas diferenças no nível de consciência e sendo funcional a estratégia eleitoreira em que se degeneraram, portanto mais importante do que ter um número de militantes ativos da vanguarda operária de consciência mais avançada,atuando para dirigir milhões e cada vez mais elevar o nível de consciência de camadas mais amplas, era se basear nos organismos rudimentares de organização como os sindicatos para ter uma base passiva que só se ativava para colaborar nas organizações eleitorais ou para participar da “gestão” de seus aparatos (sindicatos, cooperativas, etc.). O importante para o partido era eleger cada vez mais parlamentares e controlar a classe com sua burocracia sindical para pressionar a burguesia e manter seus privilégios na democracia burguesa, abandonando o horizonte revolucionário.

Já os bolcheviques queriam construir um partido de vanguarda operária que tivesse uma influência de massas com as suas ideias, um partido comunista que se define pela estratégia e pelo programa levantados. Nesse caso deveriam contar com uma base solida de militantes permanentes, com uma consciência mais avançada que o nível médio da classe de conjunto. A estratégia aqui era justamente contar com os destacamentos mais ativos para “em momentos de paz” disputar os sindicatos e participar das eleições, mas sempre com a perspectiva de forjar uma direção política e frações revolucionárias nas principais concentrações operárias da indústria e serviços e batalhando para construir os conselhos operários – no caso russo os “soviets” – para justamente superar a lógica corporativista e hegemonizar setores aliados (campesinato, pobres urbanos, etc.) para que esses conselhos se consolidem como a base para a construção do exército revolucionário, portanto a condição para a tomada do poder, e também do novo Estado, esse operário, que avance na expropriação dos exploradores e nas demandas sentidas por esses aliados através do programa revolucionário.

Esse partido que descrevemos, por sua vez, deve internacionalista, pense de forma conjunta e organizada a estratégia para o avanço da revolução mundial no combate ao imperialismo, utilizando as experiências de luta dos trabalhadores de um determinado país como exemplo para a atuação de suas outras seções, uma vez que o sistema capitalista é mundial um novo sistema que o supere só pode existir também nesses marcos, assim a revolução adquire caráter nacional em sua forma (revolução num determinado país), mas internacional em seu conteúdo socialista.

Com o processo de stalinização da União Soviética e da III Internacional o caráter político e organizativo do partido leninista foram completamente deturpados, aquilo que antes era regido pelo centralismo democrático – sintetizados na máxima “liberdade total de discussão, unidade total na ação” – foram substituídos pela ditadura de uma camarilha de burocratas, onde as posições divergentes eram excluídas do debate interno e seus partidários eram expulsos do partido, perseguidos, exilados e até mesmo assassinados como foi o caso de Trotsky. E posteriormente no ciclo do pós guerra a adaptação aos “partidos-exército” guerrilheiros e os PCs ocidentais com a estratégia da citada “via chilena” se chegar ao socialismo de forma pacífica e muitas vezes com a burguesia em frentes-populares marcou a história da esquerda de abandono dessa concepção de partido que possibilitou os bolcheviques dirigirem uma revolução e construírem uma nova sociedade antes da traição do stalinismo.

A concepção marxista do Estado e as falácias (neo)liberais

Chegando ao absurdo de relativizar o papel nefasto que cumpriram os militares e as Forças Armadas em, nas palavras de Pondé, quebrar a ordem institucional ele esconde os desaparecimentos, tortura e assassinatos frutos da ditadura, que vão muito além de “quebrar a ordem institucional”.

Da mesma forma que a ditadura foi uma resposta do Estado contra as greves e as lutas dos trabalhadores, na conjuntura atual, o golpe institucional não foi contra o PT, porque supostamente o PT é de esquerda e social – discurso petista, que contrapõe ao papel que o PT teve de abrir espaço a direita, fortalecer os empresários e banqueiros – mas na realidade o golpe de 2016 foi para garantir que maiores ataques sejam dados contra a classe trabalhadora, maiores até que os do PT. E esse autoritarismo judiciário e avanço da direita seguiu com a prisão arbitrária do Lula que sequestrou milhões de votos da população via judiciário, com o fortalecimento do Bolsonaro e a politização das forças armadas.

Frente a tudo isso, o papel atual do PT, com seu candidato Haddad, esta sendo justamente de buscar um pacto nacional com esses mesmos setores golpistas – como poderia ser mais do que um falso moralismo o argumento de Pondé de que o PT visa a conquista do poder e a manutenção do mesmo?

Mais do que simplesmente “voltar para a primeira metade do século XX”, como forçosamente argumenta Pondé, nós propomos hoje que a classe trabalhadora se apoie nos exemplos históricos de luta para que cada vez mais se coloque como sujeito político e confie em sua força de transformação e adote uma política de independência de classe. Hoje o que temos de mais avançado nesse sentido é a FIT (Frente de Izquierda y de losTrabajadores) com o detalhe da atuação do PTS (Partido de los Trabajadores Socialistas) na Argentina. Aproveitando o espaço aberto para as ideias revolucionárias nessa etapa de crise orgânica do capitalismo, buscando confluir e atuar nas lutas operarias, de juventude, mulheres, buscando construindo um partido revolucionário de trabalhadores.

Contra qualquer tentativa da burguesia de neutralizar o marxismo retirando seu conteúdo revolucionário nós fazemos uma defesa intransigente das ideias e das experiências concretas na luta de classes dos bolcheviques russos, combatendo as burocracias e denunciando seu papel traidor e limitante nas revoluções do século passado. Não é inocente isso que faz Pondé, ao “confundir” o fracasso do projeto de conciliação de classes do PT aos revolucionários marxistas ele busca incidir num setor com a ideia de que a revolução é algo utópico e impossível de se lutar.

Um PT que se prepara para atacar os trabalhadores e governar pros capitalistas

Numa recente sabatina ao UOL o candidato do PT à presidência da República, Fernando Haddad – uma vez que seu partido não deu o devido combate ao avanço do bonapartismo judiciário com a proscrição da candidatura de Lula - disse que "Essa reforma do Temer, o primeiro relatório que está na Câmara, tem coisas úteis. Os regimes próprios de Previdência deveriam ser o objeto inicial da reforma". Quando falava sobre projeto econômico, chegou a dizer que a diferença entre o que o PSDB e Bolsonaro propõem, com o que o PT propõe, é que "o plano deles leva a uma retomada mais lenta do que no nosso entendimento” (sic). Em outras palavras Haddad afirma que haverão cortes nas áreas sociais para manter os lucros dos grandes banqueiros e capitalistas da indústria, sem revogar as reformas que afetam os direitos trabalhistas e mantendo o pagamento da ilegítima dívida pública que só nos 13 anos de governo do PT acumularam um total de 15 trilhões no saque de nossas riquezas pelo imperialismo.

Dessa forma vemos como o PT é e sempre foi o oposto da noção de um partido “marxista-leninista” como propõe Pondé, se aliando inclusive com setores golpistas como o PSDB e reencenando a tragédia da conciliação de classes que nos trouxe até aqui, com o fortalecimento da extrema-direita e a politização maior da alta cúpula das Forças Armadas, intervindo na política nacional com suas declarações.

Contra as bravatas de Pondé, nós retomamos o marxismo revolucionário apostando na mobilização e organização da classe trabalhadora a partir de seus locais de trabalho para desenvolver a confiança em seu “poder constituinte” e impor na luta de classes uma Assembleia Constituinte Livre e Soberana que permitisse apresentar uma alternativa anticapitalista e de independência de classe, onde nos chocaríamos com os interesses dos capitalistas para que eles paguem pela crise que não é nossa, mas para que isso se faça possível é tarefa urgente a superação da experiência petista pela classe trabalhadora brasileira e a construção de um partido verdadeiramente leninista, com estratégia e programa comunistas para dirigir uma revolução que volte a abalar o mundo, sendo exemplo pras lutas do proletariado em outros países, passando pela construção de um partido internacional da revolução socialista, com as bandeiras defendidas pelos bravos lutadores que fundaram a IV Internacional.




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