Internacional

NOVAS ATRIBUIÇÕES DO PODEMOS

Iglesias aceita demissões para facilitar acordo do governo

Podemos da um novo salto nas entrega de demandas sociais e democráticas básicas. Dependência, salário mínimo, aposentadoria aos 67 ou lei eleitoral, se somam a uma lista de 20 atribuições inauditas.

sábado 9 de abril de 2016| Edição do dia

“Tic-tac, tic-tac”. Há pouco mais de um ano Pablo Iglesias usava esta onomatopeia como metáfora do tempo que se esgotava para Rajoy no governo. Seguindo as negociações para formar um governo entre Podemos e PSOE, agora também com Ciudadanos, parece que a contagem regressiva vai pesar cada vez mais também para Iglesias-Ejerrón para evitar novas eleições.

Isso transparece a rebatida desesperada de sua proposta de “governo da mudança”. Que o programa do Podemos veio se liquidando desde sua fundação em Vistalegre e desde então o 20D não é nenhum segredo. Mas visto desde as eleições até hoje, e em especial nas últimas semanas, não pode não surpreender até os mais incondicionalmente treinados da casa.

Há uma semana “vazaram” notas manuscritas de Pablo Iglesias em que se recorria as cinco atribuições defendidas a Pedro Sanchéz. Nada menos que renunciar à abolição da reforma trabalhista de Zapatero, reduzir o grau de redistribuição da futura reforma fiscal, rebaixar em 30 milhões o gasto público previsto e assumir um calendário de redução do déficit público mais próximo ao PSOE, quer dizer o exigido por Bruxelas.

Horas antes da reunião entre PSOE, Podemos e Cs, Iglesias dissera abertamente: “Vamos apresentar uns documentos de renúncia que fizemos porque na política é preciso ceder, além das que temos feito já vamos porpôr fazer outras tantas concessões”. Um documento com 20 itens de renúncia – publicados na página web do Podemos – que se somam as da semana passada questões tão graves como a aceitação do pensionato que eleva a idade de aposentadoria para 67 anos ou o co-pagamento farmacêutico, um dos cortes mais graves contra a saúde universal.

Mas a lista é longa. Se cede também na adoção de recursos da Lei de Dependência, no aumento da licença paternidade ou incremento do salário mínimo. Algumas das cessões não ficam só no programa social, mas também na restauração política. Podemos renuncia a algo tão elementar como uma reforma na lei eleitoral para que seja realmente proporcional, que se proíbam as portas giratórias ou o financiamento pelos bancos aos partidos políticos.

A que se deve este aparente desespero por integrar-se ao governo e evitar eleições? O discurso de atender a contingência social não se sustenta. O preço a pagar para este propósito é nada menos que manter as demissões low cost, a aposentadoria aos 67, o salário mínimo abaixo da linha de pobreza, a ajuda aos dependentes em míseros 400, suprir o déficit proposto por Bruxelas – que pede para este ano mais de 10 milhões, o essencial dos cortes de impostos nos últimos anos...

As razões são menos altruístas e mais de defesa dos interesses do novo aparato roxo. Nem Iglesias nem Errejón querem ir à novas eleições que lhes levaria a reabrir a discussão de listas e confluências em meio às crescentes tensões internas de seu partido e com algumas previsões demoscópias não precisamente melhores que os resultados de dezembro.

Esta continua abaixo do resultado esperado: ser parte de um governo de coalizão com o partido de “cara limpa”, as portas giratórias e os primeiros ajustes da crise, sob um programa que assume no essencial ser dos “gatos” e que abandona os “ratos”.

O PSOE parece disposto a avançar nesta direção. As concessões de Iglesias não se impõem facilmente. E a batata quente da Catalunha adiada para ser discutida – por fora da contagem regressiva de menos de um mês, quer dizer sem pressa e com pausas – entre o PSC e En Comú Podem. Neste terreno, o mesmo Xavier Domènech aceitou de muito bom grado esta enésima postergação da questão do direito a decidir para não obstruir as negociações.

No entanto Ciudadanos não encontra nada a ganhar em favorecer a via 161 ( a soma dos deputados do PSOE e Podemos mais sua abstenção), e esse hoje por hoje é o principal obstáculo para que se possa chegar a materializar as aspirações de Iglesias e Errejón.

Está se preparando uma outra via entre os bastidores? A reunião “secreta” entre Sanchéz e Junqueras será parte dela? Tudo segue sendo incógnita na “nova política”, tão “transparente” como a velha política do Regime na qual os trabalhadores e setores populares são relegados ao papel de espectadores.

Talvez é por tudo isso, ou simplesmente por mera estratégia comunicativa, que depois da reunião Iglesias não falou com a imprensa. Ele vai fazê-lo na sexta-feira, às 11:30 (horário de Madrid) e veremos como segue. Por enquanto, só se sabe que se voltará a citar os três partidos em uma nova reunião na semana que vem.

A única coisa que fica cada vez mais clara é que a via do “governo valenciano” de Podemos não tem nada a oferecer aos trabalhadores e setores populares. Aqueles que são demitidos a preço de banana, aos que sofrem com os cortes na saúde e na educação, aos que estão na mira dos cortes exigidos pelo cumprimento do deficit e pagamento da dívida... E tampouco os que aspiram a poder conquistar direitos democráticos como o de decidir ou acabar com uma “casta” política que está sendo restaurada com o “parceiro favorito” por quem antes açoitava em seus discursos e respeitando seus principais privilégios após o acordo.

Diante desta fraude, chegue ela a se consumar ou não, é urgente começar a construir uma alternativa política que se proponha a retomar a luta por todas as demandas sociais e democráticas que o Podemos está transformando em objeto de troca no pacto entre as elites. No fim da semana passada aconteceu o II Encontro da Iniciativa Não Há Tempo a Perder, um passo humilde, mas audacioso neste sentido. A esquerda que se reivindica anticapitalista, junto aos setores de trabalhadores e juventude que começam a fazer experiência com o novo reformismo, devemos levantar uma alternativa que se proponha a enfrentar a opereta de restauração do Regime de 78 em curso.

As ilusões na via do Podemos podem desvanecer tão rápido quanto a que propôs o Syriza na Grécia. Diante desta situação, ganha peso a importância de propor aos milhões que consideram que é possível resolver os grandes problemas por uma via democrática, a impulsionar a luta de processos de constituintes livres e soberanas em todos o Estado e nacionalidades. Um processo em que se possa discutir e abordar toda a agenda democrática e social que está se desenvolvendo.

Para conquista-la não podemos confiar nem no novo reformismo nem em qualquer outro projeto de auto-reforma do regime, é imprescindível retomar a organização e mobilização social com os trabalhadores à frente impondo-a.




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