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Ifood: empreendedores ou assalariados informais?

Tatiane Lima

Ifood: empreendedores ou assalariados informais?

Tatiane Lima

Arte: Juan Chirioca

Fundada em 2011, a Ifood é uma startup brasileira que busca consolidar sua liderança no ramo de entregas de alimentos pela Internet na América Latina. Seu próprio nome, slogans e publicidade mostram sua inspiração gringa. Mas, muito além da sua aparência, são as suas parcerias multimilionárias com empresas estrangeiras que mostram seu DNA capitalista selvagem, baseado numa combinação entre o mais avançado da produção de tecnologia em comunicação com o mais atrasado em termos de relações trabalhistas.

Ifood: I’m a lover da ultra exploração

Com a ambição suprema de se fincar como uma global player do setor, no ano de 2018 a Ifood recebeu um aporte de 500 milhões de dólares, fruto de uma aliança de sua dona Movile com a também brasileira Innova Capital (especializada em Private Equity, com investimentos em empresas de tecnologia que estão em ascensão), a sul africana Naspers (gigante da área de comunicação, associada a outra gigante chinesa, a Tencent) e a dinamarquesa Just Eat (líder global no setor de entrega de alimentos na Europa), esta última passando a ser também sua subsidiária. Esse investimento agressivo tornou a Ifood um dos “unicórnios” brasileiros, título dado a empresas que passam a valer mais de 2 bilhões de dólares.

Direto da incubadora de startups da Unicamp e dirigida por cabeças formadas na USP e UNESP, a Movile, dona da Ifood, é um exemplo ilustrativo de a quem está à serviço a produção de conhecimento nas maiores universidades públicas do país. O ímpeto empreendedor das estaduais paulistas remonta à famosa região do Vale do Silício, na Califórnia, Estados Unidos, que é a casa de famosas podres de ricas Google, Apple, Facebook, Netflix etc. Também a lei sagrada para as Startups desse pólo tecnológico é seguida pelos donos da Ifood: é preciso ser uma empresa repetível e escalável, ou seja, é preciso crescer cada vez mais, acumular cada vez mais bilhões de dólares, mas a baixo custo despendido com a força de trabalho.

No mundo de empresas como a Ifood, cifras tão altas, contabilizadas em dólares, uma agressiva compra de empresas menores e conceitos como inovação, inteligência artificial e desenvolvimento, lapidados no mais fino marketing demagógico, compõem apenas um dos lados da moeda. O outro lado, não tão brilhante para os capitalistas, mas verdadeiramente essencial, está na sua base: os milhões de entregadores mal pagos, que trabalham com jornadas tão longas, esgotantes e perigosas que mais lembram as condições de trabalho do século XIX .

Um exército de assalariados sem carteira assinada

Só no Brasil a Ifood possuía antes da pandemia uma rede de mais de 120 mil entregadores, dados que, diga-se de passagem, são sempre obscurecidos e ocultados pela empresa. Com a crise da Covid-19, esses números aumentaram significativamente, em especial porque se tornar um motoca ou biker tem sido a única opção para milhares de brasileiros de ter alguma renda em meio ao desemprego crescente, da intensificação da informalidade e precarização das relações de trabalho.

Ricardo Antunes, um dos principais intelectuais brasileiros e especialista no tema do mundo do trabalho, em um interessante artigo sobre a nova morfologia do trabalho e suas tendências, afirma o seguinte sobre a informalidade:

(...) a informalização da força de trabalho vem se constituindo como mecanismo central utilizado pela engenharia do capital para ampliar a intensificação dos ritmos e dos movimentos do trabalho e ampliar seu processo de valorização. E, ao fazê-lo, desencadeia um importante elemento propulsor da precarização estrutural do trabalho.

Este artigo, escrito no ano de 2013, captou com precisão as tendências que hoje vemos desenvolvidas. No Brasil pré Coronavírus, ao final de 2019, o IBGE apontou que cerca de 40 milhões estavam nos trabalhos informais, sem carteira assinada, o que representa também cerca de 40% da população economicamente ativa do país. São os trabalhadores que vivem de bicos, trabalhos temporários, intermitentes ou até mesmo os chamados “pequenos empreendedores”, como tentam rotular os entregadores e outros trabalhadores de aplicativos em geral.

Essa ideologia asquerosa está por trás da “cultura all together” estampada nos materiais de propaganda da Ifood. “Estamos todos juntos”, ou “somos parceiros”. Mas, entre o CEO Fabrício Bloisi e a rede de mais de cem mil de entregadores que trabalham para esta empresa há um abismo imenso.

Essa rede de dezenas de milhares, na sua maioria jovens e negros, não pode fazer home office ou ser afastada com todas as garantias de sustento de suas famílias no caso de ser acometida pelo vírus. Esses jovens são os motocas e bikers que sentem todos os dias seus corpos irem ao limite, correndo todos os riscos dos trânsitos mais caóticos das cidades em suas motos ou ainda tendo que fazer um esforço extremos pedalando uma média de 80 Km por dia. Tudo isso com aquela enorme mochila vermelha da Ifood nas costas, a bag, onde a marca sorri para que não assuste os que vêem o peso inacreditável que esses garotos suportam.

Um site de ciclistas que trabalham com Apps de delivery mostra que a média salarial desses entregadores é de R$ 995,3 mensal, trabalhando cerca de 12 horas diárias. Valor menor que o já insuficiente salário mínimo. E, como são “parceiros”, esses trabalhadores, assim como os motoboys, arcam na maior parte ou totalmente com os custos para realizar o trabalho, com os veículos, combustível, seguros em caso de acidentes etc. E sem um plano de previdência ou qualquer outro direito assegurado pelas leis trabalhistas, o tratamento de qualquer dano à saúde e mesmo o merecido descanso após uma vida de trabalho não são direitos garantidos. Essa é a fotografia do modelo de ultra exploração do trabalho que assegura a ampliação da valorização do capital, como apontou Ricardo Antunes.

Se a informalidade é uma ruptura com a contratação e regulamentação das formas de trabalho, ainda que não signifique um sinônimo de precarização em todos os casos, ela é usada habilmente por empresas como a Ifood, através do conceito de empreendedorismo “como forma oculta de trabalho assalariado e multiplica as distintas formas de flexibilização de horário, salarial, funcional ou organizativa” (ANTUNES, 2013).

Essas também foram conclusões tiradas pelos próprios entregadores no último período. Em suas constantes mobilizações desde o início do ano, como pudemos ver na última mobilização antirracista e antifascista realizada em São Paulo pelo contágio da fúria negra que emanou dos Estados Unidos, entregadores da Ifood, Uber, Rappi, Loggi e outras empresas mostraram que não aceitam essa ideologia que mistura exploradores e explorados. Ao contrário da Ifood, que registra somente uma pequena parcela administrativa ou da área de tecnologia como seus funcionários, esse exército de entregadores está falando exatamente qual é o lugar que ocupa e lançou seu grito de guerra com a frase “os entregadores vão virar os black panthers do Brasil”.

Na linha de frente da luta contra a precarização do trabalho e da vida

Em uma entrevista para a Tilt , o novo presidente executivo da Ifood, Patrick Hruby, foi ligeiro em passar a visão de uma empresa preocupada com a saúde e a vida de seus “colaboradores”. Para isso fez propaganda do seguro de 2 milhões de reais que oferecerá a trabalhadores que comprovarem que são do grupo de risco ou que adoecerem, que dá o direito a uma renda equivalente aos seus ganhos mensais antes da pandemia. No entanto, esse seguro é provisório e em nada compromete a Ifood de fato nem com a saúde e nem com a vida de seus entregadores. Prova disso é que a empresa rapidamente recorreu à Justiça, sua aliada, para derrubar uma liminar que a obrigava a pagar ao menos um salário mínimo aos entregadores diagnosticados, sob suspeita ou do grupo de risco do novo coronavírus.

Outros dois anúncios de Hruby na entrevista são emblemáticos, o da criação simultânea de um fundo às empresas parceiras, de 50 milhões de reais, e a reafirmação de que o objetivo da Movile é se tornar uma empresa com um valor de mercado de mais de 100 bilhões de dólares. É simbólico como mesmo nas contas públicas apresentadas pelos patrões os trabalhadores ficam com a menor parte.

Também foi simbólico ver que alguns soldados desse exército espontaneamente fecharam por alguns instantes a principal avenida do capital financeiro brasileiro. No protesto da Paulista, no dia 5 de junho, gritos como “não tem entrega não, porque minha vida vale mais que a do patrão” confirmaram também, em germe, a atualidade do que Karl Marx e Friedrich Engels diziam sobre as crises que os capitalistas criam com sua irracional sede de lucro, em seu mais brilhante material de campanha comunista aos trabalhadores, no século XIX:

A burguesia, porém, não se limitou a forjar as armas que lhe trarão a morte; produziu também os homens que empunharão essas armas - os operários modernos, os proletários.

Esse exército de trabalhadores informais desperta em sua luta contra as condições mais brutais de vida e trabalho. Condições estas que serão levadas à realidades ainda mais miseráveis pelo catalisador da crise capitalista que têm sido a crise sanitária global. Essas condições de trabalho no Brasil tiveram caminho aberto pelo próprio governo do PT, onde, de acordo com o próprio Lula, “os bancos nunca lucraram tanto”, mas foi com o agravamento da crise econômica e o golpe institucional de 2016, levado adiante pela Lava Jato e o Judiciário, que passou a ser um projeto ainda mais ofensivo.

Aprofundar a Reforma Trabalhista e impor as diversas Medidas Provisórias que sacrificam a vida dos trabalhadores, como a reacionária MP 936, em nome de assegurar os lucros dos patrões, em especial os patrões gringos, segue sendo a maior ambição da burguesia brasileira, apoiada pelo seu governo de plantão de Bolsonaro, Paulo Guedes e os militares, entreguistas das nossas riquezas ao imperialismo.

Mas os entregadores começam a dizer basta. Junto a esse batalhão há outros tantos, que fazem tremer os grandes capitalistas nacionais e internacionais só de pensar no potencial explosivo que possuem. Uma legião formada também por enfermeiras, outros profissionais da base dos serviços de saúde, empregadas domésticas, faxineiras, motoristas de aplicativos, trabalhadores de supermercados, callcenters e muitas outras categorias marcadas pela precarização hoje estão na linha de frente também da resistência.

E, como vimos, podem se somar aos levantes protagonizados pelos negros contra a violência policial que espalha pelo mundo para abrir uma nova jornada de mobilização operária também no Brasil, que lute pelos direitos mais elementares como os testes massivos, leitos a todos os contaminados e uma renda digna de 2 mil reais a todos os trabalhadores e desempregados afetados pela crise. Mas, que também possa lutar para que as decisões sobre os rumos do país não estejam nas mãos de Bolsonaro, dos militares, STF ou governadores, que viram as costas às dezenas de milhares de mortos e querem, antes mesmo da chegada do país ao pico da crise sanitária, impor uma falsa normalidade para salvar os lucros dos grandes empresários.

Somente com a auto organização e a mais ampla democracia é que os trabalhadores poderão se colocar de fato em um choque decisivo com os interesses capitalistas. Um exemplo nesse sentido está no nosso próprio continente, com o movimento “La red”, na Argentina, onde milhares de jovens precários em diversas regiões do país realizaram assembleias virtuais e se organizaram para tomar as ruas em nome de seus direitos.

No Brasil, o chamado à primeira greve nacional de entregadores para o dia 1º de julho pode ser um grande passo nesse sentido. É preciso que todas as demais categorias de trabalhadores de nosso país coloquem sua total solidariedade à greve dos entregadores, sobretudo aquelas que são mais organizadas e possuem melhores condições de se colocar na luta. Enquanto as grandes organizações sindicais seguem sua trégua com o governo, os ataques se aprofundam e são esses trabalhadores a vanguarda da tão necessária luta para que nossas vidas valham mais que os lucros deles.

Referências:

ANTUNES, Ricardo. A nova morfologia do trabalho e suas principais tendências. In ANTUNES, Ricardo (Org). Riqueza e miséria do trabalho no Brasil II. 1ª ed. São Paulo: Boitempo, 2013.

MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto comunista. Org. de Osvaldo Coggiola. 4ª reimpressão. São Paulo: Boitempo, 2005.

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