Mundo Operário

CAMPANHA SALARIAL DOS CORREIOS

IMPASSE: Após assembleias lotadas, ECT recua nos ataques ou faz jogo de cena?

Na última semana ecetistas de todo o país realizaram assembleias lotadas e com clima de muita combatividade frente aos ataques da empresa, que respondeu com um aparente recuo estratégico.

segunda-feira 12 de setembro| Edição do dia

Durante a última semana os sindicatos de trabalhadores dos Correios realizaram assembleias para avaliar a negociação da campanha salarial. A maioria, senão todas as assembleias, contaram com participação muito expressiva. Com uma proposta que incluía Banco de Horas, aumento abaixo da inflação, diminuição da quantidade de vale alimentação/refeição, fim do vale cultura, fim do vale extra de Natal, dentre muitos outros ataques tanto aos benefícios sociais quanto questões sindicais da categoria, a primeira campanha salarial no governo golpista parecia uma provocação. Parecia?

Trabalhadores que nunca cogitaram entrar em greve estavam decididos a lutar diante de tantos ataques. E as assembleias foram unânimes em rejeitar a proposta. Tudo isso num cenário em que o presidente não eleito Michel Temer pretende extinguir direitos históricos como aposentadoria, jornada de 8h e ainda aprovar a terceirização irrestrita. E mais, com a greve de bancários em pleno andamento.

O sentimento de que o cenário atual só pode ser combatido com greve geral, unificação de todas as categorias está à flor da pele e aparece espontaneamente entre os trabalhadores. No entanto, sem nenhuma central sindical ou organização de massas que possa (queira?) organizar tal chamado, os trabalhadores seguem a espera, num misto de resignação, ceticismo, e uma pontadinha de esperança lá no fundo. Será que uma greve forte de Correios, chamando a unificação com bancários, petroleiros, metalúrgicos, e ainda se contagiando com a faísca acesa pela juventude que compõe os atos pelo Fora Temer, não poderia ser algo de explosivo demais em um país que segue em crise?

Encerradas as assembleias, com clima de muita combatividade, a ECT apresenta uma proposta em que recua de praticamente todos os absurdos ataques. Fica tudo como está. Imediatamente algumas direções já apresentam balanços vitoriosos, e muitos trabalhadores se sentem aliviados. Será que o espírito de luta fez a empresa recuar, ou o ataque real ainda está por vir, em forma de privatização, terceirização, e também controlando as lutas para que não se tornem uma forte e ampla greve geral contra o governo golpista?

Certamente as assembleias foram um termômetro, e a importante disposição de luta dos trabalhadores pesou na balança de Guilherme Campos na hora de negociar. Não podemos ser ingênuos, se não houvesse resistência, perderíamos tudo isso e muito mais. Porém, a intenção foi colocar todas as cartas, avaliar, e assim fazer um jogo psicológico para confundir e dividir a categoria. Até agora segue incerto o que farão com o convênio médico, mas sabemos que a Postal Saúde, uma empresa que conta com alto escalão, funcionários, e, portanto, gastos, foi criada para gerar lucro, quando o que precisamos é apenas de atendimento médico de qualidade. Enquanto não derrotarmos este projeto, a intenção da empresa sempre será criar um modo de trocar essa “despesa” por algo rentável as nossas custas. Sem contar que a proposta salarial segue não cobrindo a inflação. Com um toque teatral a empresa tentou mostrar que poderíamos estar pior se nos tirassem tudo, para parecer que se tirar “só um pouco” é uma boa proposta.

Mas ainda mais importante do que isso é a situação nacional. O governo golpista nos ameaça com privatizações, uma reforma na previdência que nos obrigue a trabalhar até morrer, uma reforma trabalhista que prevê um retrocesso histórico para a classe trabalhadora com aumento da jornada de trabalho e da exploração. Não podemos olhar para a situação da categoria por fora desse cenário. Todas as categorias lutando em separado enfrentarão lutas difíceis para segurar pequenas conquistas. Juntos poderiamos ser o motor de uma batalha pra dizer que a crise econômica não tem que ser paga por nós, e sim por aqueles que lucraram ao longo de todos esses anos enquanto nós nunca paramos de trabalhar. E agora querem nos impor superexploração, desemprego e trabalho precário.

CUT e CTB

As principais centrais sindicais do país também estão à frente dos principais sindicatos e dirigem as duas federações ecetistas – FINDECT e FENTECT. Embora tenham acordado uma campanha salarial unificada nacionalmente e denunciado os ataques, essas direções em nenhum momento propuseram uma campanha unificada junto aos bancários, petroleiros e metalúrgicos. Por que? Essas mesmas centrais são dirigidas majoritariamente por sindicalistas ligados ao PT e que portanto se dizem contra o golpe institucional que aconteceu em nosso país. Se quisessem, poderiam realizar um amplo debate nas suas bases, convocar espaços de unificação e organizar uma greve geral contra essas reformas, pelos direitos dos trabalhadores e contra o golpe. Mas preferem realizar as greves da forma burocrática e isolada que sempre fizeram, negociando pequenos detalhes com as direções a portas fechadas e conduzindo de forma que as lutas nunca saiam do seu controle. Uma postura funcional a linha petista de seguir se mostrando com uma mediação responsável pra controlar a luta de classes e canalizando o sentimento contra Temer para uma via de reeleger Lula. Não aprenderam nada com o golpe, com as alianças e com toda a lama do regime político brasileiro.

QUE FAZER?

Temos que organizar na base para as assembleias dessa semana– e os sindicatos que se colocam no campo da esquerda e da independência de classe poderiam dar exemplo. Discutir amplamente a campanha salarial, sem ignorar a importância de terem recuado em fortes ataques, mas sem esquecer a luta contra as privatizações e os ataques do governo golpista, buscando a unidade com as demais categorias, organizando blocos de trabalhadores nos atos Fora Temer e preparando uma forte luta, que não se resume a nossa categoria e muito menos ao percentual de aumento, mas a um questionamento profundo dessa sociedade, onde possamos ser os sujeitos de uma transformação real.




Tópicos relacionados

Mundo Operário

Comentários

Comentar