NEGRAS E NEGROS

I Seminário de Negros e Negras da USP

terça-feira 16 de junho de 2015| Edição do dia

Nesse mês do dia nos dias 19, 20 e 21 acontece o primeiro seminários de negros e negras da Universidade de São Paulo. Organizados por setores do movimento negro que atuam dentro dessa universidade o seminário acontecerá na Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas, FFLCH.

O seminário contará com debates como conjuntura nacional e internacional, violência policial, mulheres negras, educação pública e população negras, religiões afro, oficinas e grupos de discussão. Terá a presença de importantes figuras do movimento negro e das entidades que ajudaram a construir o seminário e atuam nessa universidade.

As inscrições estão abertas até o dia 16 de junho pelo link: https://seminariodenegrosenegrasdausp.wordpress.com/inscricoes/ .

A organização dos negros na universidade mas racista do páis.

O momento é oportuno e necessário para a organização de negros e negras dentro da USP, com a dita “crise orçamentária” da universidade vemos que os primeiros a serem atacados são os negros e negras, seja com demissões de terceirizados, aumento de carga de trabalho principalmente nos postos mais precarizados, diminuição da permanência estudantil etc. Nesse sentido a USP não se diferencia de outras universidades.

Mas não podemos achar que é só isso, estamos na universidade mai elitista e racista de nosso país! Já em sua entrada principal deixa claro esse caráter:

Na entrada principal da universidade nos deparamos de um lado com a FUVEST e de outro com a ACADEPOL, duas instituições que se colocam como barreiras para que os negros entrem na universidade. Se de um lado a policia mata os jovens negros nas periferias, favelas e morros, arrancando-lhe seus sonhos com balas materializando a política genocida do Estado, por outro os negros que conseguem sobreviver e terminar o ensino básico de deparam com a barreira do vestibular que coloca para dentro os brancos oriundos de classe média e filhos da burguesia.

Se isso nos parece delirante demais podemos perceber que ao adentrarmos mais um pouco nos depararemos com um monumento em homenagem as oligarquias escravocratas que construíram essa universidade. Temos na primeira rotatória a estátua de Armando nde Salles Oliveira, ao seu lado um pé de café e do outro um de cana, representando a elite latifundiárias que ergueu essa universidade com o dinheiro oriundo do trabalho escravo e o sangues de negros. Como se só essa imagem não bastasse, quem garante que esses pés se mantenham sempre bonitos e bem cuidados são trabalhadores precarizados, negros, que têm que preservar a homenagem de quem o matou e escravizou seus ancestrais ganhando um salário miserável em condições insalubres de trabalho, nos mostrando como na verdade hoje os negros sobrevivem em situação de semi-escravidão na universidade.

Nem mesmo fisicamente permite a entradas de negros, com seus muros levantados para afastar a comunidade de usufruir de seus espaços também mantém seu contrato com a polícia militar que cotidianamente enquadra e humilha os negros que em sua visão jamais poderiam fazer parte da comunidade USP. Não da condições mínimas de permanência estudantil aos que estão dentro dela e se nega a implementar uma política de cotas para que mais negros adentrem.

Esse posicionamento contrário é balizado por argumentos mais racistas que podemos imaginar, como os representantes do CO (Conselho Universitário) puderam ver na reunião que se discutiu cotas raciais por pressão do movimento negro.

Mas porque essa universidade é tão racista?

Em um país que se construiu em cima da exploração de milhares de negros, ligado diretamente a metrópole imperialista , que explorava a África e de lá traziam os escravos não poderia ser diferente. O capitalismo Brasileiro se constitui de um lado pela pressão do imperialismo da metrópole e de outro pela pressão do povo negro explorado. Por isso não podia armar os negros para garantir sua independência, pois corria o risco de que aqui se desse uma revolução como no Haiti, preferiu se libertar a partir de acordos com a metrópole. Não podia não relegar os negros às condições miseráveis que ainda vemos até hoje e o trabalho semi-escravo após sua “libertação” pelo papel que cumpre na divisão do trabalho internacional e pelo medo que se levantem contra seus opressores.

O racismo em nosso país é o alicerce que ainda garante a paz da burguesia, por isso foi preciso levantar teorias como a democracia racial e arrancar toda a história do povo negro e negar-lhe conhecimento sobre sua história e seu papel na construção de nosso país. Mas como nem isso pode garantir de fato que os negros não se levantem contra seus senhores foi preciso constituir a policia que mais mata no mundo para que se apagasse qualquer faísca acesa pelas contradições sócias que pudesse virar um incêndio preto.

A USP, a melhor universidade de nosso país, umas das poucas que tem como papel a produção de tecnologia avançada, mesmo que ainda débil perto do que a burguesia imperialista produz em suas universidades de ponta nos países imperialistas, para setores da burguesia, a elite agrária e a formação de quadros para a burguesia não pode permitir que negros adentrem a essa universidade, a não ser como trabalhadores nos cargos mais precarizados, correndo o risco de colocar na mão do povo negro seu conhecimento e permitir que os negros escrevam com as próprias mãos sua história, desvelando todo o sangue que correu e corre em nosso país ao mesmo tempo mostrando que sempre resistiram ascendendo a chama de que é preciso retomar o espírito daqueles que se organizaram para lutar contra a exploração e a opressão.

Hoje nas universidades federais e em algumas estaduais já vemos aplicada a política de cotas, que tem de fato deixado as universidades mais pretas, mas sabemos que essa política não é suficiente, é preciso primeiramente ter uma política de permanência estudantil que garanta não só a entrada na universidade, mas a possibilidade de se formar.

Além disso, é preciso ter claro que essa política não garante que todos negros entrem na universidade, mas apenas uma pequena parcela e que só iremos garantir que de fato todos os negros possam entrar na universidade com o fim do vestibular e a estatização de todas as universidades privadas. Sendo assim, mesmo após a implementação de cotas a luta continua.

Em São Paulo, a reitoria a USP não pode prover nem sequer permanência estudantil para os que conseguem furar a barreira social e racial que é o vestibular. Mas como se isso não fosse suficiente são inúmeras as barrerias para aqueles que desejam mesmo assim permanecer na universidade, toda elas com a intenção de mostrar o nosso lugar!

A falta de espaço para estudos que contestem a ideologia dominante; a necessidade concreta de se manter, manter famílias, filhos e etc; falta de espaço para estudar e publicar sobre sua própria história; o enorme número de negros nos postos mais precarizados de trabalho; e a realidade que não se esconde na universidade da falta de professores e estudantes negros manda uma clara mensagem para os que tão aqui dentro:. Lugar de negro na USP é limpando o chão!

Não é a toa que a Universidade vira às costas a um estudante caboverdiano negro espancado, nem é a toa o descaso que tem com inúmeros casos de racismo que já vimos nessa universidade, como o do trabalhador negro torturado pelos seguranças de uma festa. Essa universidade é racista, e precisa perpetuar isso para garantir sua existência nos moldes que temos hoje, é uma universidade que coloca seu conhecimento a serviço dos que tem, do mercado de trabalho, utilizando do dinheiro de todos. Uma universidade que é incapaz de dar resposta até o fim às necessidades dos jovens negros.

Precisamos nos organizar!

Para dar um basta ao racismo da USP é preciso organizar uma grande luta pra fazer ecoar as vozes do povo negro dentro das universidades. É preciso gritar alto até derrubar a ultima parede que separa a universidade dos pobres, negros, LGBTs e etc. Nesse sentido esse seminário se mostra como uma iniciativa muito acertada de discussão e organização dos negros para as próximas lutas.

É necessário primeiramente que se unifiquem as demandas de funcionários, estudantes e professores negros para podermos unificar as nossas forças. Não podemos em nenhum momento alimentar uma falsa ilusão na burocracia universitária, pois é ela que há anos tem atacados negros e negras, assim como estudantes professores e funcionários que ousam se levantar contra o elitismo dessa instituição.

E como método de luta é preciso tirar experiência dos que há anos têm conseguido impor importantes derrotas ao governo e à reitoria, os trabalhadores dessa universidade. Com os métodos de luta e de organização dos trabalhadores, com independência de classe e da reitoria podemos arrancar nossas demandas.

Esse seminário deve ser o primeiro passo para uma grande luta que mostre para todos e todas a verdadeira cara dessa universidade, que derrube a burocracia racista, que coloque negros dentro da USP e que siga construindo uma universidade onde os negros tenham vez e voz!




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