Sociedade

HORÁRIO DE VERÃO

Horário de verão: mais uma insensatez contra a classe trabalhadora

Imagine que os trabalhadores pudessem decidir em assembleia se o horário de verão decretado autocraticamente pelo governo deve existir ou não. Alguém tem dúvida de que esse horário, que maltrata aqueles trabalhadores e suas famílias durante quatro meses do ano, ficaria de pé?

Gilson Dantas

Brasília

segunda-feira 17 de outubro| Edição do dia

Imagine a grande massa da classe trabalhadora que tem que acordar cedo e é obrigada a morar longe do trabalho, a horas de viagem, pessoas que já são forçadas diariamente a acordar cedinho para procurar o transporte precário: esta é a realidade das grandes periferias urbanas.

Imagine que esses trabalhadores pudessem decidir em assembleia se o horário de verão decretado autocraticamente pelo governo deve existir ou não. Alguém tem dúvida de que esse horário, que maltrata aqueles trabalhadores e suas famílias durante quatro meses do ano, ficaria de pé?

Nunca.

Nenhum trabalhador/a aceita pacificamente ser arrancado/a da cama mais cedo, no escuro, por uma imposição da patronal e seu governo, para marchar para o trabalho de fábrica ou de empresa, por vontade própria, no caso, por pura imposição da camarilha política.

Como explica um médico da Universidade de Brasília: "O sono das pessoas no horário de verão não é restaurador”, diz o pneumologista e chefe do Laboratório do Sono da UnB, Carlos Viegas. Ele também entende que o horário de verão não deveria ser implantado. [você pode ter acesso à reportagem aqui]

Sob nenhum ponto de vista se justifica esse atentado contra a qualidade de vida da classe trabalhadora.

A OMS já assinalou que 40% dos brasileiros possuem distúrbios do sono e que estes pioram na vigência do horário de verão. Os programas da grande mídia que anunciam o horário de verão, sempre na base da propaganda do “mal necessário”, quase nunca ouvem a opinião de quem vive do trabalho e vai ser vítima preferencial de mais uma medida autocrática do governo: ter que acordar mais cedo e no escuro e, no caso de mulheres trabalhadoras, arriscar a vida nos precários pontos de ônibus de periferia – com atraso dos ônibus que já veem cheios - em plena madrugada. Já sabemos que esse risco as mulheres trabalhadoras correm diariamente, e o famigerado “horário de verão” piora sensivelmente essa situação.

Esse “horário” artificial não passa de pura insensatez em um país que, por ser equatorial, tem luz o ano inteiro e, ainda por cima, é o único país equatorial que adota essa medida ditatorial. Justamente no país da energia fluvial, hidrelétrica, riquíssimo em rios, sem qualquer necessidade dessa “economia” que, aliás, já sabemos para o bolso de quem ela vai. Gastam horrores com coisas como Olimpíadas, com transações sujas com empreiteiras e depois veem “economizar” no lombo da família trabalhadora.

“Horário de verão” é medida de guerra, que começou a ser adotada na Alemanha em 1916, e nos Estados Unidos, durante a primeira guerra mundial, para economizar carvão. Aqui eles querem economizar não se sabe o quê, já que a energia vem dos rios.

E é uma “economia” pífia, de valor duvidoso e que recai sobre os trabalhadores, sobre sua qualidade de vida e sua segurança, e jamais sobre os patrões, obviamente, que são donos da própria agenda de horários. Patrão nenhum vai para ponto de ônibus de madrugada...

E depois, onde está a lógica? Se você acorda uma hora mais cedo, obviamente vai acender a luz uma hora mais cedo. Se chega em casa, no fim do dia, uma hora mais cedo, vai ligar o chuveiro, o ferro de passar, o micro-ondas etc, uma hora mais cedo. O argumento do governo não faz sentido nem dentro da sua lógica.

É insensato pela lógica, é insensato pela saúde pública, é insensato porque a população trabalhadora e sua família [as mães que vão ter que acordar as crianças para a escola uma hora mais cedo] jamais foram consultadas sobre essa medida que mexe com suas vidas durante um terço do ano.

Vale repetir: são medidas tomadas pela casta política que não tem problema algum em acordar mais cedo e nem vai acordar mais cedo por conta desse horário artificial, uma casta que saqueia impunemente os cofres públicos em bilhões e que nunca esteve e nem está aí para a saúde pública da classe que vive do trabalho.

Cabe reagir, levantar as organizações da classe trabalhadora contra mais esta medida anti-operária e também em defesa das bandeiras que agitaram as ruas nas jornadas de junho de 2013, pelo transporte de qualidade, público e gratuito [com estatização das empresas e controle pelos trabalhadores, que devem definir quais linhas são prioritárias e quais não, que devem colocar mais ônibus nas ruas etc]; e também em defesa do debate aberto das contas públicas para que os movimentos sociais se deem conta de que a grande “economia” nacional não vai vir de obrigar o trabalhador a acordar mais cedo e sim de uma mudança revolucionário do sistema de cima para baixo, começando por obrigar os políticos a ganharem o salário de um professor e serem removíveis a qualquer momento. Esse é o “horário de verão” que nós trabalhadores necessitamos.

G Dantas

Brasília, 17-out-16

[Crédito da imagem: www.andreiafriques.com][Créditos de trechos de vídeos: dr Luiz Ovando, SBT, TV Cascavel, Globo]




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