Economia

Home Office é piada de mau gosto para imensa maioria dos trabalhadores

Empregadas domésticas, faxineiras terceirizadas, entregadores de aplicativo e carona, operários de fábricas, trabalhadores de comércios, a imensa maioria da classe trabalhadora não pode trabalhar via Home Office. Qual seria então uma solução que coloque em primeiro plano a saúde destes trabalhadores e não o lucro dos capitalistas?

terça-feira 17 de março| Edição do dia

Há uma preocupação que ronda todo o espectro político capitalista: frente a crise econômica e a pandemia, que se misturam numa coisa só, quais medidas sugerir ou impor para que os trabalhadores continuem a fazer a roda da economia girar? Pergunta tão importante para tentar salvar o possível das altas taxas de lucro e fazer com que aqueles que trabalham paguem pela crise.

Uma das soluções já propostas é o Home Office, considerado o exemplo de modernidade pelo envelhecido neoliberalismo. Contudo, ainda mais pensando na estrutura produtiva brasileira, esta “solução” é limitada a uma pequena parcela da classe trabalhadora que usa como ferramenta direta a Internet e a informática, setores mais ligados à administração de empresas e profissões de escritório.

O restante da classe trabalhadora que é incapaz de trabalhar de casa, seja por impossibilidade da função ou por descaso e ganância da chefia, passou a ouvir diariamente sobre as medidas de prevenção, em especial evitar aglomerações e o contato próximo com outras pessoas nos canais de comunicação e na Internet para. Ouve essas informações para que, logo em seguida, seja obrigado a se espremer em algum vagão ou ônibus, junto a outros milhões nos horários de pico, para chegar ao trabalho.

No Brasil, de acordo com dados do IBGE, há uma população de 93,6 milhões de trabalhadores. Destes, cerca de 41,3% (38,8 milhões) são trabalhadores informais que não possuem nenhum direito garantido. A classe trabalhadora brasileira comporta o maior exército de empregadas domésticas do mundo, cerca de 6 milhões de trabalhadoras, em sua maioria, sem direitos da CLT.

O trabalho informal, antes majoritariamente feminino, agora também alcança os homens. Aplicativos de entrega como Ifood e Rappi dependem da força de trabalho de 10,1 milhões de trabalhadores, em sua maioria jovens e negros que enfrentam jornadas de trabalho de mais de 12 horas pedalando ou dirigindo uma moto; a força de trabalho voltada para aplicativos de transporte, como Uber e 99, chega a 3,6 milhões. Estas categorias, mesmo usando como ferramenta a Internet e a alta tecnologia, são incapazes de se manter isolados do mundo.

Trabalhadores do comércio e da indústria ocupam respectivamente 19% e 13%, estes também são obrigados a circulação diária e convivência seja com seus colegas de trabalho ou consumidores. O trabalho terceirizado envolvendo manutenção, vigilância e principalmente limpeza ultrapassam o número de 20% de todas ocupações, é impossível limpar um local ou consertar alguma máquina sem ir até o local de trabalho [todos os dados estatísticos utilizados são da PNAD].

Logo, não é absurdo afirmar que o Home Office é uma alternativa para poucos, consequentemente não é uma solução viável para a contenção do vírus Covid-19 entre a massa trabalhadora do país.

Por um lado, empresários ordenam que seus trabalhadores continuem a trabalhar via Home Office, por outro lado começaram a descontar o Vale Alimentação, o Vale Refeição e o Vale Transporte de seus salários. Não etão nada preocupados com as condições de vida de ninguém que dependem destes direitos, apenas com a exploração e lucratividade.

Na Espanha, a hashtag#YoNoPuedoQuedarmeEnCasa expressa a indignação dos trabalhadores nas redes sociais, traduzido significa "Eu não posso ficar em casa".

A alternativa de trabalhar via Home Office não deve ser encarada como uma medida sanitária ou de saúde pública. Se trata de uma medida de reorganização do trabalho imposta por empresários, que vêm tendo o poder de decisão sobre a saúde e a vida dos seus funcionários. Isto não significa que o Home Office seja inválido. Contudo, a nossa proteção contra esta pandemia continua nas mãos daqueles que olham para saúde de seus trabalhadores com as lentes da contabilidade dos lucros.

Trabalhadoras terceirizadas vêm sendo obrigadas a comparecer ao trabalho mesmo quando as atividades nestes locais estão suspensa, como ocorre na Unicamp, mesma coisa na UFRJ, UFF e PUC-Rio, UFRGS, mesmo com as aulas suspensas. Ainda no Rio de Janeiro, empresários das redes de salas de cinema Cinemark e Kinoplex implementam PDVs e férias coletivas.

Na Espanha, o Burger King demitiu 14 mil funcionários por conta da quarentena. Por outro lado, dezenas de milhares trabalhadores no mesmo país, em diversas fábricas, como a Renault, Airbus, Mercedes, etc, pararam suas produções contra as condições propícias para a infecção do vírus, já que as empresas não cumprem as medidas de proteção.

É um fato lá e aqui: a resposta não virá dos e, não apresentando até agora um grande plano de combate contra o coronavírus, empresários e seus governos. O governo brasileiro se encontra mais preocupado em salvar os grandes empresários e bancos. Bolsonaro considera toda preocupação um caso de histeria, enquanto que Guedes usa da pandemia como chantagem para impor seu pacote de ataques neoliberais e salvar os capitalistas e grandes bancos. O que por si só mostra a completa incompetência das respostas estatais contra a crise. Não podemos também permitir que nossa saúde fique a mercê das decisões de empresários e patrões, que só se preocupam com seus lucros.

Por estes motivos, chamamos as e os trabalhadores para tomar em suas mãos a luta pelas medidas para enfrentar a crise, apresentamos algumas alternativas que colocam a vida dos trabalhadores acima dos lucros dos patrões.

a) o que só virá através da completa solidariedade entre as diversas categorias da classe trabalhadora, entre os que são ordenados a trabalhar via Home Office e a restante maioria que é obrigada a enfrentar aglomerações no transporte ou no trabalho, entre efetivos e terceirizados, informais e com direitos trabalhistas.

b) Uma medida básica é que todos os recursos necessários para a existência de condições sanitárias de trabalho adequadas sejam garantidas pelos patrões: desde álcool em gel, máscaras, luvas, até a reorganização da produção e das jornadas de trabalho, sem interferência nos salários e direitos, sem demissões ou ataques contra os trabalhadores.

c) Já sabemos que os empresários estão mais preocupados com seus lucros e o governo em salvar os capitalistas, logo é a partir da organização em cada local de trabalho que as medidas necessárias serão impostas pela classe trabalhadora, e não ordenadas de cima pelos ricos e políticos que tentam fazer a crise ser paga por nós. Por isso, é necessário organizar Comissões de Higiene e Segurança em todos os lugares de trabalho, com plenos poderes para investigar, consultar, questionar, as medidas que garantam a segurança das e dos trabalhadores e usuários (em casos de serviços públicos), que tenham também o poder de decidir a continuidade ou não do trabalho.

d) É mais do que necessário a derrubada do Teto de Gastos, imposto pelo governo golpista de Temer em 2016. Com isso, o governo poderá comprar e preparar a produção massiva de teste para o Covid-19 para a prevenção e contenção da circulação do vírus. O SUS deve receber a verba necessária para a reabertura dos leitos de UTI fechados e abertura de 3.200 novos; contratação de toda mão de obra necessária (trabalhadores da saúde desempregados, estudantes formados na área da saúde) para estar à altura da gravidade da pandemia.

e) Por fim, Licenças garantindo 100% dos salários (sob responsabilidade da empresa e do estado) para toda pessoa infectada ou em perigo de contágio, assim como de todas as pessoas maiores de 65 anos, e de pais e mães que não podem enviar seus filhos e filhas para as escolas que fecharam. Licenças pagas pelo estado e empresas para as e os trabalhadores precários, “de plataformas” ou imigrantes sem documentos em zonas afetadas, para que não se vejam obrigados a trabalhar expondo-se a infecção para receber seu salário. Proibição das demissões.




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