Opinião

TRIBUNA ABERTA

Holiday , o Capitão do Mato

Vanessa Oliveira

Professora do ABC

quinta-feira 7 de abril de 2016| Edição do dia

Está circulando umvídeo na internet de um jovem negro Fernando Holiday criticando as cotas, ele é um dos participantes do pró-impeachment que atuam de forma assídua a favor do sistema capitalista. É incrível a falta de conhecimento histórico e legislativo dele. Com falas bem rasas e com muitas ofensas, e até incitações machistas, ele alega que negro não precisa de cota, pois tem que conseguir as vagas na faculdade por mérito.

Vamos lá, será que ele sabe que as ações afirmativas são estabelecidas não só no Brasil, mas em muitos países para reparação histórica?

Um dos primeiros países que oficializou essa politica pública foi os Estados Unidos na década de 60 do século XX, para combater as diferenças entre brancos e negros. Elas são instituídas depois de uma análise e leitura do contexto histórico e social vivido do país, e assim que comprovada tais desigualdades e suas consequências na sociedade , devem gerar ações para sua reparação, essas politicas possuem prazo de validade e podem ser reavaliadas , ou seja, assim que a desigualdade não existir mais, as ações também perdem validade.

Sabemos que dentro desse sistema capitalista, tais reparações ainda são mínimas e precisam ser de fato acompanhadas para que realmente aconteçam, não é de forma alguma esse presente apresentado pelo Holiday, aliais o vestibular como sabemos parte dos critérios meritocratas onde a vaga na universidade é daquele que consegue a maior pontuação nas provas.

Como competir em situações desiguais? A pobreza aqui no Brasil tem cor, e mora em sua maioria em zonas periféricas onde o acesso à escola existe, porém as condições de estudos são precárias, faltam professores, materiais didáticos, acompanhamento pedagógico, o aluno muitas vezes precisa estudar no período noturno, pois trabalhar durante o dia. Enquanto a burguesia, maioria branca, tem escola privada de qualidade, estuda em tempo integral, não passa pelos apertos econômicos e sociais. Será que apenas o esforço individual é suficiente? Será que a pontuação que a ação afirmativa de cotas atribuiu ao negro, consegue equiparar todo o despreparo que os negros carregam desde seu inicio de vida escolar?

É óbvio que não, o número de negros nas universidades ainda é bem pequeno comparado aos número de brancos. Após a Abolição dos escravos, os negros ditos “livres” foram esmagados pelo processo Imigratório, e encurralados a se entregarem aos piores postos de trabalho. O estudo nessas condições muitas vezes não era priorizado, pois era necessário trabalhar para sobreviver. E esse jugo pesa sobre muitas famílias até hoje.

Ao falar que o negro não precisa de cotas para entrar na universidade, por que isso o inferioriza, expressam a falta de compreensão do contexto histórico do período colonial do Brasil, onde os brancos tiveram oportunidades privilegiadas para conseguir ascensão social, e o negro não teve os mesmos privilégios.

Holiday é o tipo de cara ideal para reforçar as ideologias da direita, onde o mérito está acima de todas as coisas, suas competências só dependem do seu esforço individual, práticas bem neoliberais, onde vence quem é o melhor.

É nítido que ele reproduz um texto pronto, e que estamos cansados de ouvir, e infelizmente muitos negros ainda concordam por estarem inseridos nesse sistema, que coloca o problema em nível individual, e não como um problema social gerado pelas desigualdades que o capitalismo produz.

Eu como mulher negra repudio, Holiday e essa posição pró-impeachment , pois seu discurso favorece apenas a Casa Grande, e ele como bom Capitão do Mato está defendendo os interesses do seu patrão. O impeachment de forma alguma irá favorecer as mulheres, estudantes, trabalhadores negros, ao contrário a burguesia com seu discurso saudosista quer mesmo voltar aos tempos da escravidão, vejamos a enorme quantidade de projetos de leis na Câmara e no Senado que estão sendo votados e que desfavorecem os direitos dos trabalhadores .

Nós como esquerda negra devemos nos posicionar a frente nesta luta, seguindo sim exemplos de resistência como do Zumbi dos Palmares, pois práticas racistas só terão fim quando o capitalismo for abaixo. Essa falácia de democracia racial só existe para quem ainda não percebeu sua cor, e as desigualdades que a cercam. Devemos construir cada vez mais um pensamento crítico e libertador para nos livrar desses grilhões que ainda nos perturbam diariamente, é Holiday é um desses grilhões.




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