Educação

VETO À EDUCAÇÃO

Hoje ocorre a Fuvest, prova que excluirá do ensino superior 130 mil inscritos

Fernando Pardal

@fepardal

domingo 26 de novembro| Edição do dia

137,5 mil inscritos concorrendo a 8.402 vagas. Esse é o absurdo quadro da Fuvest, vestibular da USP que ocorre hoje. Esses dados nos mostram um retrato pequeno, porém expressivo, do que é o excludente ensino superior no Brasil. Mais da metade dos cursos oferecidos pela USP, 58 de um total de 105, viram a concorrência pelas vagas aumentar nesse ano. Na Medicina, a concorrência dobrou, com 137 candidatos disputando cada vaga.

Sob o disfarce do "mérito", o vestibular é de fato um filtro social e econômico: aqueles que têm dinheiro para pagar escolas de elite, cursinhos preparatórios, que não precisam trabalhar e podem se dedicar integralmente à preparação para a prova, saem com uma vantagem imensa. E é esse o objetivo mesmo: a prova nada expressa sobre qualquer tipo de "capacidade" de quem a faz para ser um bom estudante ou profissional; ela apenas procura deixar de fora a juventude negra e pobre.

Nesse ano, pela primeira vez haverá cotas na USP: 37% das vagas serão reservadas para estudantes de escolas públicas, e dentro desse percentual 37% serão reservados para negros e indígenas. Esse número aumentará nos próximos anos: 40% para 2019, 45% em 2020 e 50% em 2021. Ainda que hoje a reitoria procure mentir e distorcer a história, dizendo que ela "heroicamente concedeu", como uma "princesa isabel das universidades", essa reserva de vagas - e infelizmente há quem corrobore essa versão - a verdade é que as cotas na USP, como qualquer conquista do povo negro no capitalismo, foram arrancadas com muita luta de estudantes, trabalhadores e do movimento negro. Se dependesse da reitoria e do Conselho Universitário racistas, jamais haveria cotas na USP.

A conquista das cotas representou um grande avanço contra o elitismo da USP, e um golpe nos que querem manter a universidade como uma "bolha de privilégios". Mas os números do vestibular mostram como é necessário lutarmos por muito mais. Entre os 129 mil inscritos na Fuvest que serão impedidos de estudar, a maioria são negros e filhos de trabalhadores. E isso sem falar nos que nem sequer se inscreveram, enxergando de antemão a USP como um "sonho impossível". A esses, quando há a possibilidade de fazer um curso superior, será nas universidades privadas, enriquecendo os capitalistas da educação e sem acesso a diversas possibilidades que só existem nas universidades públicas, onde além do ensino existe pesquisa e extensão. A luta pela garantia de acesso ao ensino superior universal se expressa no combate pelo fim do vestibular, para que nenhum jovem tenha mais que passar por algo como essa bizarra e excludente prova da Fuvest.

E hoje a situação é mais dramática: não se trata apenas da exclusão que vemos na Fuvest, mas de uma exclusão que está sendo aprimorada e gestada pelo Conselho Universitário e o governo estadual de Alckmin. São cortes no orçamento dos cursos, déficit de professores e funcionários técnico-administrativos, falta de vagas na moradia estudantil. A expressão mais terrível desse verdadeiro desmonte que está ocorrendo na USP é o recente fechamento do Pronto Socorro infantil do Hospital Universitário, o mais recente ataque em uma história de uma destruição que vem sendo implementada há anos no HU.

O que ocorre com a USP hoje está acontecendo de forma muito mais aguda e dramática em dezenas de universidades públicas pelo país. O caso mais emblemático talvez seja o da UERJ, com atraso nos salários e bolsas, bandejão fechado, aulas inviabilizadas. Não é à toa: a UERJ, a primeira universidade do país a implementar cotas, é composta por estudantes em grande parte negros, moradores das favelas ou das cidades da baixada fluminense. Mais uma vez, os ataques à educação dos governos capitalistas são feitos sobre os mais pobres e os negros.

Por isso tudo isso, temos que olhar para a prova da Fuvest e a exclusão promovida por ela com os olhos de todos os que serão excluídos do ensino superior por esse absurdo filtro. Com os olhos dos que não terão atendimento médico com a precarização do HU. Com os olhos dos trabalhadores terceirizados, em sua maioria mulheres negras, que são superexploradas para limpar a USP, mas que não têm direito de estudar ali. É necessário continuar, incansavelmente, a luta pelo fim do vestibular. Porque todos devem ter o direito de estudar. E sem pagar.




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