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FLORDELIS

Hipocrisia na Bancada Evangélica: contra o direito ao aborto, mas em defesa de Flordelis?

“A Frente Parlamentar Evangélica no Congresso Nacional vem a público lamentar profundamente os acontecimentos que envolvem a deputada federal Flordelis (Sem Partido). (...) Que Deus ilumine os caminhos dessa nossa Irmã em Cristo, que a justiça seja feita e a verdade prevaleça.” – diz nota no facebook da Bancada.

segunda-feira 31 de agosto| Edição do dia

A Bancada Evangélica, fonte de inúmeras aberrações da política brasileira, decidiu por afastar a pastora e deputada Flordelis até que a denúncia de que ela tenha sido a mandatária do assassinado do seu marido seja apurada. Mas a decisão foi tomada “no intuito de salvaguardar o bom nome da instituição” – o que já não é mais possível, visto que não há “bom nome” -, sem demonstrar desconfiança na índole da colega do Congresso. Ao contrário, a nota publicada no Facebook da Bancada deseja “que Deus ilumine os caminhos dessa nossa irmã em Cristo”. Sobre o caso da menina de 10 anos, estuprada por um familiar há 4 anos, não há nada na sua página dessa rede social.

Nada mais previsível que essa postura vinda dos parlamentares mais reacionários no Congresso. São eles os apoiadores do “terrivelmente evangélico” presidente Jair Bolsonaro em medidas como a anunciada na última sexta, de impor custódia policial para os casos de abortos que são previstos em lei. É essa a bancada preferida do pastor Silas Malafaia, que, sobre o caso da menina de 10 anos afirmou que aborto é pior que estupro, fazendo coro com os fundamentalistas que foram à porta de um hospital chamar uma criança violentada de assassina. A fascista Sara Winter, que organizou essa atrocidade, teria conseguido as informações da criança, que criminosamente fora divulgadas, com a ministra e também pastora Damares?

Mas não só da Bancada Evangélica existem pérolas lamentáveis para denunciar. Flordelis, na última sexta, apelou em um grupo de WhatsApp de mulheres do Congresso: "Querem caçar meu mandato venho aqui pedir a vocês pelo amor de Deus não deixem que façam isso comigo eu juro que vou conseguir provar a minha inocência e que vocês não se arrependerão de me ajudarem”. Mas, pelo histórico da instituição, não será necessário recorrer à “sororidade”. De 8 parlamentares acusados de homicídio, o Congresso cassou 2 dos mandatos e livraram os 6 demais. Um deles, Éder Mauro (PSD-PA), é inclusive pré-candidato à prefeitura de Belém. Um outro, Hildebrando Pascoal, é suspeito de ter integrado um grupo de extermínio que assassinava pessoas no Acre usando uma motosserra. Talvez Flordelis consiga se safar dessa.

Entenda o caso:

Na última segunda-feira, cinco filhos da deputada federal pelo RJ Flordelis foram presos por suspeita de assassinato do seu ex-marido, Anderson do Carmo, que foi assassinado no ano passado. Dois dos filhos assumiram a execução. A deputada, pastora e cantora góspel tem foro privilegiado, portanto não foi presa, mas é suspeita de mandante do crime. Anderson e Flordelis tinham 55 filhos, sendo 51 adotivos, e a família funcionava como uma empresa em que Anderson era gerente, administrando o dinheiro vindo da lucrativa carreira de Flordelis como cantora, pastora e parlamentar, mas também de alguns filhos que tinham cargos no seu gabinete no Rio de Janeiro.

A “família tradicional brasileira” e o discurso "pró-vida" são uma farsa

Os e as trabalhadoras nada têm a ganhar com a hipocrisia da Bancada Evangélica, que junto à Bancada Ruralista representa os costumes mais atrasados de uma sociedade construída sobre valores escravocratas e racistas, de subordinação das mulheres e crianças às mais perversas violências e de discriminação em razão de orientação sexual e identidade de gênero. Isso faz com que o Brasil seja um dos países com os maiores índices de assassinatos de LGBTs, feminicídios, abuso infantil e assassinatos de pessoas negras, sobretudo pela polícia.

Por trás da defesa desses valores está a defesa da superexploração de todos os trabalhadores, e isso, a maioria do Congresso defende, mesmo figuras como Rodrigo Maia que se colocam contra Bolsonaro. Por isso é preciso unificar negros e brancos, mulheres homens, LGBTs ou não, em defesa da integridade e vida das crianças e em defesa da vida das mulheres. A criminalização do aborto faz com que morram, por dia, 4 mulheres, sendo 3 delas negras, configurando um grave problema de saúde pública.

Por isso, lutamos por educação sexual nas escolas, para que as crianças possam se defender e as experiências sexuais consensuais de adolescentes sejam saudáveis; contraceptivos para que as mulheres possam engravidar apenas se quiserem; e aborto legal, seguro e gratuito, garantido pelo SUS, para que as mulheres não sigam morrendo.

Fonte: UOL




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