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RACISMO

Herança escravocrata e banalização da violência

Os jornais noticiaram no dia 07/07 a morte de um homem negro, Cleidenilson Pereira da Silva, que foi amarrado em um poste e espancado até a morte em São Luis do Maranhão após ter furtado um bar. Foi pego pelos moradores do local, que fizeram “justiça” com as próprias mãos.

quarta-feira 15 de julho de 2015| Edição do dia

O caso repercutiu por toda a mídia pela gravidade do ocorrido, porém a discussão gerada, como de costume, não problematizou as estruturas econômicas e sociais responsáveis pela desigualdade social e o racismo, mas naturalizou o linchamento.

A grande mídia noticiou outros casos semelhantes em que pessoas sedentas por “justiça” amarraram e espancaram jovens negros, que cometeram pequenos delitos, buscando o fim da criminalidade e violência social.

Dentre os casos emblemáticos, noticiou-se de um jovem negro que foi amarrado, nu, a um poste no Rio de Janeiro. Na época, o ocorrido ganhou mais visibilidade porque a apresentadora do SBT, Rachel Sheherazade, afirmou que o espancamento do rapaz era justificável. Meses depois, soube-se que os agressores do jovem eram criminosos violentos, com histórico de estupro, tráfico e lesão corporal.

Daniel Jesus de Aquino, homem negro de 31 anos, foi preso na 34ªDP (Bangu) após ser amarrado e espancado por civis em Senador Câmara. Foi linchado após roubar o celular de uma mulher. Ele já tinha três passagens por roubo e furto.

Em Niterói, um adolescente foi amarrado em um poste logo após ter roubado, juntamente a um outro menor de idade, os pertences de duas mulheres que saíam da academia no Jardim Icaraí. Um aluno da academia e um taxista seguraram o adolescente até a chegada da Polícia Militar, que conduziu todos até a unidade policial.

Em contrapartida, o filho do empresário Eike Batista, Thor Batista, foi absolvido após atropelar e matar Wanderson dos Santos, 30 anos. O acidente ocorreu quando Thor – homem branco e rico - voltava de Petrópolis, na região serrada do Rio de Janeiro. Não houve tentativas de linchamento ao filho do bilionário.

Vemos que é cresce os casos de linchamentos em diferentes lugares do Brasil. Está se tornando uma prática comum aos moradores das distintas regiões por acreditarem que é necessário aplicar “métodos de justiça”, tendo como o objetivo não só a punição, mas buscando também ensinar as demais pessoas a não fazer o mesmo por medo das medidas que lhes serão aplicadas.

É perceptível a busca da população por segurança, porém é necessário problematizar a forma como tal necessidade está tentando ser alcançada. Pequenos delitos cometidos, em geral, por jovens negros da periferia estão sendo brutalmente recriminados pelas próprias mãos das pessoas que vivem nas regiões onde os casos acontecem. No entanto, nota-se que a desigualdade social e o racismo marginaliza a juventude negra e a impede de ter acesso a boa educação e a bons postos de trabalho.

O jargão “Bandido bom é bandido morto” é usado de modo a justificar a repressão policial e as atitudes tomadas pelos “justiceiros”, como também para propagar uma ideologia racista e excludente incapaz de ser consequente com as necessidades da população por estar a serviço da classe dominante e de seus lucros.

A grande mídia colabora para a propagação desta ideologia ao noticiar os assaltos e os pequenos delitos de forma sensacionalista e escandalosa, incitando o ódio e desviando o foco da discussão de modo a culpabilizar a população pobre, sem questionar abertamente as razões sociais responsáveis pela criminalidade.

É vigente um senso de moralidade, construído historicamente por nossas bases cristãs em convergência com a ideologia burguesa, responsável por classificar os indivíduos de uma comunidade como bons ou maus de acordo com suas atitudes, criando assim um pensamento maniqueísta capaz de invisibilizar as contradições sociais e individualizar os problemas.

Vivemos em um sistema capitalista, alicerçado na exploração e nas opressões. Nossa sociedade de classes é desigual e injusta, de modo a submeter grande parte das pessoas a condições precárias de vida. Saúde, educação, moradia e lazer públicos, gratuitos e de qualidade são necessidades negadas diariamente, enquanto os aparatos repressores do Estado se fortalecem e são a cada dia mais naturalizados no cotidiano do povo pobre.

Do tronco ao poste

A formação das classes no Brasil está intimamente ligada ao racismo devido aos duzentos anos de escravidão do povo negro. O racismo no país é estrutural, ou seja, é base da constituição da sociedade brasileira.

A composição majoritária da juventude pobre e da classe trabalhadora é negra. Historicamente, o negro é tido como um ser inferior e, portanto, segundo os valores hegemônicos e meritocráticos, deve ocupar os lugares marginais na sociedade e ser submetido as piores situações, incluindo também a condição de animalidade.

Como vimos durante a escravidão quando os negros escravizados erram colocados em troncos e açoitados até a morte por desobedecer aos senhores de engenho e vemos se repetir no presente nos casos punição pública.




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