Opinião

ANÁLISE NACIONAL

“Haddad ao governo, Lula ao poder”?

A transmissão do bastão da candidatura presidencial do PT, de Lula para Haddad, foi realizada conforme rota planejada por Lula. Nesse momento específico das eleições – pode ser diferente no decorrer dela – Lula unifica o PT sob sua égide na campanha de Haddad.

André Augusto

Natal | @AcierAndy

sexta-feira 14 de setembro| Edição do dia

Vetado autoritariamente por uma oligarquia judicial que faria até um moderado Montesquieu revirar a tumba, no interior de eleições manipuladas pelos agentes do golpe institucional, um líder popular reformista como Lula se viu diante da constatação: mesmo a contragosto, se deseja ganhar as eleições, teria de nomear seu substituto.

Lula escolheu como seu sucessor o candidato mais pró-mercado do PT. Haddad é historicamente conhecido como sendo, dentre os petistas, o nome que tem melhor trânsito tanto no antipetista PSDB (do qual já recebeu elogios pela boca de ninguém menos que Fernando Henrique Cardoso), mas também no mercado financeiro. Em suas primeiras aparições como sucessor de Lula, o novo candidato do PT tem feito questão de ressaltar que durante seu mandato como prefeito de São Paulo, conseguiu “investiment grade” para as contas do maior orçamento municipal do país, ou seja, o reconhecimento dos mercados financeiros de que sua prioridade foi o ajuste das contas públicas para conseguir créditos.

A nomeação de Haddad teve duas características. A primeira, é que Lula conseguiu ungir um substituto com a menor autonomia possível, “sem poderes próprios”; dessa maneira, deixou mais que claro que os votos de Haddad pertencem todos a Lula.

A segunda característica, que deriva dessa primeira, é que Lula conseguiu bloquear momentaneamente a pressão dos “poderes fáticos” para que Haddad rompesse com ele; é sabido que distintas alas do golpismo exigiam que o PT coroasse um substituto com autonomia, que eliminasse a necessidade de negociação com Lula e asfixiasse sua figura, mesmo sendo um ícone histórico da submissão do PT à institucionalidade burguesa.

Coerente com a estratégia de consolidar a transferência dos votos “petistas duros” na primeira fase da campanha para passar para o segundo turno, a presidente do PT e porta voz de Lula, Gleisi Hoffmann, declarou que a prioridade de Haddad agora não é o “mercado” e sim “tomar um banho de povo”. Entretanto, já nos seus primeiros dias de campanha como candidato oficial, Haddad começou a ser tratado por algumas das principais vozes do mercado financeiro internacional como “moderado” e “conservador fiscal”.

Essa é a contradição da “solução de compromisso” encontrada pelo PT para a sucessão de Lula: ao mesmo tempo em que Haddad seria o melhor candidato para dialogar com votantes não petistas e mostrar potencial governabilidade junto aos “mercados” num segundo turno; é também o candidato mais suscetível a passar de malas e bagagens aos interesses do “mercado” e dos golpistas, o que resultaria em um choque com as ilusões reformistas que estão sendo alentadas pela campanha eleitoral do PT.

Nesse marco, a disputa surda ao redor do momento da transição foi um “primeiro ato” no interior da disputa real de poder no PT. Levando em consideração que são eleições manipuladas pelo golpe e todo tipo de fraude pode surgir, se a despeito disso Haddad avança nas eleições, a pressão pela integração ao regime golpista se fará sentir com maior vigor (Haddad terá de colher votos para além da base petista, e nisso provavelmente será incentivado por Lula).

Ou seja, num eventual segundo turno, giraria mais à direita a campanha de Haddad, possivelmente com o beneplácito de Lula.

A real pressão do regime sobre Haddad começaria após eventual triunfo – e para isso Lula se prepara, já que a seu despeito, Haddad ganhará maior margem de manobra para poder atuar – e não está descartado que seja com um projeto próprio, que não envolva a dependência a Lula.

Em sua Carta ao povo brasileiro, Lula diz que “Nós já somos milhões de Lulas e, de hoje em diante, Fernando Haddad será Lula para milhões de brasileiros”. Não poupou passagens que demonstrassem que Haddad é “seu representante leal”. Colocou “lulistas fiéis” como Ricardo Berzoini e Sérgio Gabrielli ao lado de Haddad, para não deixar dúvidas de que se prepara para uma disputa real de poder.

O analista Rodrigo de Almeida havia, à sua maneira, apresentado as razões de Lula: “Na estratégia concebida e executada desde a sua prisão, Lula atuou o tempo inteiro não para viabilizar o sucessor de uma candidatura fadada a ser impugnada, mas para viabilizar a si mesmo, política e criminalmente”.

Lula, sem dúvida, atua para que o PT vença as eleições. Ligado a isso, a delonga em “ungir” Haddad se deu para que o ungido fosse completamente manejável, e que permita Lula preservar boa parte do poder no interior do PT. Inclusive para eventualmente voltar ao governo num mandato petista (projeto que contradiz as intenções do golpismo, que quer dar “aposentadoria forçada” a Lula através de sua prisão arbitrária e o veto a sua candidatura).

Tanto pela postulação de um substituto que o possa trazer de volta à política, quanto pelas disputas internas no PT, poderíamos nos perguntar: seria a campanha de Haddad uma nova versão, em um palco histórico distinto, da consigna “Cámpora ao governo, Perón ao poder” (agora, “Haddad ao governo, Lula ao poder”), alentada pelo peronismo na Argentina de meados dos anos 70?

Seria Haddad um Cámpora?

Analistas de distintos espectros políticos – desde Myriam Leitão do Globo a Breno Altman do Opera Mundi – recorrem, à sua maneira, ao exemplo argentino para entender a tática eleitoral de Lula.

Há 46 anos o ex-presidente Juan Domingo Perón, franco favorito para vencer as eleições, também foi impedido de disputar. Deposto da presidência por um golpe militar em 1955, Perón vivia havia 17 anos no exílio na Espanha. Seu primeiro retorno se deu em 1972, por breve período, depois do qual voltou à Espanha. O critério estabelecido pelos militares era que, para disputar as eleições, “dever-se-ia ser residente argentino”.

No fim da ditadura argentina de Onganía-Lanusse, em maio de 1973, ocorreu a Perón nomear um velho dentista do interior como seu delegado pessoal para as eleições presidenciais. Os militares haviam dado a Perón uma data para retornar ao país e ser candidato legal. Sem aceitar o plano estipulado, que o fazia aparecer como fantoche dos militares em um ambiente radicalizado pelo Cordobazo, Perón nomeou Hector Cámpora como seu “candidato-delegado”.

Respaldado pela juventude peronista, Cámpora percorreu o país apresentando-se como o candidato de Perón. Era chamado de "El Tío", porque era considerado irmão de "el padre Perón". O lema de sua campanha era "Cámpora ao governo, Perón ao poder".

Cámpora venceu as eleições com 49,5% dos votos. Em 27 de maio de 1973, o novo presidente promulgou a lei 20.508, que indultava todos os combatentes e não combatentes que haviam sido presos durante a ditadura, preparando o caminho para o retorno do líder peronista.

Perón voltou ao país em 20 de junho de 1973, trazido ao país por Cámpora depois de recebê-lo friamente no exílio. Com o apoio da burocracia sindical, ao grito de “o governo é de Perón”, colocava um fim de facto ao governo Cámpora. Diante das circunstâncias, Cámpora renunciou, no dia 13 de julho de 1973, e convocou novas eleições – nas quais Perón foi reeleito com esmagadores 62% dos votos. Cámpora fora então nomeado como embaixador do México.

Segundo essa analogia, Haddad seria o “Cámpora petista” que abriria alas a Lula. O líder petista tem hoje 3 anos a menos do que tinha Perón quando assumiu novamente a presidência argentina.

Myriam Leitão, em sua coluna ao Globo, chega a dizer que “a diferença entre os dois casos é que Cámpora tentava contornar o veto militar ao ex-presidente”, enquanto no Brasil, “a impugnação de Lula é decorrência de uma lei democrática e não uma conspiração das elites”.

Se é certo que o próprio PT, em 2010, sancionou a Lei da Ficha Limpa – que entrega superpoderes ao judiciário para eliminar qualquer traço de soberania popular – que ora asfixia seu líder, também é certo que o veto a Lula é uma medida absolutamente autoritária e liberticida, continuidade do golpe institucional defendido por Myriam Leitão.

Limites na analogia

A situação brasileira é muito diferente daquela que serviu de palco à tática eleitoral peronista. Tratava-se de um ascenso de massas desde o “Cordobazo”, com a classe trabalhadora argentina junto a estudantes, influenciados pelo Maio de 1968 na França, ferindo de morte a ditadura de Onganía.

No Brasil, não há mobilizações de massas, e a percepção das eleições como “batalha principal” é oriunda da enorme desmoralização imposta pelo próprio PT sobre amplos setores, bloqueando através da burocracia sindical que controla os principais sindicatos do país a transformação do enorme peso social da classe trabalhadora em peso político independente – especialmente nas greves gerais de 2017 que poderiam ter colocado em xeque o governo golpista de Temer. Nisso, Breno Altman ignora em absoluto o papel do PT como agente da passividade a nível de massas.

Além disso, Perón, que em seus dois primeiros governos nos anos 40 e 50, foi um político nacional-desenvolvimentista, apoiou-se na industrialização capitalista e em um programa de reformas concessivas às massas; já em seu retorno dos anos 70 opera um giro à direita, com um “pacto social” para descarregar a crise do petróleo sobre os trabalhadores e setores populares, que incluía reprimir – com o que fosse necessário – à vanguarda operária e aos grupos guerrilheiros e nacionalistas.

Lula foi um político neodesenvolvimentista social-liberal, que desenvolveu, nos marcos da estrutura econômica neoliberal que herdou de FHC, o estatismo que era permitido pelo ciclo econômico favorável da década de 2000. Nesse sentido, retomando a categoria de Leon Trotsky, Lula não é um “bonapartismo sui generis de esquerda”, como os de Cárdenas, Vargas ou Perón entre os anos 30 e 50 do século passado. Os fenômenos bonapartistas sempre se baseiam em alas politizadas das Forças Armadas como aparato de domínio e em sindicatos arregimentados, com o objetivo de apoiar-se relativamente nos explorados para dar algumas reivindicações ao movimento de massas e negociar com o imperialismo.

Os fatos que se deram na Argentina não se parecem com o Brasil porque Perón era um militar bonapartista que ao mesmo tempo em que alentava as formações armadas de esquerda contra a ditadura, também fomentava a direita peronista fascistoide e a direitista burocracia sindical.

Lula não é um “bonapartista” mais que no sentido de que quer conservar o poder dentro do PT num momento em que está preso.

Sem esta relação com as Forças Armadas, e numa etapa capitalista posterior à década neoliberal, Lula deu ao PT a figura de uma “socialdemocracia da periferia”, apoiando-se especialmente nas poderosas organizações sindicais, cujas burocracias transmitiam a influência partidária ao movimento de massas (fazendo concessões limitadas, e controlando sua atividade, separando as lutas econômicas da política), e também apoiado nos setores mais pobres da população, beneficiados por programas sociais. Como reconhece o próprio André Singer, o “reformismo fraco” lulista “levava os antigos miseráveis à condição de novos pobres” (“O lulismo em crise”, p. 86), sobre os quais também buscava sustentar-se através dos programas assistenciais como o Bolsa Família.

O “reformismo light” do lulismo se orientou a garantir o máximo lucro aos capitalistas, e a tranquilidade aos investidores estrangeiros através da contenção da luta de classes: como vimos durante as greves selvagens do PAC, as posteriores Jornadas de Junho de 2013, a onda de greves de 2014 e as lutas do funcionalismo. Dados do DIEESE mostram que já em 2012, as greves provocaram 87 mil horas de paralisação, o maior índice desde 1997. Houve 873 greves em 2012, saltando para 2050 em 2013, continuando a crescer em 2014, batendo a marca de 111 mil horas paralisadas (Dieese, “Balanço das greves em 2012”, Estudos e Pesquisas, n. 66, maio de 2013).

Para a contenção dessas expressões de luta, a burocracia sindical petista (especialmente a CUT) foi fundamental: para fragmentar, isolar e derrotar os trabalhadores, e com isso construir a passividade do movimento operário tanto no período anterior ao golpe institucional, como posteriormente.

Possibilidade de maior luta de classes

Na Argentina, com a morte de Perón (9 meses depois de assumir), em 1974 e sob a crise internacional do petróleo, se desatou uma luta feroz entre a direita fascista, baseada na polícia e organizada nas “triple A” (ou “Aliança Anticomunista Argentina”), esquadrão da morte de extrema direita, que perseguia a esquerda e os trabalhadores, com apoio da burocracia sindical e fomentada por Perón, e os grupos armados guerrilheiros nacionalistas e de esquerda. Também o movimento operário, frente a uma crise que terminou em hiperinflação, criou as coordenadoras interfabris (pré-soviéticas) e foi a uma greve geral de duas semanas para que o governo de Isabel Perón aceitasse salários à altura da inflação. Ou seja, uma luta entre revolução e contrarrevolução aberta, que ante a inexistência de um partido revolucionário terminou meses depois com o golpe genocida de 1976.

Sem dúvida há enormes limites, portanto, na analogia Perón-Cámpora, que transcendem o espaço limitado deste artigo. Mas há sempre alguma riqueza a extrair no campo da história, que auxilia a previsão de tendências e a antecipação de uma política correta.

A contradição que pode sair à superfície se Haddad ganha é que Lula não vai conformar-se com um “indulto” (perdão). Quer provar sua inocência através de uma anistia e, sobretudo, poderia reclamar seu direito à presidência.

É um fato que, ganhe quem ganhe as eleições, os crescentes elementos de intervenção militar na política para respaldar um regime golpista tutelado pelo poder judiciário vieram para ficar. Já em abril, quando o STF iria decidir sobre eventual habeas corpus a favor da liberdade de Lula durante o julgamento na terceira instância, a cúpula militar saiu a público a ameaçar contra uma eventual sentença favorável ao ex-presidente. Na última semana, novamente, quando o STF iria decidir sobre novos recursos em favor do petista preso, a representação oficial do Alto Comando, representada pelo General Villas Boas, saiu novamente a “pressionar” contra Lula, ao mesmo tempo em que lançou dúvidas sobre a legitimidade de um próximo governo.

A existência de Bolsonaro, os crescentes elementos de intervenção militar na política, a alta votação que as pesquisas projetam ao PT, os princípios de violência política com o ataque à caravana de Lula e o atentado a Bolsonaro, somado às lutas internas do PT – tudo isso no contexto de 25 milhões de desempregados e de uma economia que não decola – mostram um panorama que, para além da conjuntura eleitoral, augura forte luta de classes.

Uma esquerda com independência de classe, para que os capitalistas paguem pela crise

Partimos do pressuposto, vale frisar, de que nestas eleições manipuladas é possível que o golpismo lance mão de variadas fraudes para impedir um governo indesejado. Isso fica evidente com as inúmeras manobras do autoritarismo judicial, e as manifestações do Alto Comando das Forças Armadas, todos a serviço da continuidade do golpe institucional e da tutela das eleições.

Feita esta ressalva, o que é certo é que o ex-prefeito de São Paulo precisa dos votos de Lula para avançar nas eleições e eventualmente coroar-se vencedor; nesse momento do pleito eleitoral, em que a falta de autonomia de Haddad é um condicionante para que possa vencer, tudo indica que o PT seguirá unificado. As dúvidas começariam no dia seguinte a uma eventual ida ao segundo turno, e muito mais num eventual triunfo. Nesse cenário, não está claro como Haddad lidaria com a submissão a Lula, diante da pressão para integrar-se ao regime golpista. Outra variante possível é que, num eventual governo, o próprio Lula atue junto a Haddad contra o movimento de massas que terá de sair a campo contra os ajustes exigidos pelos capitalistas.

Lula, por sua parte, sabe que as tensões de fundo no PT seguirão, e é o principal interessado em coibir as investidas – cada vez mais fortes – do regime para que Haddad se despoje do preceptor. Um dos objetivos do golpismo é livrar-se da necessidade de negociar com o poder de Lula sobre o movimento de massas (através da burocracia sindical petista) e os setores mais pobres da população que deram sustentação a seus governos.

Tirante possíveis fraudes, o esboço do segundo turno se dá, por ora, entre o reacionário Bolsonaro (que arrebatou aos tucanos o lugar de preeminência no polo “antipetista”) e o candidato “Haddad é Lula” (ainda em disputa com Ciro Gomes pela preeminência imediata no polo “antibolsonarista”, mas com a vantagem de ter Lula como cabo eleitoral).

Se a representação da direita aparece “renovada” com o rosto da extrema direita (trata-se de uma novidade política no país uma extrema direita com mais de 20% dos votos), por outro lado o reformismo do PT obteve certa “revitalização senil” (dizemos “senil” porque já não há nenhuma condição econômica, nacional ou internacional, para implementar as escassas reformas que o lulismo fez na década de 2000). Um eventual governo Haddad seria uma versão piorada do “Dilma 2”, chocando-se mais ou menos rapidamente com as ilusões alimentadas durante a campanha eleitoral.

Basta ver como atuam os fenômenos “neorreformistas” na América Latina, como López Obrador no México, que depois da demagogia popular quer avançar com uma reforma da previdência que eleve para 68 anos a idade de aposentadoria.

O caráter senil que já se desenha nesta revitalização do PT é o fundamento do por quê é preciso preparar, teórica e praticamente, uma esquerda anticapitalista e revolucionária, para quando as massas avancem em sua experiência com o PT.

Nós do MRT que impulsionamos o Esquerda Diário, ao mesmo tempo em que denunciamos o veto bonapartista do judiciário que impediu a população de escolher votar em Lula, não apoiamos o voto no PT, nem em qualquer de suas candidaturas, e criticamos duramente sua estratégia de conciliação de classes que abriu o caminho ao golpe institucional.

Veja aqui: Ciro Gomes não é nenhuma alternativa para enfrentar a direita golpista

Veja também: O PT como “mal menor” ajuda a combater o golpismo e a direita?

Mais que nunca é necessário o fortalecimento de uma esquerda que aposta na luta de classes dos trabalhadores, das mulheres e da juventude, com um programa de independência de classe dos trabalhadores que supere a conciliação petista.




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